| Publicado em
19/02/99O modelo de agricultura da revolução verde é sustentável?
Bernardo van Raij (*)
Um dos mais importantes desenvolvimentos agronômicos deste século,
a "revolução verde" foi responsável por extraordinário aumento de produção
de cereais em diversos países, principalmente na Ásia, onde reduziu drasticamente os
problemas da fome, com destaque para a Índia, o Paquistão e, posteriormente, a China. O
impacto social que essa nova tecnologia teve, pelo aumento da produção de alimentos de
países em desenvolvimento, foi de tal ordem que resultou em reconhecimento mundial,
concretizado pela concessão do Prêmio Nobel da Paz de 1970 a Norman E. Borlaug, tido
como o "pai" da revolução verde.
A revolução verde consistiu no
desenvolvimento de variedades de cereais de porte baixo, de alta produtividade e com baixa
relação entre palha e grãos. Inicialmente, variedades de trigo e milho, desenvolvidas
em um programa internacional conduzido no México, foram introduzidas e cultivadas no
Paquistão e na Índia, em meados da década de 60, resultando em notável aumento da
produção de cereais, principalmente trigo. Posteriormente, variedades de arroz,
desenvolvidas nas mesmas condições nas Filipinas, incluíram esse importante cereal na
revolução verde.
As variedades de arroz, trigo e outros
cereais cultivados na época, de porte alto, acamavam sob doses mais elevadas de
nitrogênio, o que era um importante fator limitante do aumento da produtividade. As
plantas de porte baixo não acamavam e permitiram a obtenção de alta produtividade,
principalmente com doses elevadas de nitrogênio na adubação.
Decorridos anos, a agricultura da
revolução verde passou a sofrer críticas, que continuam nos dias de hoje. Tem-se
questionado a sustentabilidade de uma tecnologia baseada em monoculturas, altamente
dependentes de fertilizantes e pesticidas, insumos de alto custo e com potencial de
poluição ambiental. Na realidade, essa crítica tem sido estendida à agricultura de
altos insumos praticadas em todo o mundo, colocada por alguns, em termos genéricos, sob o
"paradigma da revolução verde". Assim, a discussão que apresentamos não se
refere apenas à concepção mais restrita da revolução verde, a rigor limitada aos
cereais de porte baixo, cabendo os mesmos argumentos ao que se chama de agricultura
convencional ou moderna.
A monocultura, em geral sem rotação com
outras culturas, realmente é menos desejável do ponto de vista fitossanitário, pela
maior vulnerabilidade ao ataque de pragas e doenças, aumentando a necessidade de uso de
pesticidas. Isso é fato há muito conhecido na agronomia, tanto assim que um dos pontos
fortes nos trabalhos de melhoramento de trigo e arroz sempre foi a incorporação de
resistência de doenças nas variedades. O importante, porém, é ressaltar que raramente
há alternativas para a monocultura, não só para cereais, como também para outras
culturas. Em diversos lugares na Ásia, é feito o plantio de arroz inundado no verão e
de trigo no inverno, uma rotação bem menos apropriada que a nossa de trigo e soja, mas
que lá é a melhor opção disponível. O problema é que a maior necessidade é a
produção de cereais, de forma que as rotações quando ocorrem, são em pequena escala.
Situação similar ocorre no Meio Oeste dos Estados Unidos, cujas extensas áreas
cultivadas com milho deixam oportunidade para apenas uma participação parcial da
rotação com soja e outras culturas, prevalecendo a monocultura do milho. De qualquer
forma, a monocultura vem sendo praticada na agricultura há muito tempo, em alguns casos,
há milhares de anos, e a tendência segue sendo o aumento da produtividade, desde que
utilizadas técnicas modernas de produção.
Outra crítica à agricultura moderna é a
dependência de fertilizantes minerais sintéticos. Essa, na realidade, é uma falsa
questão. Toda matéria seca de plantas contém quase 5% de nutrientes minerais, o que
significa que, para produzir matéria vegetal é necessário que haja disponibilidade de
nutrientes. Se considerarmos que a produção mundial de cereais atinge 1,9 bilhão de
toneladas, só na colheita desses grãos são removidos cerca de 100 milhões de toneladas
de nutrientes, os quais devem ser repostos para evitar a depauperação do solo. Não há
maneira mais econômica de suprir essa necessidade, em grandes áreas, do que usando
fertilizantes industrializados. Isso não implica desconhecer a importância da matéria
orgânica do solo ou dos fertilizantes orgânicos, quando disponíveis, para a produção
agrícola. Trata-se, simplesmente, de uma questão de disponibilidade e de custo de
produção. Mas, lembremos também que o uso contínuo de fertilizantes minerais de forma
nenhuma compromete a produtividade, pelo contrário. A preocupação com a poluição de
corpos de água com nitrato, importante também no caso de aplicações de adubos
orgânicos, pode ser reduzida com o manejo adequado das fontes de nitrogênio. Cabe
ressaltar que, considerada a limitação dos adubos orgânicos - quantidade disponível e
custo elevado de transporte - não há substitutos efetivos para os adubos minerais.
Fosfatos naturais e adubos verdes, por exemplo, têm aplicação muito restrita e
eficiência incerta.
A dependência ao uso de pesticidas é
outra questão importante. No início da revolução verde, da mesma forma que os
fertilizantes, os pesticidas foram necessários para garantir o aumento da produção
agrícola: seu mau uso acarreta conhecidos problemas, tais como danos à saúde do
aplicador, resistência de pragas aos pesticidas, custo elevado e contaminação
ambiental. São problemas que não invalidam o uso de pesticidas, até por falta de
alternativas na maior parte dos casos. Caminha-se em direção ao manejo integrado de
pragas, que é a integração de um número de técnicas de controle que pode resultar na
redução do uso de pesticidas e, principalmente, de seus efeitos desfavoráveis, mas não
na sua eliminação do processo produtivo. Podemos concluir que não há evidência de que
a sustentabilidade da agricultura moderna esteja ameaçada. Existem problemas ambientais,
mas estes podem ser minimizados, como já acontece em muitas partes do mundo.
(*) É engenheiro agrônomo formado pela Universidade Federal Rural
do Rio de Janeiro (UFRRJ), com doutorado na Universidade de Cornell (EUA) e com
pós-doutorado na Universidade Agrícola de Wageningen (Holanda). É o atual chefe geral
da unidade Meio Ambiente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em
Jaguariúna, São Paulo. Para contato: bvanraij@cnpma.embrapa.br |