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Estudantes em aula na Universidade de São Paulo (USP)

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Estudo da USP analisa uso de material didático virtual e livre

Criado em 05/02/16 15h45 e atualizado em 05/02/16 16h21
Por Agência USP

Ao analisar a experiência de professores de italiano utilizando e produzindo materiais didáticos de natureza virtual e livre, o doutorando Rômulo Francisco de Souza, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP,  identificou alguns problemas, como a existência de crenças equivocadas. Segundo o pesquisador, a percepção dos problemas fornece conteúdo para a formação desses profissionais. “Uma forma de trabalhar com isso seria motivá-los a refletir a respeito, confrontar e questionar essas crenças”, aponta.

O pesquisador explica que os materiais didáticos de natureza virtual e livre têm características diferentes do material didático fechado e tradicional e o professor precisa observar determinadas regras para utilizá-lo e produzi-lo como, por exemplo, a questão dos direitos autorais.

“Para ser considerado livre, o material precisa, por exemplo, utilizar apenas insumos [textos, imagens, áudio etc.], também livres. Insumos são todos os bens culturais que utilizamos para produção do material didático”, explica o pesquisador, que também atua como professor de italiano. “Se usar insumos com copyright [direito autoral] por exemplo, o material deixa de ser livre.”

Além da licença, esses materiais são elaborados de modo a serem mais facilmente reutilizados e adaptados por outros professores ou interessados. “Uma característica importante é que eles precisam ser feitos em um suporte livre, ou seja um software livre ou um formato aberto. Isso facilita a circulação e a reutilização do material. Diminui os entraves”, afirma.

De acordo com Souza, esses materiais são uma ferramenta muito importante para o professor, pois ele pode adaptá-los de acordo com as demandas observadas no dia a dia. Um aluno pode estar fazendo aulas de italiano porque vai viajar para a Itália; o outro vai fazer um intercâmbio ou uma prova de proficiência.

“É preciso também levar em conta que cada aluno tem um ritmo e aprende de uma forma. São necessidades coletivas e individuais e esse tipo de material didático é excelente para o professor que busca recursos para adaptar e aplicar nas aulas”, destaca.

O pesquisador analisou as narrativas de 25 professores de italiano enquanto utilizavam e produziam esse tipo de material didático. Foram realizadas entrevistas e filmagens. “Os problemas percebidos pelos professores poderão contribuir como referência para a elaboração de programas de formação docente”, ressalta.

Crenças equivocadas

Muitos participantes apresentaram a crença equivocada de que o uso desse tipo de material diminuiria o tempo disponível para assumir uma carga horária maior de aulas, pois aumentaria a carga horária investida em sua preparação.

“O que muitos não perceberam é que se eu tenho um repositório de material livre, uma hora vou encontrar o que eu quero. Ou vou encontrar algo quase pronto. É a inteligência coletiva entrando em ação”, aponta.

De acordo com o pesquisador, eles também não identificaram que, ao utilizar um livro didático, também precisam fazer adaptações para a realidade que encontram em sala de aula segundo a demanda dos alunos.
“Observamos ainda um processo de assalariamento, de precarização profissional, de perda do controle sobre o processo produtivo”, explica Souza. Para ele, essa situação reflete um profissional menos empoderado. “Como o professor ganha pouco, ele acaba ficando mais preocupado com a quantidade de horas/aulas ministradas do que, por exemplo, em investir mais tempo na autoria de materiais didáticos”, diz.

O pesquisador conta que um dos participantes teve a impressão de que se não levasse para a sala de aula uma grande quantidade de material impresso, mas apenas o computador ou o tablet, os alunos poderiam achar que ele não é um bom professor ou que a aula não é boa. “Isso faz referência àquela imagem estereotipada do professor estudioso, que carrega livros pesados para a sala de aula.”

Já um outro apontou que se utilizasse uma música de um cantor desconhecido, não divulgada pela grande mídia, que disponibiliza suas criações de modo independente com licenças de uso flexíveis, os alunos perderiam o interesse. “Será que perderiam mesmo? Essa produção também não é cultura? Também não representa a cultura do seu país, nesse caso, a Itália? Pode ser que alguns se apaixonem pelo cantor ou cantora”, questiona.

Os dados estão na tese de doutorado Implicações do uso de material didático virtual livre em contexto formal de ensino-aprendizagem de italiano como LE/L2 – a perspectiva dos problemas de ensino, defendida em agosto de 2014. A pesquisa teve a orientação da professora Paola Giustina Baccin, do Departamento de Letras Modernas da FFLCH. O trabalho acaba de ser premiado em 2015 no Programa de Teses Premiadas da FFLCH. Atualmente, o pesquisador está estudando o tema em seu pós-doutorado.

Creative Commons - CC BY 3.0
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