Ernesto Silva, pai fundador :: Tereza Cruvinel
Correio Braziliense - 06/02/2010
Jornalista, presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC)
Entre os homens públicos que participaram ativamente do processo de transferência da capital, Ernesto Silva é um dos poucos que ficaram ligados à cidade para o resto de suas vidas, nela vivendo, com ela se preocupando, dela contando a história. Diferentes razões, algumas pessoais, outras políticas, como a chegada assombrosa da ditadura, quatro anos depois da inauguração, tiraram da cidade alguns pais-fundadores, como o próprio Juscelino, Niemeyer, Lucio Costa, Darcy Ribeiro, entre outros.
Note-se que falei em envolvimento com a transferência da capital e não apenas na construção da cidade. Isso porque o dr. Ernesto, ainda antes de JK ser eleito, aqui já estivera, trabalhando pelo sonho que já fora lançado pelos inconfidentes e transformado em meta política pela primeira Constituição republicana. Tal como os desbravadores da Missão Cruls, que nos idos de 1892 palmilharam o planalto ainda desconhecido, ele veio pela primeira vez à região, com outra comissão, em 1954. A Constituição de 1946, tal como a de 1891, determinara a transferência da capital, pensando na interiorização do desenvolvimento e na soberania nacional sobre as paragens perdidas e esquecidas que iam até à remota Amazônia. E para cumprir a Constituição, o presidente Café Filho nomeara a Comissão de Planejamento e Localização da Nova Capital. Dr. Ernesto integrou essa comissão.
Na longa entrevista que gravamos em outubro passado, em seu apartamento da SQS 105 — que ele não chegou a ver exibida porque estava programada para a celebração dos 50 anos de Brasília, em abril — vi em seu escritório, emoldurada, a fotografia da fila de jipes levando a comissão cerrado adentro, envolta numa nuvem de poeira, na região de Planaltina. Essa foi a comissão, presidida pelo marechal José Pessoa, que elegeu o chamado “sítio castanho”, entre outros quatro, identificados por cores, apontados pela consultoria americana Belcher como local ideal, dentro do quadrilátero já demarcado para o Distrito Federal. Depois, já no governo de JK, ele secretariou a comissão do concurso para o escolha do plano urbanístico, vencido por Lucio Costa.
Aprovada a lei de criação da Novacap — lei que, na prática, liquidava com o assunto da transferência sem falar nisso, jogada política magistral de JK — Silva foi indicado para a primeira diretoria, que incluía um representante da oposição, fruto das penosas negociações no Congresso. Desnecessário dizer que nessa fase heroica, a do grande canteiro de obras, ele esteve o tempo todo na dura lida, ao lado de Israel Pinheiro, presidente da companhia.
Desde então, dedicou-se inteiramente a Brasília. Ficando a cidade adulta, dedicou-se a contar sua história, escrevendo um dos mais importantes livros sobre a epopeia que está completando 50 anos. Ao desaparecer, dr. Ernesto levou uma preciosa memória, que felizmente ele compartilhou conosco em inúmeros registros sobre o que viu, viveu e ajudou a vencer. No ano passado, encontrei-me com ele na solenidade de nomeação do Comitê Consultivo para a festa dos 50 anos, organizado pelo governador Arruda e o vice-governador Paulo Octavio, composto por 50 brasilienses ligados à memória da cidade. Ali, no Museu da República, combinamos a entrevista que fiz dias depois, na qual ele falou por quase duas horas sobre tantas coisas vividas. Trecho dela foi mostrado na quarta-feira pelo Repórter Brasil. O inteiro teor, a TV Brasil exibirá em abril, na programação dos 50 anos.
Dr. Ernesto foi um homem público exemplar, prestando serviços ao país mesmo na idade provecta em que morreu, com mais de 95 anos. Médico, poderia ter voltado a viver tranquilamente no Rio, onde nasceu, mas preferiu, para sempre, o solo que ajudou a desbravar. Até hoje, fala-se que a construção de Brasília permitiu uma roubalheira sem fim. Como outros pais fundadores, ele teve grande influência política. Ser diretor da Novacap naquele momento conferia mais poder que ser ministro de algumas pastas. Por ali passavam milhões. Dr. Ernesto viveu modestamente seus últimos dias, num apartamento modesto da SQS 105, ensolarado como foi sua vida, protegido pela sombra das árvores que ajudou a plantar na cidade que hoje temos. Sigamos o seu exemplo, zelando pela história ainda mal conhecida e mal contada da nossa capital.
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