Publicado em 18/09/98

Pesquisadores x jornalistas: O diálogo possível (*)

Léa Medeiros

 

A ciência é uma das tentativas do homem de enxergar o mundo e interferir no futuro. Cabe aos jornalistas fazer com que todos vejam o que os cientistas espiram pelas frestas de suas teorias.

As universidades brasileiras viveram este ano mais um longo período de greve. Os motivos são os mais justos: salários baixos, falta de incentivo à pesquisa, laboratórios e equipamentos sucateados. Mais uma vez, nas assembléias dos professores, os jornalistas viram uma cena antiga. Pesquisadores em greve reclamando bravamente da falta de apoio da imprensa ao movimento. Finalmente, quando os grandes jornais do País noticiaram a greve, o Ministério da Educação não pode mais fingir que o movimento não existia.

No mesmo período, acontecia em São Paulo mais um encontro de assessores de imprensa de instituições públicas e jornalistas que cobrem pautas de ciência e tecnologia. A conclusão, a mesma de sempre: por que será que a imprensa é bem vinda apenas em tempos de greve? O que a sociedade sabe sobre a importância das pesquisas feitas no cotidiano dessas instituições?

O diálogo entre pesquisadores e jornalistas é quase sempre tumultuado. É comum ver jornalistas acusados de superficialidade e até mesmo de deturpações. Com razão os pesquisadores pedem fidelidade na divulgação de seus trabalhos. Por outro lado, há os cientistas que escondem, omitem informações ou aqueles que vêm na mídia uma oportunidade apenas de projeção política. A muitos falta a mesma seriedade cobrada dos jornalistas. Como em todas as profissões, há bons e maus profissionais. O importante é que, depois de um movimento grevista em que professores precisam fazer greve de fome para chamar a atenção da sociedade, a imprensa e os pesquisadores precisam se entender para o bem do futuro da pesquisa científica financiada com recursos públicos no País.

A mesma sociedade, que financia as pesquisas e elege os governos que administram tais recursos, precisa saber quer a ciência e a tecnologia estão muito mais presentes no dia-a-dia de cada um do que se imagina. Cabe aos jornalistas mostrar ao público o fantástico e às vezes quixotesco trabalho dos pesquisadores brasileiros.

A tão falada ingerência e censura dos editores e donos de meios de comunicação em assuntos de ciência e tecnologia é muito menor do que se pensa. Para os jornalistas, é difícil adivinhar o que se passa nos laboratórios, quando os próprios pesquisadores não se interessam em divulgar os seus trabalhos. Muitos criam tantas dificuldades de acesso que se tornam o que se chama de fontes queimadas nas redações. Assim, a sociedade pouco conhece da realidade das instituições de ensino e pesquisa fora dos tempos de greve. Desse modo, também fica mais fácil para que os governos e alguns setores da mídia joguem a população contra essas instituições.

A divulgação de resultados da investigação científica precisa ser encarada como parte do trabalho das instituições de pesquisa. Só assim, as redações dos veículos de comunicação vão entender e investir mais na qualidade dos profissionais que cobrem pautas de ciência e tecnologia.

O diálogo entre pesquisadores e divulgadores só será viável quando for entendido que as duas categorias profissionais utilizam linguagens diferentes, mas não inconciliáveis. Cientistas são, por natureza, metódicos e minuciosos. Os jornalistas, por sua vez, precisam de pressa na divulgação das notícias. O público exige textos curtos e de fácil interpretação. No entanto, é preciso fidelidade à fonte e critérios éticos para a veiculação.

Uma convivência saudável entre pesquisadores e jornalistas tanto é possível que o espaço destinado a C&T tem crescido na mídia brasileira. Entretanto, as instituições precisam investir mais em seus próprios meios de comunicação. Estreitar laços entre mídia e pesquisadores é dar satisfação à sociedade. Programas de grande audiência no Brasil cobrem pautas de C&T no mundo todo; porque, então, não divulgar as pesquisas brasileiras? Muitas vezes basta apenas enviar as pautas apropriadas às redações. Os órgãos de comunicação das instituições públicas precisam traçar juntos boas estratégias de marketing. Se sobra competência aos pesquisadores brasileiros, falta a eles aquela antiga visão de que a propaganda é a alma do negócio.

A comunicação bem utilizada é indispensável ao processo democrático. Divulgar o trabalho de pesquisadores é mostrar à sociedade a importância de mais investimentos no setor. E, muito mais que isso, é investir num futuro mais rico e independente que a ciência, a tecnologia e a educação podem trazer ao País.

(*) Artigo já publicado no Jornal da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais. Jornalista e diretora do programa "Espaço Ciência",veiculado pela TV Viçosa

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