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Chico Science e Paulo André dentro do Landau de Chico

Imagem: Maria F. Moreno / Acervo Paulo André

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"Chico Science estaria em todas as redes sociais", diz o ex-empresário Paulo André

Criado em 13/03/16 15h18 e atualizado em 16/03/16 09h15
Por Leandro Melito / Portal EBC Edição:Ana Elisa Santana

No ano em que Chico Science completaria 50 anos, o Portal EBC entrevistou o produtor pernambucano Paulo André Pires. Criador do Abril Pro Rock, festival em que Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S.A. se apresentaram como as principais bandas em 1993, Paulo se tornou empresário de Chico Science & Nação Zumbi ainda naquele ano, após a primeira viagem das bandas que formaram o Manguebeat pelo Sudeste.

Chico Science e Paulo André
Copyright - Chico Science e Paulo André

Maria F. Moreno / Acervo Paulo André

Ele permaneceu nesse papel até a trágica morte de Chico em um acidente automobilístico em fevereiro de 1997.

Confira o especial do Portal EBC sobre os 50 anos de Chico Science

O empresário acompanhou a gravação dos dois discos que Chico lançou em vida "Da Lama ao Caos" (1994) e "Afrociberdelia" (1996), ambos pela gravadora Sony. Com a dificuldade de aceitação daquela sonoridade pelas rádios brasileiras na época, Paulo articulou a viagem da banda para o exterior logo após o lançamento do primeiro disco, mesmo sem a aprovação da gravadora. Este ano, quando Chico Science completaria 50 anos, Paulo pretende lançar um livro que deve sair com o título "Inconformados", em que conta a história desse movimento cultural que surgiu em Recife e ganhou o mundo.

Qual a primeira lembrança que você tem do Chico Science?


Eu tinha uma loja de discos e fazia umas tardes de autógrafo lá. Vendi ingresso pro show do Ira no Teatro Guararapes em 1991 e o Chico conhecia o Nasi. O Nasi tinha produzido o Thaíde e DJ Hum na segunda metade dos anos 80 e o Chico era Chico Vulgo, um Mc. Ele tinha umas letras de rap e procurou Nasi, tentou fazer uma conexão. À noite eu fui ao show e o Chico estava nos bastidores insistindo muito para a galera ir ver a banda dele, Loustal, que tinha o Lúcio na guitarra, o Dengue no baixo e um outro baterista, acho que era o Vinícius e o Chico. A gente se esbarrava nos bares assim, na boemia cultural, mas de ver no palco, esta é a primeira memória que eu tenho dele. Em 1991 para as bandas daqui era som tosco, lugar tosco, instrumentos toscos, tudo era tosco, então a musicalidade não me chamou a atenção mas os trejeitos do Chico no palco sim.

Como estava o cenário musical no Recife nessa época?

Quase que simultaneamente à chegada da MTV no Brasil, ela chegou ao Recife no sistema UHF, e isso fez uma diferença muito grande. Quem gostava de música correu, comprou uma antena UHF e sintonizou por pior que fosse o sinal. Dependendo de onde o cara morasse na cidade, havia uma informação em tempo real, através da MTV. E alguns meses depois, durante um ano a gente teve aqui uma franquia da 89 FM, a Rádio Rock de São Paulo. A cidade tava em polvorosa, as bandas.

Eu tinha loja de discos em 1992 e com a chegada da rádio foi a primeira vez que eu recebi fitas demos das bandas com capinha, com uma preocupação estética, porque tinha esperança de tocar. E a rádio rock realmente tocou a galera. Eu não lembro de ter escutado Chico Science; lembro de Paulo Francis vai pro Céu, Academia do Medo, Tempo Nublado... Chico disse que tocava. Na verdade tocava Loustal e Mundo Livre, só que mais timidamente porque era um som mais estranho.

O Manifesto Mangue foi escrito em 1991 e no ano seguinte o Manguebeat já era visto como um movimento cultural na cidade. Naquele ano você produziu o primeiro Abril Pro Rock, como foi esse processo?

A rádio saiu do ar repentinamente e ela tinha que ter feito um festival porque naturalmente as bandas estavam indo. Então quando a rádio foi embora eu falei 'a hora de fazer alguma coisa é agora se não [a cena] vai miar'. Já tinha uma movimentação na cidade, o manifesto, as bandas, mas só em 1992 com o manifesto mangue e 1993 com o primeiro Abril Pro Rock é que uma cena começa a mostrar a cara, de um lugar com a diversidade cultural e musical que o próprio estado e a região têm.

E como foi essa primeira edição do festival?

Até então os shows eram pequenos,  eram shows com no máximo 300 pessoas. O primeiro Abril foi no Circo Maluco Beleza, um lugar que também tinha shows de axé music, de forró estilizado que na época estava começando a ficar grande e o pagode também começando a dar as caras. Tinha lugar pra umas 5 ou 6 mil pessoas e eu consegui um domingo lá. Eram 12 bandas e o Maracatu Nação Pernambuco. A cultura popular no final dos anos 1980 estava praticamente sendo colocada na prateleira de um museu. Foi quando veio o Chico e bebeu no maracatu; o Mestre Ambrósio no Cavalo Marinho, na rabeca, e a cultura popular passou a ser vista pelos jovens como algo legal e não como aquela coisa folclórica distante deles.

Foi um divisor de águas porque foi a coisa certa, no lugar certo, na hora certa e apareceram as pessoas certas. Estavam lá o Miranda e o Gastão, que eram os convidados do festival, e a galera que formaria o Jorge Cabeleira; a galera da Eddie, os futuros diretores de cinema, os artistas visuais. Era uma galera que estava vivendo aquele momento da cidade.

Quando Chico Science & Nação Zumbi se apresentaram no Abril Pro Rock você ainda não era empresário da banda. Como se estabeleceu esse vínculo?

Pouco depois do primeiro Abril Pro Rock, em julho, o Mundo Livre e o Chico Science & Nação Zumbi fizeram a primeira viagem pra Belo Horizonte e São Paulo e já encontraram com a galera de gravadora. Eles já estavam sendo assediados pela galera das “majors” [grandes gravadoras] e eu ainda não estava nesse momento.

Quando eles voltaram pra Recife eu estava fazendo outro projeto e fiz o primeiro show deles na volta  dessa viagem. Teve um bom público pra ver Mundo Livre S.A. e Chico Scicence & Nação Zumbi porque a gente havia perdido a referência de projetar artistas daqui nacionalmente.

Então, na ida pra esse show, em agosto de 93 mais ou menos, eu lembro que  passei para pegar a galera em Peixinhos e depois a gente pegou a galera em Bairro Novo que era classe média - Dengue [Alexandre Dengue - baixista] e Lúcio [Lúcio Maia - guitarrista] - e Chico mais para a quarta etapa. Dentro do carro a gente foi conversando e o Chico virou para mim e falou: cara, eu não estou dando conta, a gente assinou o contrato com a Sony e é muita gente na banda, tem uma galera mais imatura. Aí eu disse: velho, se você estiver me pedindo ajuda, me convidando pra ajudar eu já topei. Me dedico 100%, amanhã a gente já marca uma reunião e você vai tirando o peso das suas costas. 

Chico Science e Jorge du Peixe
Creative Commons - CC BY 3.0 - Chico Science e Jorge du Peixe

Maria F. Moreno / Acervo Paulo André

Como foi a gravação do primeiro disco da banda,  o "Da Lama ao Caos"?

O Chico era um cara que sabia muito o que queria e aí ele tentou muito que a Sony chamasse o Arto Lindsay, que é pernambucano mas vivia em Nova Iorque (EUA) e tinha produzido a Marisa Monte. E claro que para uma banda nova, a Sony  não sabia se iria vender e acabou  sugerindo o Liminha ,que já tinha um estúdio próprio e um esquema com as gravadoras.

O que eu acho de "Da Lama Ao Caos" é a mesma coisa que eu acho da capa [do disco]. Se você olhar a capa de "Da Lama Ao Caos", ela é bem conceitual, vem escrito de um tamanho de letra não muito grande, "Chico Science & Nação Zumbi - Da Lama Ao Caos" e tem um caranguejo que originalmente era para ter uma tonalidade só -  ia ser mais conceitual ainda e que o cara do marketing da Sony mandou o design jogar umas cores no caranguejo.

A capa é preta com esse caranguejo e atrás só tem a relação das músicas. Quando você ouve "Da Lama ao Caos", você não sabe que os caras estão tocando aquela formação, três tambores, percussão, baixo, guitarra e voz.  Minhas sugestões acabaram rolando mem Afrociberdelia. Eu acho que em Afrociberdelia isso é mais bem resolvido na capa. Eu falei: "Chico a banda tem que aparecer na capa velho, porque a banda tem um visual bacana, todo mundo é diferente do outro na banda, tem os negros, tem gente com dread, é muito massa o visual da banda".

Em Afrociberdelia a banda vai para a capa e o tambor também na contra capa do disco, um tambor de maracatu. Hoje já não é tão diferente. mas naquela época ali era bem diferente para o Brasil o tambor de maracatu.


O disco foi lançado fora do Brasil também, em outros países...

Chico Science & Nação Zumbi deve ter sido dos raros artistas brasileiros a ter o primeiro disco lançado no Japão, nos EUA e na Europa. Isso precedeu nossa turnê porque a Sony havia lançado o disco do Gabriel, o Pensador, que foi muito bem, tocou em rádio e vendeu bastante. Na sequência lançou o Skank que também foi bem e em seguida lançou "Da Lama ao Caos". As rádios rock de São Paulo na época, 97 FM, 89 FM e Brasil 2000 disseram para a Sony que não iam tocar porque aquilo era regional e eles eram rádio de rock.


E quando a Sony foi tentar as rádios populares de São Paulo, que eu lembro do nome de uma delas, a Rádio Atual, que tocava justamente para os nordestinos que emigraram para São Paulo,  disseram que não tocariam porque aquilo era rock e eles não tocavam rock. A gente caiu literalmente na ignorância das rádio. Até hoje acontece isso, Chico Science e Nação Zumbi são ignorados pelas rádios brasileiras, seja popular, seja MPB, seja rock, são raras as rádios brasileiras que tocam e que tocaram naquele momento.

Alguns meses após o lançamento do disco a banda já saiu em turnê internacional que durou quase dois meses, como foi essa articulação?

"Da Lama Ao Caos" não vendeu no primeiro ano nem 10 mil cópias. Aí eu consegui um guia que tinha endereços de festivais e de casas noturnas e programas de rádio do mundo inteiro que abrigavam a chamada música do mundo, “a world music”.

Eu já tinha umas críticas do disco ou matérias que citavam Chico Science e Nação Zumbi, da Billboard americana, de um jornal alemão, umas quatro matérias internacionais que citavam a banda e muita matéria de cadernos culturais brasileiros. Eu xeroquei umas 20 matérias, incluindo as internacionais, e comecei a mandar junto com “Da Lama ao Caos” pra esses endereços. Nessa época eu trabalhava do meu quarto na minha residência, um quarto-escritório que tinha um aparelho de fax, era a linha da minha casa. E aí eu comecei a receber os convites pelo fax a partir de setembro de 1994.


Então com cinco meses depois da saída de "Da Lama ao Caos", eu comecei a agendar a turnê internacional da banda. A Sony não ficou muito feliz com a ideia porque o disco não tinha vendido, queriam a banda aqui. Achavam que a gente não devia dar aquele passo internacional ainda. Eu falei que respeitava a opinião deles, mas não podia deixar de ir, não podia deixar de tocar no Central Park Summer Stade nos EUA, no Montreaux Jazz Festival na Suiça, que aquilo faria bem para a banda E assim rolou em 1995, oito meses depois de começar a ser planejada a primeira turnê que a gente chamou de “From Mud to Caos”, que era a tradução de "Da Lama ao Caos" para que a galera entendesse o conceito da história.

Chico Sicence
Creative Commons - CC BY 3.0 - Chico Sicence

Maria F. Moreno / Acervo Paulo André

O Afrociberdelia começa a ser gravado depois dessa turnê. Passados 20 anos do lançamento desse disco, como você enxerga ele hoje? Houve mais liberdade para a banda, como se deu a gravação?

Eu consigo ver [em "Afrociberdelia"] muita coisa que o Chico viu na primeira turnê, dos discos que comprou, das bandas que dividiu palco. Já é um disco bem mais diverso na sonoridade, bem mais resolvido com a coisa do uso de samplers, nas batidas, eu acho que ele tem uma memória artística. O “Da Lama ao Caos” é um pouco mais cru que o "Afrociberdelia". Nas idas a São Paulo nos day off, o Chico ia muito na casa do Bid [Eduardo Bid] e aí foi quando  resolveu tomar essa decisão. Virou para mim e falou assim: "Paulo, a gente vai produzir o disco". Aí eu falei: "Brother, mas a galera não tem experiência". Ele falou: "não, a gente vai chamar Bid pra co-prodzir o disco".

Todos eram inexperientes, inclusive o Bid e a gente pagou um preço por isso.  A gente resolveu se mudar para o Rio com a grana que eles iam gastar com hotel e porque a gente fazia muito mais show morando no Sudeste do que morando em Recife. Então nessa história, o limite de tempo que foi no [estúdio] "Nas Nuvens" estourou. O orçamento que era de 80 mil foi pra 120 mil e a Sony fez a banda pagar aqueles 40 mil de diferença.


Tudo tem um preço, então para a galera aprender produzindo um disco deles, o custo foi alto. A gente ficou dezembro [1995] e janeiro [1996] gravando o 'Afrociberdelia". O Holywood Rock era em janeiro e a Sony, para aproveitar essa visibilidade, correu para lançar o clipe de "Manguetown", que já estava gravada. Finalizou a música e mandou para as rádios e nada aconteceu. Eles lançaram a primeira música em janeiro para o Hollywood Rock e só em julho, o disco. Quando soltaram o disco a gente já estava indo pra turnê de "Afrociberdelia", que passou de novo pelos EUA e dessa vez por sete países da Europa.

E como estava a cabeça de Chico Science em relação aos projetos musicais no final de 1996, antes do acidente?

Com essa dificuldade no Brasil de rádio não querer tocar, a ideia da gente era investir internacionalmente. A gente já tinha pensado em passar uns dois meses por exemplo em Nova Iorque, alugar um apartamento grande ou uma casa nos arredores e a banda ficar uns dois meses lá e fazer uma turnê, tocar em universidades, tocar em casas noturnas pra ir fazendo nome no território.

"Afrociberdelia" já era o segundo disco e o contrato com a gravadora era de três discos. Chico pensava em fazer um selo para lançar também  artistas, fazer um projeto social que era o Antromangue, tinha várias ideias. O Chico era um cara muito inquieto e afim de fazer muita coisa, então não deu tempo de fazer tanto.

Como você avalia a trajetória artística do Chico Science?

Se você pegar a trajetória, o primeiro disco de abril de19 94 e o desaparecimento dele em fevereiro de 1997 não dá três anos. Foram 2 anos e 10 meses, então a trajetória ela é muito impressionante. São três idas à Europa, duas turnês mundiais, a primeira dura quase 2 meses e passa por cinco países. A segunda dura um mês passa por oito países, o primeiro disco é lançado nos EUA, na Europa e no Japão, o "Afrociberdelia" também.

Ainda bem que deu tempo de fazer tudo isso. Ainda bem que a gente não escutou a Sony quando achavam que era muito cedo para investir na carreira internacional. Por que, se você pegar essa trajetória é uma certa timeline. O que eu pretendo com meu livro é fazer uma linha do tempo de como as coisas aconteceram. Alguma coisa estava dizendo "olha, corre e faz um monte porque não vai durar muito". A sensação é essa assim, pela quantidade de coisas que a gente conseguiu fazer, é como se a gente estivesse correndo contra o tempo. E na verdade não era isso. Por essa razão o nome do meu livro vai ser “Inconformados”, a gente não era nem um pouco conformado com essa situação.

E quando você pretende lançar o livro?


Eu vou tentar lançar ele esse ano ainda, estou esperando passar o Abril Pro Rock agora pra me concentrar. Porque, para te falar a verdade, até tenho medo de que aconteça alguma coisa comigo e eu leve uma parte da história junto porque ninguém pode contar a história como ela foi. A banda não tinha muito envolvimento, só se envolvia para saber horário, viagens e grana e tal, mas não tinha um envolvimento maior. Inclusive o Chico cobrava mais isso, então a galera não sabe como as coisas aconteceram. Eu tenho uma memória boa e tenho essa memória também gráfica, tenho as matérias, as revistas da época.


Como você descreveria o Chico Science?

O Chico era um cara inquieto para caramba e muito focado. A gente só conseguiu fazer tudo isso porque o Chico era focado no trabalho. Muitas vezes eu tinha pena dele quando eu ia acordar ele depois de um show, no dia seguinte, porque a gente já ia voltar e tinha uma entrevista importante pra fazer. Ele nunca recusava trabalho e a gente sempre discutia tudo muito.

Ele era um cara tranquilo, mas era um cara por outro lado bem pé atrás com tudo e todos, era um cara focado. Quando botava uma coisa na cabeça que ia fazer, ele fazia. Eu acho que o Chico deu muito mais para acidade do que a cidade deu para ele, essa questão de popularidade, de não tocar no rádio, era uma coisa que de certa forma incomodava ele. Mas quando veio a carreira internacional, ele ficou muito mais tranquilo em relação a isso.

Eu lembro do amigo que foi embora tão cedo, que não merecia, que ainda tinha muita coisa na vida para ver. Se o Chico fosse vivo ele estaria interagindo em todas as formas de redes sociais possíveis, ele estaria interagindo com o mundo, isso facilitaria muito a interação dele com outros artistas porque ele também era muito de trocar ideia, de conhecer outra galera.

Creative Commons - CC BY 3.0
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