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Cazuza: "A melhor coisa do ser humano é que ele não consegue se explicar"

Criado em 06/07/15 10h56 e atualizado em 06/07/15 17h50

Cazuza deu uma entrevista à apresentadora Geisa Herrera, na extinta Rádio Nacional FM do Rio. Na conversa, ele fala da carreira, vida e família. O áudio original está disponível no especial Amanheceu o pensamento: 25 anos sem Cazuza, o poeta pronto pro amor. Abaixo, você pode ler a transcrição da entrevista completa:

Boa noite! Mais um especial aqui na FM Nacional. E como sempre a gente trazendo uma figura muito importante e uma presença muito grande na nossa MPB. E hoje, a gente vai conversar com um garotão, que não é mais um abandonado, e que agora tá em outra. Ele agora na sua fase que a gente chama de madura já passando para o ascendente, já descobre grandes coisas da vida e já participa de um outro lado da vida que é o dia, antigamente ele curtia muito a noite, agora está curtindo o dia com a gente. Hoje nós vamos conversar é com o nosso Cazuza.


É um prazer ter você aqui com a gente. É muito bom a gente ter você pra bater um papo e mostrar o novo disco. Tá animado para o trabalho novo?


Cazuza – To animado à beça. To lançando o disco, o disco tá saindo, deve está nas lojas hoje já. E espero que o pessoal goste e compre.


Cazuza, alguma saudade do tempo do Barão?


Cazuza – Muitas saudades! Foi uma época muito feliz da minha vida, eu sou muito amigo deles até hoje, e a gente passou muita coisa boa junto. Então minhas lembranças do Barão são as melhores possíveis. Chegou uma época que a gente teve que separar, como toda relação não dura eternamente, mas foi uma coisa que não foi dolorosa nem nada, e eu sou muito amigo deles e trabalho com eles até hoje, a gente compõe junto ainda, eu e Frejat. Então, quer dizer, a gente passou e foi por caminhos diferentes, mas as lembranças são as melhores.

É que eles participam do teu disco e você participa do disco deles.

Cazuza – É a gente tá sempre junto.

Isso é ótimo! Tem um elo, que é igual casamento, né? Não deu certo, mas continua a amizade.

Cazuza – É eu acho que o casamento profissional não é muito diferente do casamento emocional. E a gente teve realmente um casamento profissional. E chegou uma hora que a gente precisou, é igual marido e mulher, cada um quer fazer uma coisa e seguir por caminhos diferentes. E ai tenta ficar numa boa, tenta ficar amigo. É tão estranho você passar por tantas coisas juntos e depois ficar inimigo, ficar falando mal do outro. Então eu acho bacana, nas minhas relações, geralmente, tanto amorosa como profissional elas sempre acabam bem, eu continuo amigo das pessoas. E é uma vitória minha como ser humano.
 
Vamos relembrar “pro dia nascer feliz”?

Cazuza, e a solidão, ela te incomoda?

Cazuza – A todos nós, né! Quem não tem problema com solidão?

Eu me refiro, lógico claro que todo mundo sente, as vezes de uma forma até como uma doença, de repente.

Cazuza – É uma doença.

Agora, a solidão que eu me refiro é aquela solidão de quando você participava do grupo, todo mundo junto, devia ser assim aquela garotada toda bagunçada, largando as coisas no caminho no meio de hotel. Você sente saudade dessas coisas?

Cazuza – Sabe, quando o Célio Barão, imediatamente eu peguei outra banda, eu montei uma banda. Então, assim na coisa de viajar, por exemplo, continua mais ou menos a mesma zona. Porque músico é tudo um bando de doido, são ótimos, pessoas super... Músicos, um cara que sabe tocar um instrumento é um máximo. Então eu continuei viajando com essa banda nova e tal. Então eu não senti muita falta. É claro que com o Barão era diferente, por quê eu, a partir do momento que eu tive uma banda eu era o patrão, fica uma coisa um pouco mais, mas eu sempre tentei não passar isso pra banda, pra eles não me tratarem como patrão e tratarem como mais um cara da banda mesmo. E a gente sempre fez isso. Então não deu pra sentir a solidão. Eu continuei acompanhado por músicos no palco, brincando e fazendo a zona que a gente sempre faz. Então, eu não senti uma solidão muito grande.

Vamos relembrar o “maior abandonado”?

Cazuza, depois dessa temporada que você passou nos Estados Unidos, se tratando e cuidando de você, de repente você sentiu essa necessidade, teu organismo pediu. Quando você voltou ao Brasil, quando o avião chegou aqui no solo e você viu a porta se abrir e viu a cara do Rio de Janeiro outra vez, como tava tua emoção?

Cazuza – Ah tava três mil por hora. Porque, ficar doente já é um bode, eu tive um lance e fiquei supermal e é chato ficar no hospital, deitado e querendo sair e ir embora, um frio miserável. Eu fiquei lá em outubro e novembro, num frio e nevava do lado de fora, e eu dizia “ai meu Deus, quero ir pro Rio, quero aquele calorão de volta.” A primeira coisa que eu fiz quando cheguei, que fui pra casa dos meus pais, foi abrir a janela e ficar pegando aquele ventinho quente que só tem aqui no Rio, aquele ventinho que vem do mar. E que maravilha, posso ficar aqui de camiseta, não preciso usar casaco. Eu nunca me acostumaria a viver em um país frio, eu gosto de um friozinho, mas um friozinho de no máximo de Petrópolis, uma coisa que você coloca um suéter, mas o frio lá, realmente é brabo. Você vira sorvete mesmo, uma loucura.

E o exagerado?

Cazuza – O exagerado é uma música que marcou muito a minha carreira, foi a música que assim que sai do Barão vermelho. Foi o meu primeiro trabalho depois do Barão e até hoje as pessoas me gritam na rua “O exagerado”, e virou meio um apelido meu. E o Cazuza e o exagerado ficou uma coisa muito próxima uma da outra. E de repente virou um apelido mesmo. Eu sou o rei do apelido, né. Tem gente que me chama de Caju, outros de me chamam de Cazuza. Meu nome é Agenor.

Mas Cazuza, foi seu avó que deu esse apelido pra você carinhosamente?

Não foi meu avó não. Eu tenho o nome do meu avó, Agenor é o nome do meu Avó. Quem me deu esse apelido foi meu pai. Porque a família dele é do Norte de Pernambuco e lá é muito comum Cazuza. E tem um livro do Viriato Correa que chama Cazuza também, que toda criança já leu, e chama Cazuza. E papai deve ter lido quando criança e deve ter fantasiado, que quando tiver um filho quero que chame Cazuza. Então desde quando nasci eu sou Cazuza. Meu pai mandou flores pra minha mãe no hospital e mandou um cartão assim “obrigada pelo Cazuza”. Então eu sempre fui Cazuza, nunca me chamaram de Agenor em casa. E quando eu fui pro colégio que eu era pequenininho e chamavam Agenor na chamada eu ficava quieto lá. Eu não sabia que meu nome era Agenor, porque todo mundo me chamava de Cazuza. E Cazuza eu realmente considero não como apelido, como segundo nome. Depois, então, que eu virei artista que eu fiquei conhecido pelo público, pouca gente sabe que meu nome é Agenor. Se bem que toda entrevista a pessoa que vem perguntando meu nome verdadeiro ai tem que dizer Agenor. Quem lê as entrevistas pode vê todo mundo pergunta qual meu nome verdadeiro. E eu não tenho nada contra Agenor não é um nome meio de gente velha, um nome meio antigo. Mas tudo bem em grego quer dizer muito viril, então achei legal.

No inicio da tua carreira, quais pessoas que mais fizeram a tua cabeça e mais você escutava de disco e de música, de pesquisa. Quem participa mais com vocês?

Cazuza – Tive várias influências. Eu lembro que quando eu comecei a compor eu ouvia muito Luiz melodia e Angelo **, eu achava eles um barato, fora Caetano, Rita Lee, João Gilberto, Lupicínio Rodrigues e esse pessoal de música brasileira que eu adoro, Chico também. Eu lembro que foi uma coisa muito forte quando o Luiz Melodia e Angelo são duas influências muito forte. A ** aquele romantismo desacerbado, louca de pedra, uma pessoa maravilhosa. E o melodia com a musicalidade dele toda com as poesias dele que são lindas. E eles são pessoas muito fortes até hoje. E hoje em dia são meus amigos pessoais. Eu tenho muito orgulho deles gostarem do meu trabalho também.

Vamos relembrar “codinome beija-flor”?

Cazuza, você é letrista né? Eu acho que a pessoa que é envolvida na música e letrista é um poeta. Apesar, de você não se sentir um poeta.

Cazuza – É verdade. Eu fico lisonjeado quando me chamam de poeta. Eu fico orgulhoso. Mas eu não me considero poeta não. Eu acho que entre poesia e letra de música há uma diferença muito grande, uma distância muito grande. A poesia é uma coisa ligada a somente a palavra.

Mas, olha só. E quando tem pessoas que como por exemplo o Fagner que pegou um poema e musicou. Você não acha que a sua música poderia ser um poema?

Cazuza – Eu não sei, eu acho até interessante. Eu tenho vontade de fazer uma livro com as minhas letras. Isso se faz muito no exterior. É legal por que, eu não to dizendo que letra de música seja uma coisa menor do que poesia, é simplesmente diferente. Eu acho que de repente no Brasil, principalmente, que é um país que as pessoas não tem muito costume de ler, todas as pessoas interessadas em poesia, acabaram virando letristas. O Chacal, por exemplo, que era poeta hoje em dia tá envolvido com a música.

Eu acho que uma coisa tá interligada a outra. Você não acha não?

Cazuza – Ta interligada, mas são coisa diferentes. Eu quando digo que não me considero poeta é porque eu não sou poeta mesmo. Eu quando trabalho, quando faço uma letra eu to escrevendo aquilo ali pensando uma música por trás. Eu to fazendo aquilo dentro de uma melodia que seja bem pop, bem popular. Então é um trabalho diferente, onde a música tem tanta importância quanto a letra. E a poesia não, a poesia é uma experiência com as palavras. É uma coisa que você pode até fazer poesia em música. Mas é uma coisa meio preconceituosa, as pessoas falam “ah essa letra é tão bonita que parece um poema”, não a letra tem a força dela também. Nos Estados Unidos isso é uma profissão, são os caras que só trabalham fazendo letra. Então é uma coisa superimportante. E quando eu falo que eu não sou poeta, e que sou letrista. Eu não estou dizendo que o letrista é uma coisa menor do que a poesia, é simplesmente porque o meu trabalho tá muito ligado com a música.

E Vai à luta?

Cazuza – Vai à luta eu fiz. E aquela velha história da pessoa que quando tá por baixo, que ninguém conhece, muito simpática, muito amiga e bastou sair na revista, gravar um disco, gravar um filme a pessoa vira. Então essa música é uma brincadeira com essas pessoas que você conhece e que é superamiga e que depois te encontra anos depois e vê a pessoa famosa e ela toda besta, fazendo pose. Então essa música é uma brincadeira com isso.

Cazuza, lendo uma reportagem sua, estava aqui dizendo que há dez anos você entrou numa vida de boemia, de estar em tudo que era festa, todo dia, em lançamento de livro, disco, enfim, tudo que tivesse a noite você estava nela. Agora nessa nova vida que você tá pegando.

Cazuza – Uma fase né, por que a vida da gente não munda assim. Muda pouca coisa, porque o essencial não muda. Mas acho que o essencial é sempre igual. Quer dizer eu realmente sempre tive uma vida muito ligada a noite, uma vida muito noturna, muito boemia, muito de viver em bar. Sempre gostei e continuo gostando, inclusive. Só que como eu tive doente, eu não gosto de sair pra m bar e ficar bebendo água mineral, então eu prefiro ficar em casa vendo vídeo, escutando um som, eu chamo meus amigos e tal. Mas eu continuo saindo, gostando de estar com as pessoas, gostando de lugares cheios de gente. Só que eu tenho um procedimento mais tranquilo, porque eu me restabeleci de uma coisa muito séria, então tem que ajudar o santo né.

Lógico né, por que ai é a maneira de você se gostar né.

Cazuza – Pode crer! Você vê uma pessoa que tem uma gastrite ai a gente tem que se cuidar, comer coisas que não façam tão mal, tem que cuidar. Eu tive uma experiência muito forte, porque eu nunca fui de ir ao médico, não ficava doente nunca. Meu corpo pra mim era um escravo meu que eu usava e abusava dele. Então eu tive que parar e cuidar do meu corpo. E tive que realmente parara pra pensar, beber menos, fazer menos loucuras.

E daí, você começou a ver mais a luz do sol né? Você descobriu coisas diferentes?

Cazuza – Não, porque não foi muito de diurno e noturno. Foi mais de dar um tempo mais em casa com meus amigos. Enfim, eu parei de badalar.

Foi mais visitado, do que visitou?

Cazuza – Eu fiquei muito sozinho comigo mesmo. Tive chance de pensar em coisas que com essa agitação você não tem tempo pra pensar.

Esquece de si, né?

Cazuza – É eu tive todo tempo do mundo pra ficar na minha, pensar na minha vida e pensar o que eu queria, observar as coisas mais. É aquela famosa reciclagem, geralmente, dizem que é nos trinta que vem né.

E solidão que nada?

Cazuza – Solidão que nada é uma parceria minha com Jorge Israel e Nilo Romero, são os mesmos que fizeram o Brasil comigo, “solidão que nada” é uma brincadeira minha com o Nilo, eu fiz pro Nilo essa música. Porque se você reparar na letra é a história daquele cara que chega, a gente fazia muito show né, mil aeroportos e você não sabe em que aeroporto você está, se você está em Maceió, se é Fortaleza, se é Cuiabá, você já não sabe mais onde você está. E o Nilo todo aeroporto que a gente chegava ele tinha um endereço de uma gatinha, ai ele chegava em Maceió, tinha o endereço de Maceió. E todo mundo achava engraçado isso, porque passa a todos os aeroportos e seria o nome no papel mesmo. E todas as meninas ai você não sabe se é de Cuiabá, se é de Porto Alegre. E eu debochava, brincava muito com ele “E agora, não vai errar o nome”, sempre tinha uma coisa assim. Então “solidão que nada” é uma letra muito pra cima é uma coisa muito brincalhona. Solidão que nada vivia bom nas curvas da estrada. Essa vida de estradeiro, eu gosto muito.

Cazuza, vamos falar desse novo trabalho que já está ai rolando, já está fazendo sucesso. E a gente nota né que a maioria do publico gosta muito de você.

Cazuza – Eu já tive prova disso.

Eu acho que você já teve bastante provas disso.

Cazuza – Eu me considero uma pessoa querida, assim, pelo que eu vejo, pelas cartas que eu recebo, telefonemas, pelo interesse das pessoas. Eu acho que eu consegui, e isso é uma coisa muito importante para um artista.

Sim, e como é que você sentiu assim, ser tão querido. E de repente você descobrir que você era mais querido do que você imaginava?

Cazuza – De uma certa maneira para o artista é imprescindível ter um publico, porque se não a gente não é nada. Então, a gente tem que falar pra alguém. E eu sempre tive muito medo de ser considerado um maldito e ser só mais um nome do que realmente as pessoas ouviram as coisas que eu to falando. E eu sinto isso que eu tenho um publico pequeno, eu não vendo milhões de discos, eu não sou. Mas eu tenho a minha vendas certas, as pessoas que vão na loja, que me procuram, que gostam de mim e que mandam cartas, flores, presentes e se interessam de saber como eu estou. Então isso é uma coisa gostosa, eu acho muito gostoso isso.

Deve ser muito gostoso realmente.

Cazuza – Você está falando isso pra chegar no assassinato da flor, né? Pois é, o assassinato da flor, a letra dela é assim “Toca o interfone, eu mando ela subir. É alguém com flores e eu já fico a mil” é a história de uma fã que (isso aconteceu mesmo de verdade) eu juntei todas as fãs em uma só, mas são coisas que aconteceram e que as vezes essas coisas com fã, problema com fã é uma coisa meio perigosa, porque ao mesmo tempo que os fãs são importantíssimos pra um artista. O fã que eu digo é o cara que vai onde você está, que vai no teu show, que manda carta, quer saber da tua vida, quer saber o que está acontecendo com você, fissurado mesmo. São pessoas muito importantes e a gente tem que ter um cuidado muito grande pra não magoar as pessoas, porque elas são muito importantes na vida do artista né. Mas ao mesmo tempo você não pode ficar amigo de todos os fãs. Só o Roberto Carlos que consegue ter um milhão de amigos, eu não consigo. Eu tenho meia dúzia e já to achando muito bom. Então você tem esse limite entre a idolatria e realmente o que é a vida é uma coisa um pouco cruel as vezes você tem que chegar e falar para o cara ou para a menina “olha eu tenho minha vida, é legal que você goste de mim e tal, que você curta meu trabalho e que se identifique comigo. Mas eu não posso te receber na minha casa e ir para um barzinho. Eu já fui fã e eu sempre fui anti-ético. Eu garoto eu ia pro show da Rita Lee, Caetano e Gil eu ia pro show deles eu ficava deslumbrado e queria entrar no camarim pedir autografo fazer tudo isso, mas tem uma hora que o cara vai embora pra casa dele e que ai acabou, a relação acaba ali. E essa música é meio um toque pra uma fã que eu dizia “olha você pode gostar de mim, mas você não vai querer ir pra minha casa e sentar lá pra gente ficar conversando, porque tem a vida da gente tem que preservar né.

Cazuza a tua mãe também é ligada a música, né?

Cazuza – A minha mãe é cantora, ela já gravou dois discos. E eu tenho uma influência muito grande da minha mãe, porque o meu pai ele sempre foi produtor de discos e minha mãe sempre cantou, sabe aquela coisa de festinha e canta ai. E a mamãe ela tem um repertório, ela tem um repertório de música brasileira, ela sabe tudo de Manoel Rosa, Lupicínio e tudo desses pessoal de antigamente. Ela canta tudo e sabe as letras todas e eu sempre ouvi muito, era pequenininho e ficava lá ouvindo. E essa coisa que eu tenho com a música brasileira, que eu me identifico e muito esse lado da minha mãe. Essa coisa dela que passou pra mim.

Que legal, né. Deve ser ótimo ter uma mãe assim que canta.

Cazuza – Uma sorte né. Eu fui criado com muita música. A música é uma coisa muito importante na tua vida. Uma casa que sempre rola música é uma casa feliz.

Agora a gente podia falar da música faz parte do meu show.

Cazuza – A música faz parte do meu show eu tenho maior carinho por essa música, porque eu chamo de bossa velha, não é nem bossa-nova. E eu queria fazer uma coisa nostálgica mesmo, queria voltar aos anos 50. E essa música é uma homenagem aos meus pais, é uma homenagem a bossa nova, bossa velha e essa geração toda que é a geração do meu pai e da minha mãe. Que é o finalzinho dos anos 50 que me influenciou demais. Foi um período muito louco, muito bonito. E ai eu quis fazer uma coisa mais, uma volta ao passado mesmo.

Fala pra gente um pouquinho do teu disco de como que você está sentindo esse disco.

Cazuza – Primeiro que esse trabalho foi um que eu me envolvi muito mais do que nos outros, eu to produzindo esse disco também. Tem dois arranjos meus e três melodias e letras minhas. Então, quer dizer, eu to muito presente nesse disco. Eu nunca tive tão presente em trabalho nenhum meu como nesse. É um disco, um trabalho onde tem um lado rock muito forte, porque eu tenho essa coisa do rock na minha vida que é muito importante. E um disco onde eu procurei também cantar outras coisas, eu to ousando mais vamos dizer. Eu me permiti cantar um tipo de música que eu cantava muito em casa e que eu gostava muito de ouvir. Mas que eu nunca tinha colocado no meu trabalho.

Não tinha coragem ainda?

Não é coragem, era oportunidade. E porque eu não sei música lenta e bossa nova, são músicas que exigem muito do vocal. Eu sempre cantei rock porque era uma coisa mais fácil pra eu cantar, que era mais berrado, você chega e vomita a letra ali mesmo. E eu agora to curtinho mais cantar e ir nas notas mais, fazer uma coisa mais melodiosa. Então eu acho que esse disco tem essa lado muito forte. É uma proposta que eu espero que o meu publico aceite.

E minha flor e o meu bebe?

Cazuza – Minha flor e o meu bebe é uma composição que minha com o Dé, que é do Barão Vermelho também, engraçado que na época do barão vermelho a gente nunca compôs nada. Porque o Dé ele tem o lado muito, ele tocava chorinho, antes de tocar rock, então ele tem esse lado muito ligado a música brasileira. E ai a gente começou a trabalhar junto com o disco da Bebeu que era mulher dele e é muito minha amiga e a gente fez muitas músicas e começamos a compor muito para o disco dela. E eu gosto muito desse lado do Dé, esse lado meio de música brasileira de bossa nova que ele tem que um barato. E o “minha flor e o meu bebe” eu fiz pensando em um casal de namorados. Ah vocês tem que ouvir.

Falando de divulgação e trabalho o que você tem pelo menos planejado para trabalho desse disco?

Cazuza – Eu agora já fiz quase tudo de imprensa, to visitando as rádios todas vou fazer São Paulo, fazer todo esse trabalho que eu fiz aqui no Rio eu vou fazer em São Paulo. E to pensando em ir fazer show lá pra junho ou fim de junho. Talvez eu estreie o show em São Paulo. No Rio a gente tá com dificuldade de casa ou acha lugar muito grande ou muito pequeno. Mas eu estou procurando. Eu quero que esse disco que as pessoas ouça comprem ele e vá tomando uma intimidade maior com o trabalho para quando eu chegar com o show o pessoal já saber pelo menos uma musiquinha.

E blues da piedade?

Cazuza – Ah, Blues da piedade é minha com o Frejat essa é uma que eu adoro. Eu gosto muito dessa música, da melodia, da letra. É um toque, é uma música assim que as pessoas tem que ser grande né. É um pedido de grandeza, não vamos deixar que a vida fique pequenininha. Não vamos deixar o cotidiano vencer a gente. Vamos ser maior do que o cotidiano. Vamos ser maior do que os problemas, porque problemas todo mundo tem. A vida de todo mundo é muito chata na verdade. E a gente tem que lutar para que ela não fique assim. É preciso levar a vida com grandeza mesmo. Eu quis dizer muito isso nesse disco de dizer assim a vida é legal, apesar de tudo. É bom estar vivo! É bom viver. E a gente tem que aprender, porque a vida é um aprendizado.

Cazuza – O Brasil é uma música que há muito tempo que eu queria fazer um trabalho na parte musical juntando um pouco a percussão de um samba com a força do rock né. E ai quando eu ouvia essa música que o Jorge e o Nilo me mostraram ela eu falei era a música que eu tava esperando. E um super rock que vira um sambão no final. E eu acho que é por ai mesmo, a gente tem que juntar tudo. Eu acho que a tendência da música é ela se interligar cada vez mais. Então eu adoro essa música adoro cantar ela, acho um máximo.

Cazuza, nos momentos difíceis que a gente tem na vida. Você acha que acreditar em Deus é uma coisa importante?

Cazuza – Eu acho uma boa acreditar em Deus. Eu acredito muito em Deus, num Deus todo particular meu, num Deus que está dentro de mim, que está nas energias que eu recebo. Eu não tenho uma religião. Eu não sou crente de nada. Mas eu acho que a gente viver sem Deus deve ser muito triste. Eu já fui a muito tempo ateu e agnóstico e tudo. E agora, quando eu fiquei doente, chateado e meio mole, eu falei “Meu Deus, a gente é muito mais do que o corpo da gente, a gente não é só carne e osso”. Tem uma coisa dentro da gente que é muito mais forte do que isso. E a partir daí eu fiquei ótimo, eu fiquei legal. Eu consegui puxar energias que eu nunca imaginei que eu pudesse ter. E isso é Deus né. Isso é o que está além do teu corpo. Então eu acho que é muito mais bacana a gente viver acreditando em Deus, acreditando em uma coisa maior que a gente. Porque a gente é tão pequenininho, é tão formiguinha. Eu acho que o ser humano ele é mesmo o representante de Deus na natureza e no cosmo.

O que o ser humano tem de bacana é a paixão, o amor. É essa coisa que a gente não pode explicar. A melhor coisa do ser humano é que ele não consegue se explicar. A coisa é tão grande que você para no meio. A gente pode viver uma vida meio animal e comer, dormir e reproduzir. Mas a gente tem essa coisa do é algo mais, que não é o rexona, que é uma coisa linda que é o amor.

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