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Estudantes ouvem rádio em Brasília no dia 1º de abril de 1964

Imagem: Jorge Bodanzky

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1° de abril: a resistência ao Golpe de 64 na Rádio Nacional

Criado em 31/03/16 09h10 e atualizado em 07/07/16 14h52
Por Leandro Melito / Portal EBC

Brasília - A partir da madrugada do dia 31 de março e durante o 1º de abril de 1964, quando o golpe de Estado já estava em curso, com tropas militares em direção ao Rio de Janeiro e adesões no meio civil, a Rádio Nacional, vinculada à presidência da República, se tornou um espaço de resistência democrática. Assim como fez Leonel Brizola em 1961, como governador do Rio Grande do Sul, que montou a "Rede da Legalidade" para defender a posse de João Goulart, os microfones da emissora do Rio de Janeiro ficaram abertos para as manifestações de diferentes segmentos da sociedade contrários à derrubada de Jango.

Rubens Paiva

Rubens Paiva e a esposa, Eunice, na cidade de Brasília em 1960
Creative Commons - CC BY 3.0 - Rubens Paiva e a esposa, Eunice, na cidade de Brasília em 1960

 

Entre os que participaram da transmissão naquele dia na Rádio Nacional para defender o governo de João Goulart, estava o deputado federal Rubens Paiva (PTB-SP), que seria cassado, preso e assassinado sob tortura pelos militares. Pela Rádio Nacional ele convocou trabalhadores e estudantes à resistirem pacificamente contra o Golpe:

"Estejam atentos às palavras de ordem que emanarem aqui da Rádio Nacional e de todas as outras rádios que estejam integradas nesta cadeia da legalidade. Julgamos indispensável que todo o povo se mobilize tranquila e ordeiramente em defesa da legalidade prestigiando a ação reformista do presidente João Goulart que neste momento está com o seu governo empenhado em atender todas as legítimas reivindicações de nosso povo".

Ouça a íntegra do áudio encontrado nos arquivos da Rádio Nacional por ocasião dos 50 anos do golpe de 1964:

Creative Commons - CC BY 3.0 - Rubens Paiva defendeu governo Jango pela Rádio Nacional no dia do Golpe

José Serra

José Serra durante discurso como presidente da UNE
Creative Commons - CC BY 3.0 - José Serra durante discurso como presidente da UNE

 

O então presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), José Serra, hoje senador pelo PSDB, também falou ao vivo ao microfone da Nacional para denunciar o golpe e mostrar seu apoio ao governo João Goulart e suas reformas de base, como a estatização da Petrobrás e a realização da reforma agrária.

"Que nós partamos nesse instante para uma ofensiva e não fiquemos na defensiva porque a defensiva será a vitória de fato dessas forças reacionárias que hoje investem contra o povo brasileiro", disse o então estudante que cursava o último ano da Escola Politécnica da USP e havia sido eleito para a presidência da UNE no ano anterior. 

Ouça o áudio em que José Serra defende as reformas de base do governo de João Goulart:

Creative Commons - CC BY 3.0 - José Serra defende Jango na Rádio Nacional

A Resistência na Rádio Nacional

Estudantes ouvem rádio em Brasília no dia 1º de abril de 1964
Copyright - Estudantes acompanham notícias do Golpe em Brasília no dia 1º de abril de 1964

Jorge Bodanzky

Hemílcio Fróes, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Rádio e Televisão do Rio de Janeiro entre 1960 e 1964, foi convidado para dirigir a Rádio Nacional no final do ano de 1963, quando a emissora representava o maior parque industrial de transmissão radiofônica da América Latina. "A história da Rádio Nacional é muio mais bonita do que se conta. Era uma empresa do governo, administrada por seus trabalhadores e que não recebia nenhuma verba governamental", registrou Fróes em seu livro "Véspera do 1º de Abril". Com as movimentações do Golpe em curso no dia 31 de abril, Fróes foi chamado para acompanhar os acontecimentos.

31 de março

19h

O diretor da Nacional foi chamado ao Palácio das Laranjeiras, sede da Presidência da República devido às informações de que um golpe de Estado estaria em andamento. Já havia sido confirmada a movimentação de tropas em Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro com o objetivo de tomar o poder. Havia naquele momento uma grande movimentação em torno de Jango. Entre os inúmeros políticos que passaram para falar com o presidente estavam Juscelino Kubitschek e San Tiago Dantas.

22h

Após conversa entre presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Rádio e Televisão do Rio de Janeiro e o ministro da Justiça Abelardo Jurema, ficou definido que a Rádio Nacional instalaria um posto permanente de transmissão no Palácio do governo, que seria o comando da "Rede da Legalidade". As entrevistas ficaram a cargo do locutor Fernando Barros.

1º de Abril

02h 

"As notícias eram desencontradas", regristrou Fróes. Ele decidiu ir até a Rádio Nacional para verificar como estava a situação na sede da emissora e tomar providências se necessário. "Também lá estava tudo indefinido", anotou. Os pronunciamentos continuavam em defesa da legalidade.

03h30 

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Rádio e Televisão do Rio de Janeiro voltou ao Palácio das Laranjeiras. "As ruas estavam desertas Cheguei ao palácio e o portão estava fechado", registrou. Ele se identificou para o guarda no portão e entrou. Na área interna só havia mais um guarda. "[...] o presidente João Goulart estava desguarnecido com relação à proteção militar que devia ter um presidente da República, sobretudo considerando-se a situação existente", conta em seu livro.

8h - Greve geral anunciada pelo CGT

O programa jornalístico "Repórter Esso" noticia a greve geral decretada pelo Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). "Central do Brasil, Leopoldina, empresas aéreas, barcas, coletivos e outras atividades estavam paradas".

Ouça a nota do Comando Geral dos Trabalhadores lida na transmissão da Rádio Nacional:

Creative Commons - CC BY 3.0 - Após golpe, CGT determina greve geral dos trabalhadores

Comunicados da Presidência

Comunicado da Presidência
Creative Commons - CC BY 3.0 - Comunicado da Presidência

Erbes Soares Ferreira / Acervo Maria do Resguardo

Após a notícia sobre a greve decretada pelo CGT, a Rádio Nacional colocou no ar a nota emitida pelo minsitro da Guerra, general Jair Dantas Ribeiro, que estava hospitalizado. No comunicado, o ministro anunciou a exoneração dos generais que iniciaram o movimento golpista em Minas Gerais: Carlos Luiz Guedes e Olímpio Mourão Filho. O noticiário matinal se encerrou com a transmissão de um comunicado de João Goulart que dizia possuir o apoio das Forças Armadas para conter a investida. O comunicado tinha sido distribuido em Minas Gerais por meio de panfletos despejados por caças da Força Aérea Brasileira (FAB).

Ouça os comunicados  lidos na Rádio Nacional:

Creative Commons - CC BY 3.0 - 1 de abril: comunicado da Presidência

12h

Jango deixou sozinho o Palácio de Laranjeiras. Meia hora depois Fróes recebeu um telefonema informando que o presidente estava na Base Aérea Militar do Santos Dumont. "O pessoal de sua comitiva, Cailar e o pessoal da segurança, entraram em dois automóveis e rumaram para o aeroporto", anotou Fróes. De volta à sede da Rádio Nacional, ele encontrou os integrantes do Comando de Trabalhadores Intelectuais (CTI), entre eles Dias Gomes e Mário Lago.

Ouça a nota do CTI lida na Rádio Nacional:

Creative Commons - CC BY 3.0 - 1 de abril: Comando de Trabalhadores Intelectuais

16h 

O diretor da Rádio Nacional foi informado ao telefone da chegada de dois tanques de guerra que apontavam os canhões para os transmissores da Rádio Nacional, acompanhados por cerca de 100 soldados armados. Fróes tem um diálogo com um militar que se identificou ao telefone como coronel Sousa, que informou que estava ocupando militarmente o transmissor. "Disse-lhe que ia desligar a música que estava tocando e daí em diante ele era o diretor da emissora", relatou Fróes em seu livro. 

Depois de um diálogo com Mário Lago ele resolveu deixar a Rádio Nacional com o restante da equipe, temendo ser preso. Nélson Faria, funcionário com mais de 20 anos de casa sem nenhum vínculo ou envolvimento político ficou guardando a emissora. 

"No caminho fui pensando no poder que tinha a Rádio Nacional que, motivando a campanha pela defesa da legalidade constitucional, transformou-se na grande força inimiga dos golpistas, a ponto de ser a única emissora no Rio de Janeiro que sofreu um ataque das forças do Exército de ocupação", Hemílcio Fróes.

Após assumir o cargo de presidente por meio do golpe, Castelo Branco demitiu 39 funcionários da Rádio Nacional sem qualquer processo. A emissora tinha 800 empregados e produzia 20 horas de programação diária, liderando a audiência no país. 

Exílio e Retorno

Informado sobre o risco de permanecer no país após o Golpe, Fróes se refugiou na embaixada Argentina, onde ficou durante quarenta dias, até receber a autorização de sua saída do país. No dia 17 de maio ele partiu rumo ao exílio.

Retornou ao Brasil no dia 31 de agosto de 1964 onde respondeu a Inquérito Policial Militar (IPM) e foi liberado. Tentou voltar a trabalhar com Rádio e Televisão mas não conseguiu emprego em nenhum veículo, pois havia uma determinação do Serviço Nacional de Informações (SNI) nesse sentido. Só conseguiu voltar a trabalhar com televisão em 1970. Durante esse período se formou em direito e passou a trabalhar com teatro.  Com a Lei de Anistia em 1979 ele pediu para voltar à Rádio Nacional, mas  foi aposentado por meio da aposentadoria excepcional da anistia.

 

 

Creative Commons - CC BY 3.0
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