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O festival em 2013 voltará para o local onde ocorre tradicionalmente, o Cine Brasília. O cinema está em reforma e, no ano passado, a mostra teve como sede o Teatro Nacional Cláudio Santoro.

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Festival de Brasília é parte da história da capital do país

Criado em 24/09/14 10h44 e atualizado em 02/01/15 12h47
Por Amanda Venício Edição: Thaísa Oliveira - Fonte:Campus Online*

Festival de Cinema de Brasíliaa
(Foto: Renato Araújo/ Agência Brasil )

O crítico e professor da Universidade de Brasília Paulo Emílio Sales Gomes mal pôde aproveitar os filmes da 1ª Semana do Cinema Brasileiro, apesar de ter sido o coordenador do festival. Mesmo quando tinha a sorte de se acomodar na poltrona em vez de penar em pé ou sentado no chão durante as poucas sessões que conseguiu assistir, Paulo Emílio não “se desligava das preocupações inerentes a esse evento”, posteriormente rebatizado de Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

“Organizar e fruir não são compatíveis”, acabou concluindo o crítico no texto Novembro em Brasília, no qual recorda os perrengues e as conquistas da realização do primeiro festival de cinema brasileiro – não só de Brasília, mas do Brasil. O ano era 1965 e tanto o cinema quanto a política estavam em ebulição. As inovações e o teor crítico do Cinema Novo batiam de frente com a austeridade da ditadura militar.

Confira a cobertura completa do 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Como afirma a pesquisadora Berê Bahia no livro “30 Anos de Cinema e Festival”, “O festival de Brasília nasceu da confluência dos que falavam de cinema na UnB e dos estudantes”. O curso de cinema da universidade brasiliense havia sido fundado em 1964 por Paulo Emílio a convite de Pompeu de Sousa. O time escalado contava com gente como o crítico Jean-Claude Bernardet e o cineasta Nelson Pereira do Santos, todos unidos com o objetivo de “pensar o cinema”, explica o professor de audiovisual da UnB Marcos Mendes.

O sonho, pelo menos por enquanto, não vingaria. No ano seguinte, 223 professores da universidade de solidarizam com os 15 que haviam sido afastados arbitrariamente pelo regime militar. O curso de cinema perdeu todos os seus professores e só foi restabelecido em 1970. Em meio a essa turbulência, Paulo Emílio organizava a 1a Semana do Cinema Brasileiro, em parceria com a Fundação Cultural do Distrito Federal.

“A intenção inicial era fazer integrar a Universidade com a cidade”, conta Marcos Mendes. “E, junto com o florescimento de Brasília, realizar também um festival que deveria ser uma caixa de ressonância política e cinematográfica para o resto do país”. Para o cineasta Vladimir Carvalho, que também lecionaria posteriormente na UnB, “O cinema brasileiro precisava desse festival”. Paulo Emílio acreditava que os filmes não deveriam ficar restritos ao clube dos cinéfilos. “O cinema é interessante demais para ficar a mercê de seus críticos”, argumentava.

No júri organizado para a 1a Semana, havia deputados, diplomatas e até mesmo um desportista. O público também não se restringiu aos admiradores da sétima arte. Como recorda Paulo Emílio em Novembro em Brasília, “O número maior de espectadores da Semana se recrutava em setores tradicionalmente indiferentes, desconfiados ou mesmo hostis ao cinema brasileiro”.

O longa “A Falecida”, de Leo Hirszman, garantiu a Fernanda Montenegro o prêmio de melhor atriz. Retido no departamento de censura havia mais de seis meses e liberado para o festival apenas por uma concessão do general Riograndino Kruel, o polêmico “O desafio”, de Paulo Cezar Saraceni, reuniu mais de três mil pessoas no Cine Brasília, que comportava apenas 1.500 lugares. O final do filme foi recebido com silêncio. Em vez de aplaudir, o público preferiu se reunir na porta do cinema e debater.

A partir de 1967, o evento assume o título de Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e vira responsabilidade da Secretaria da Cultura do DF. No ano seguinte, é promulgado o Ato Institucional 5 (AI-5), decreto que suspendeu várias garantias constitucionais e aumentou a censura. Os filmes que escapavam da proibição eram picotados para se adequar ao regime.

Em 1969, os diretores de  “Em Cada Coração um Punhal” João Batista de Andrade, Sebastião de Souza e José Rubens Siqueira preferiram não exibir o filme, tantos haviam sido os cortes impostos. A Folha da Tarde de São Paulo definiu o evento como  “mais um festival de censura do que de cinema”. Aluno da UnB durante os anos 70, Marcos Mendes recorda que ir ao festival era um ato político, já que os filmes exibidos transmitiam os valores opostos aos da ditadura.

O ano de 1971 levou a censura ao limite da austeridade. Proibido, o documentário “O País de São Saruê”, de Vladimir Carvalho, teve a exibição substituída sob vaias do público. No lugar, o filme “Brasil Bom de Bola”, do produtor Carlos Niemeyer, terminava com o então presidente Médici recebendo a Seleção Brasileira na tribuna de honra do Palácio do Planalto.

“Nenê Bandalho”, de Emílio Fontana, foi denunciado à censura por um dos membros do júri do festival, o desembargador e crítico de arte do Correio Braziliense Hugo Auler, devido a uma suposta “apologia à maconha”. Resultado: o festival ficou três anos sem se realizar. Só retornou em 1976, durante o Governo Geisel, cuja promessa era de uma abertura “lenta, gradual e segura”.

Paulo Emílio não pôde acompanhar a edição do festival de 1978, ainda sob censura militar. Perdeu a realização da Mostra de Filmes de Horror e a primeira exibição de um filme infantil no evento: “Curumim”, de Plácido do Campos. Em 9 de setembro do ano anterior, o crítico morreu de ataque cardíaco. Vladimir Carvalho acredita que “o festival viveu dos ecos do seus criador”. Hoje, o evento encerra a sua 43a edição. Dessa vez, sem cortes.

Edição: Thaísa Oliveira - Campus Online*
Supervisão: Ana Elisa Santana

*O Portal EBC e o Campus Online - jornal laboratório de jornalismo da Universidade de Brasília - estão fazendo a cobertura do 47º FestBrasília em parceria, por meio do canal Colaborativo. Clique aqui para ler todas as reportagens da parceria.

 

Creative Commons - CC BY 3.0

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