Digite sua busca e aperte enter


Igreja de São Francisco na Pampulha, em Belo Horizonte (MG)

Imagem:

Compartilhar:

Niemeyer e Joaquim Cardozo: uma parceria mágica entre arquiteto e engenheiro

Criado em 06/12/12 05h10 e atualizado em 06/12/12 11h31
Por Mariana Branco Edição:Tereza Barbosa Fonte:Repórter da Agência Brasil

Igreja de São Francisco na Pampulha
Igreja de São Francisco na Pampulha, em Belo Horizonte (MG) (Creative Commons)

Brasília - Quem olha para os edifícios e monumentos de Brasília lembra-se logo de Oscar Niemeyer, arquiteto que criou os desenhos que deram origem a um dos urbanismos mais arrojados do mundo. Muitos admiradores não pensam, no entanto, que alguns dos prédios mais impressionantes da capital não existiriam sem a dedicação dos engenheiros que compraram os desafios propostos pelo arquiteto.

Um dos mais importantes foi o pernambucano Joaquim Cardozo, morto em 1978, que, além de engenheiro, foi poeta. Seus cálculos ajudaram a erguer nada menos que a Catedral Metropolitana, o Palácio da Alvorada, o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional. Para especialistas, a parceria de Cardozo com Niemeyer foi um encontro que não poderia ter dado mais certo.

“Essa colaboração foi uma das convergências mais mágicas entre arquiteto e engenheiro de que se tem notícia”, afirma o arquiteto e urbanista Frederico Flósculo, professor da Universidade de Brasília (UnB). Segundo Flósculo, Niemeyer tinha um domínio “intuitivo” do uso do concreto.

“Ele tinha o conhecimento intuitivo e seus engenheiros traziam aquilo à compreensão científica. Niemeyer jamais fez um desenho tolo. Ele estimulou os engenheiros a bolar cálculos inovadores. Foi uma escola de engenharia que se formou em torno de Oscar Niemeyer”, diz, ressaltando que o arquiteto encontrou em Cardozo e em outros profissionais a ajuda para erguer estruturas complexas.

Saiba mais:

Morre Oscar Niemeyer aos 104 anos
Corpo será velado no Palácio do Planalto
Dilma lamenta morte de Oscar Niemeyer
Governador Sérgio Cabral decreta luto oficial no Rio de Janeiro 
De mente e mãos rápidas, Niemeyer marcou um novo estilo de fazer arquitetura
Obras de Niemeyer espalham-se por diversos países
Obra de Niemeyer é única e nunca será reproduzida, diz arquiteto

A primeira obra em que o pernambucano e Niemeyer atuaram juntos foi a Igrejinha da Pampulha, às margens da lagoa que leva o mesmo nome, em Belo Horizonte. “Eles começaram a parceria ali, onde você já vê formas completamente inusitadas”, comenta a arquiteta Fabiana Izaga,vice-presidente de Relações Institucionais do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB).

Fabiana destaca que, quando começou a trabalhar com Niemeyer, Cardozo já participara de projetos não tão convencionais, como a famosa caixa d'água Cobogó, em Olinda (PE), do arquiteto Luiz Nunes.

"Cardozo era mais velho. A diferença entre ele e Niemeyer era de dez anos, quase uma geração", relata. Para a a arquiteta, o trabalho de Joaquim Cardozo até hoje não recebeu o reconhecimento devido em trabalhos acadêmicos e reportagens sobre a obra de Oscar Niemeyer. "Ele é muito pouco falado", comenta.

Essa é também a opinião do arquiteto Carlos Magalhães da Silveira, ex-genro de Oscar Niemeyer, chefe do escritório do arquiteto, e que conheceu Cardozo de perto. "Ele foi poeta a vida inteira, foi um grande colaborador do Oscar e é pouco citado. Suas hipóteses de cálculo permitiram que os prédios de Brasília apenas toquem no terreno. Joaquim Cardozo estava à frente das normas", diz Magalhães.

Segundo ele, uma das soluções para que obras como o Palácio do Planalto e o Palácio da Alvorada somente toquem o chão com bases delicadas foi a distribuição do ferro nessas estruturas. "Ele [Cardozo] usava um percentual de ferro maior, que permitia que a base tocasse o terreno como uma agulha, uma coisa fininha. O difícil era colocar uma quantidade que atingisse esse objetivo e a base não ficasse feia, ficasse delgada", explica.

Para Flósculo, o maior desafio de Cardozo nessas duas obras e na Catedral Metropolitana foi fazer com que grandes cargas passassem por pequenas sessões. "Envolve a resistência do concreto. Se você colocar muita carga, vai explodir. O segredo era usar estruturas ocultas. Por trás do pezinho de bailarina no Palácio da Alvorada tem uma pata de elefante, só que não se vê. Na Catedral, o truque é que a forma circular forma um grande anel de compressão. Além disso, as pessoas só veem sete ou oito pilares e, na verdade, são dezesseis. Como não é possível ver todos de uma vez, ela dá aquela sensação de coisa flutuando no ar", explica.

Flósculo pondera que o trabalho de Oscar Niemeyer e Joaquim Cardozo torna-se ainda mais impressionante pelo fato de, na época da construção de Brasília, a resistência do concreto ser menor do que nos dias de hoje. "Desde que eles fizeram prédios como a Catedral, a resistência já aumentou cinco vezes, 100% a cada década."

Outra coisa que impressiona é que Cardozo e os demais engenheiros e calculistas de Niemeyer não dispunham de computador. Suas contas eram feitas na ponta do lápis. A arquiteta Fabiana Izaga, entretanto, não acredita que esse detalhe seja determinante. "Se dependêssemos do computador para as obras de grande envergadura, não teríamos a Basílica de São Pedro [situada na Praça de São Pedro, no Vaticano]. O templo foi edificado, pela primeira, vez nos anos 300 depois de Cristo [d.C] e reconstruído nos anos 1.500 e 1.600 d.C. O computador facilita, mas o que essa geração de Joaquim Cardozo tinha era uma audácia enorme. Eles encarnaram o espírito de uma época muito peculiar".

O arquiteto Carlos Magalhães lamenta o fim melancólico de Joaquim Cardozo. Em 1971, a obra do Palácio de Exposições do Bairro da Gameleira, em Belo Horizonte, que tinha a sua participação, desabou matando 69 operários e ferindo 50. "Foi um acidente com o prédio dele, mas ele já estava velho e foram seus auxiliares que trabalharam. Ele foi julgado, absolvido e deixou de atuar. Os calculistas que vieram depois não tinham o mesmo talento nem a mesma sensibilidade".

Edição: Tereza Barbosa

Creative Commons - CC BY 3.0

Dê sua opinião sobre a qualidade do conteúdo que você acessou.

Para registrar sua opinião, copie o link ou o título do conteúdo e clique na barra de manifestação.

Você será direcionado para o "Fale com a Ouvidoria" da EBC e poderá nos ajudar a melhorar nossos serviços, sugerindo, denunciando, reclamando, solicitando e, também, elogiando.

Denúncia Reclamação Elogio Sugestão Solicitação Simplifique

Deixe seu comentário