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Marcha da Família com Deus pela Liberdade chega na Praça da Sé em São Paulo no dia 19 de março de 1964

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Marcha da Família com Deus pela Liberdade pedia queda de Jango há 50 anos

Criado em 18/03/14 21h20 e atualizado em 02/01/15 12h43
Por Leandro Melito Edição:Edgard Matsuki Fonte:Portal EBC

Brasília – No dia 19 de março de 1964, seis dias após o discurso de João Goulart (1919-1976) no comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” foi realizada na cidade de São Paulo e reuniu o dobro de participantes do evento organizado pelo então presidente no Rio de Janeiro. Estima-se que participam da marcha de 500 a 800 mil pessoas.

Confira registro da Marcha em trecho do documentário Jango de Silvio Tendler

A marcha foi concebida pela freira paulista Ana de Lourdes que considerou a fé católica atacada pelo discurso de Jango realizado no dia 13 no momento em que presidente diz que “não é com rosários que se combatem as reformas” e sugeriu a alguns empresários e suas esposas uma “Marcha de Desagravo ao Santo Rosário pela ofensa que tinham constituído as palavras de Goulart na Guanabara”. O nome “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” acabou sendo sugerido pela deputada Conceição da Costa Neves.


 

Marcha da Família com Deus pela Liberdade chega na Praça da Sé em São Paulo no dia 19 de março de 1964 (Arquivo Nacional / Correio da Manhã)

"O povo está cansado das mentiras e das promessas de reformas demagógicas. Reformas sim, nós a faremos, a começar pela reforma da nossa atitude. De hoje em diante os comunistas e seus aliados encontrarão o povo de pé. [...] Com Deus, pela Liberdade, marcharemos para a Salvação da Pátria!", dizia o comunicado lido no dia da manifestação.

A oposição ao governo Goulart (1961-1964) capitalizou o evento, a começar pelo então governador de São Paulo, Ademar de Barros, que apoiaria abertamente o Golpe de Estado dias depois. Além do governador paulista compareceram à marcha uma série de deputados da direita como o líder integralista Plínio Salgado e o presidente do Senado Auro de Moura Andrade, que no dia 02 de abril declararia vaga a presidência da República, mesmo com Jango ainda em território nacional.

Creative Commons - CC BY 3.0 -

Organização da Marcha

Para organizar o evento foram realizadas diversas reuniões de organizações de direita e seus representantes, entre elas a Fraterna Amizade Urbana e Rural, Sociedade Rural Brasileira, a União Cívica Feminina, além de organizações católicas conservadoras como a Cruzada pelo Rosário em Família, Confederação Católica do Arcebispado do Rio de Janeiro, Associação dos Antigos Alunos do Sagrado Coração de Jesus e o Grupo de Reabilitação do Rosário.

Trajeto

Com início às 16h na Praça da República, a marcha percorreu a rua Barão de Itapetininga, Praça Ramos de Azevedo, Viaduto do Chá, Praça do Patriarca, rua Direita e teve como ponto final o marco zero da capital paulista, a Praça da Sé.

Cartazes

Entre os cartazes exibidos estavam os dizeres “Vermelho bom, só batom”, “Um, dois, três, Brizola no xadrez”, “Verde Amarelo, sem foice e sem martelo”, “Tá chegando a hora, de Jango ir embora”, "O Kremlin não compensa", "Abaixo o entreguismo vermelho", "A melhor reforma é o respeito à lei", "Chega de palhaçada, queremos governo honesto".

Apoio estrangeiro

Entre as organizações católicas que participaram da organização do evento estava a Cruzada pelo Rosário em Família. Ela tinha como líder o padre Patrik Peyton, que veio das Filipinas no final de 1963 a convite do então arcebispo do Rio de Janeiro, dom Jaime de Barros Câmara.

Com o lema “a família que reza unida permanece unida”, Peyton promoveu uma série de eventos públicos de massa para os fiéis brasileiros em que associava os males do mundo aos “políticos ateus que queriam mudar a ordem natural das coisas”. Na década de 70, o padre foi apontado por historiadores norte-americanos como agente da CIA, especialista em levantar as massas católicas contra o comunismo ateu em nome da Virgem Maria.

Darcy Ribeiro (1922-1997), ministro da Casa Civil de João Goulart, considera em seu livro Confissões que Peyton inaugurou as ações de massa contra o governo brasileiro em 1964. “Os golpistas se assanham, promovendo ações de massa, já em fevereiro. A primeira delas foi importar um santão norte-americano, padre Peyton”, registra.

Percebendo o perigo que o padre estrangeiro representava, o então ministro resolve chamá-lo para Brasília afim de convencê-lo a rezar o terço com Jango. “Tivemos uma conversa desencontrada, porque ele foi trazido por um agente da CIA, que eu tive que colocar para fora da sala”, relata Darcy. A empreitada teve êxito e a missa e reza do padre foram gravadas para a televisão, mostrando logo no início Jango ao lado de sua esposa Maria Thereza, e seus dois filhos. Apesar da tentativa de minimizar o efeito da pregação anticomunista do padre, o terreno para ações de massa contra o governo já estava preparado.

Outras marchas

Após a marcha realizada na capital paulista, outras semelhantes correram o interior do Estado. No dia 21 de março foram realizadas duas Marchas, em Araraquara e Assis. No dia 25, cerca de 80 mil pessoas marcharam na cidade litorânea de Santos, no dia 28 em Itapetininga e no dia 29 em Atibaia, Ipauçu e Tatuí. A Marcha aconteceu também em outros estados. No dia 24, na cidade de Bandeirantes no Paraná e no dia 02 de abril cerca de um milhão de pessoas marcharam  no Rio de Janeiro para comemorar o Golpe na Marcha da Vitória.

Edição: Edgard Matsuki

Creative Commons - CC BY 3.0
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