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Eleitora vota, em Brasília, em 2010

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Baixa participação da mulher na política tem relação com falta de incentivo dos partidos

Criado em 03/10/12 18h45 e atualizado em 05/01/15 11h14
Por Alana Gandra Edição:Aécio Amado Fonte:Agência Brasil

Eleições 2012
Eleitora vota, em Brasília, em 2010 (Marcello Casal Jr./ABr)

Rio de Janeiro - O pouco interesse dos partidos políticos no incentivo à participação feminina explica, em boa parte, o número reduzido de mulheres candidatas nesta eleição, em comparação à participação masculina, analisou hoje (3), em entrevista à Agência Brasil, a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, diretora da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e professora da Universidade Federal de São Carlos.

De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), do total de 448.771 candidatos às eleições municipais deste ano em todo o país, as mulheres representam a terça parte (30,702%), ou 137.783, enquanto os candidatos masculinos somam 310.988, o que equivale a 69,298%. No estado do Rio de Janeiro, o quadro se repete: os homens somam 13.869 candidatos, englobando postulantes aos cargos de prefeito, vice-prefeito e vereadores, com 69,894% do total, enquanto as mulheres alcançam 30,106% (5.974 candidatas).

Maria do Socorro explicou que a participação das mulheres na política, enquanto candidatas, tem aumentado no Brasil. “Mas é uma subida muito fraca”. Há, segundo ela, várias explicações para isso. Uma delas é que a mulher, de forma geral, entrou tardiamente na política. A participação eleitoral feminina começou em 1932, quando o direito ao voto foi concedido oficialmente às mulheres. Para ser elegível, porém, o processo foi mais longo.

“Demorou um pouco mais para ter maior espaço na política. E isso se reflete nos partidos políticos, que não criam condições ainda adequadas para ajudar a ampliar as candidaturas femininas”, ressaltou a diretora da ABCP. Segundo ela, em geral, as mulheres que se candidatam a algum cargo político vêm de movimentos sociais, e são, principalmente, “mulheres mais à esquerda”. Elas têm um nível de desenvolvimento maior para ter uma base eleitoral, enquanto muitos partidos de direita estão mais relacionados com as famílias tradicionais, os chamados “clãs políticos”, que acabam ajudando em termos de recursos para a campanha.

A professora destacou que, inclusive nos programas políticos, foi preciso que a legislação estabelecesse um percentual para a manifestação das mulheres candidatas na televisão. “Os partidos agora são obrigados a conceder pelo menos 10% do tempo às mulheres. Antes, nem isso a gente tinha. Então, aos pouquinhos, penso que a democracia brasileira vai criando maiores condições para que a mulher possa lutar em pé de igualdade e ampliar esse espaço na política partidária nacional”.

Maria do Socorro admitiu que existe também algum desinteresse das mulheres pela vida política, gerado pela dupla carga de trabalho feminino em casa e fora do lar, ou ainda pelo fato de julgarem não ter a preparação necessária para desempenhar um papel na arena política. “Isso pode levar a um grau de menor interesse das mulheres”, avaliou. Mas não é necessariamente só isso, advertiu. Essas questões atingem uma parte das mulheres, disse a cientista política.

Ela ressaltou que existe a questão do baixo incentivo dos partidos políticos, que contribui para desestimular a participação feminina nas eleições. Sustentou que se houver partidos mais preocupados, inclusive arrecadando fundos para bancar as campanhas das candidatas, a participação feminina nas eleições poderá crescer.

A superintendente de Direitos da Mulher do Rio de Janeiro, Angela Fontes, declarou que a menor participação feminina na política é um fenômeno que ocorre no mundo inteiro. No caso do Brasil, ressaltou que ainda não houve a reforma política, com listas fechadas que permitissem a divisão equitativa de votos, como houve na Argentina, cujo parlamento experimentou aumento da presença feminina.

Angela Fontes citou outro fator que reduz a participação da mulher na eleição, que é o financiamento de campanha. “Pelo fato de os homens estarem há muitos anos à frente dessa questão partidária, eles são colocados como puxadores de votos. E as campanhas deles são priorizadas e não as das mulheres. “Nós, mulheres, não temos recursos para campanha”, disse. Segundo ela, a minirreforma política promovida no país definiu que 5% do Fundo Partidário deveriam ser aplicados na capacitação política de mulheres, “o que nem sempre tem ocorrido. É algo que a gente precisa estar mais preocupada, cobrando mais à frente”.

A superintendente destacou que as mulheres precisam também estar mais presentes nos partidos políticos, como ocorre nos movimentos sociais, “para poder até ter um retorno de toda essa vivência que a gente busca”.

Um ponto positivo, segundo Angela, foi a questão das cotas. Pela primeira vez, uma mudança na legislação estabeleceu o mínimo de 30% e o máximo de 70% para candidaturas de cada sexo. Sem atender a esse parcelamento, os partidos não conseguem registrar candidatos. “Tem que ter um equilíbrio”, disse. Se o partido não consegue, por exemplo, 30 mulheres e 70 homens, terá que diminuir o número de homens até alcançar o equilíbrio entre os dois sexos, esclareceu.

 

Edição: Aécio Amado

 

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