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Caminhos que passam longe da crise da imprensa

Publicado em 01/02/2016 - 16:51

Por Joseti Marques Editor Joseti Marques

Novas mídias: das ruas à rede

Caminhos da Reportagem é um programa jornalístico exibido pela TV Brasil às quintas-feiras, 22h, e em horários alternativos durante a semana. É uma produção premiadíssima, de qualidade impecável, tanto na forma como trata os assuntos, quanto pelas abordagens adequadas à mídia pública. A Ouvidoria, que tem como uma de suas obrigações fazer a crítica dos conteúdos exibidos nos veículos da EBC, costuma afirmar que o elogio é importante, mas contribui menos do que a crítica para o investimento em qualidade. Esse comentário foi feito a propósito de uma das edições do Caminhos da Reportagem, dedicada aos cem anos de nascimento de Luiz Gonzaga – um trabalho realmente primoroso em termos técnicos e editoriais. E para que o elogio fosse além do mero reconhecimento da competência, recomendamos que se fizessem oficinas para que a equipe pudesse trocar experiências com os demais profissionais da EBC, compartilhando o modo de fazer bem-sucedido.

E foi com essa percepção positiva que recebemos a chamada do programa, que prometia mostrar projetos que estão revolucionando a área de comunicação, a partir da facilidade de difusão de conteúdos pela internet e da crise das empresas de jornalismo. Essa é a descrição que ainda se pode ver na página do programa. A “facilidade de difusão de conteúdos pela internet” é um fato notório que dispensa detalhamentos; mas a que se refere exatamente a “crise das empresas de jornalismo”? Às demissões em massa ocorridas em veículos tradicionais da mídia impressa nos últimos meses? Ou seria à perda gradual de credibilidade do jornalismo tradicional, exposta pelas transmissões por celulares de vídeo em tempo real, principalmente em manifestações?

A abertura da reportagem alimenta a expectativa, quando levanta a questão: “...qual o rumo do jornalismo na era das novas mídias?” Era de se supor que o jornalismo seria ousado a ponto de refletir sobre suas próprias fragilidades, já que mesmo na comunicação pública o jornalismo também é afetado pelo surgimento de “novas mídias”.  Mas não foi o que aconteceu; faltou a necessária participação editorial da reportagem sobre um assunto que tem tantas questões polêmicas a serem debatidas e compartilhadas com o público.

A edição privilegiou a colagem de sonoras em sequência, como quem organiza um roteiro e compõe o texto a partir das falas gravadas dos entrevistados, abrindo mão da autoria. Essa montagem pode funcionar bem em documentários sobre, por exemplo, a vida de celebridades, porque a audiência está interessada em conhecer apenas detalhes, informações esparsas, curiosidades sobre alguém ou algo que já é amplamente conhecido. Mas se o assunto ainda guarda pontos obscuros, fatos pouco conhecidos, injunções pouco claras, cabe à reportagem contar, confidenciar, narrar, oferecer ao público a oportunidade de reflexão sobre o que lhe está sendo apresentado. Era o caso dessa pauta, como se pode ver aqui - Novas mídias: das ruas à rede.

Logo no início da reportagem, uma referência ao que seria o objetivo dos midiativistas reforça a expectativa de aprofundamento do tema: “...eles querem ser um contraponto à imprensa tradicional”. Como assim? Qual é o ponto sobre o qual eles pretendem ser um contraponto? A possível explicação, que foi deixada para uma participante de um dos coletivos, é antecedida por uma cena de protestos contra o projeto de mudanças na rede de escolas estaduais de São Paulo, contexto do qual, na cena, participava a entrevistada. Obviamente, a fala dela referia-se àquele contexto da manifestação, não abrangendo o assunto plenamente. E precisamos levar em conta que nem todos os telespectadores poderiam estar suficientemente informados sobre o polêmico projeto que ocupava as manchetes, enquanto os estudantes ocupavam as escolas.

Em seguida, ainda em curto texto off, a reportagem introduz um assunto já muito debatido e sobre o qual não resta novidade – as transmissões por streaming nas jornadas de junho de 2013 e como os midiativistas explicitaram a diferença entre os acontecimentos e a narrativa que a mídia convencional fazia deles. Em falas editadas, entrevistados descrevem esses eventos já exaustivamente analisados, sendo seguidos pelo áudio de manifestantes que gritavam slogans contra a Rede Globo.  E mais uma vez o texto em off introduz outro assunto batido – o significado da sigla Ninja, do coletivo de midiativistas que mais se destacou nas manifestações de 2013, e como eles se organizam e vivem, assunto por demais explorado na ocasião. E mais uma vez coube ao entrevistado explicar o assunto, referindo-se a situações que podem não ser inteiramente compreendidas pelo público.

Mais adiante, um equívoco: o texto diz que na “onda de manifestações deste ano, surge outro coletivo de comunicação”, como se muitos coletivos já não houvessem surgido antes e a propósito não de manifestações, mas da contestação ao jornalismo da chamada grande mídia e da imprensa tradicional – essa é a questão que a reportagem fica a dever ao deixar timidamente a provocação para as falas dos entrevistados. Na sequência de uma das entrevistas, a edição do depoimento de uma jovem que declara ter feito aborto fica totalmente deslocada, não sendo possível perceber, de imediato, que se tratava de uma espécie de exemplo ilustrativo da fala exibida antes.

A curta entrevista com o cartunista Nani e a informação sobre o Pasquim ficam parecendo um parêntese apartado do restante, enquanto a Agência Pública recebe um tratamento especial,  quase de divulgação, com espaço privilegiado para falar de si mesma, de suas reportagens, prêmios, parceiros etc. O mesmo tratamento é dado à Agência Énois, e difere do restante da reportagem. Uma rádio comunitária de Planaltina, DF, também é bastante explorada, com direito a extensa propaganda feita por um ouvinte, fã da rádio.

A um olhar mais atento, fica a pergunta inevitável sobre as fontes de financiamento dos projetos que têm estruturas bem montadas, como a Agência Pública, Jornalistas Livres e Énóis. E de forma inusitada, a passagem para o bloco seguinte provoca: “E a pergunta que não quer calar – como as novas mídias se sustentam? Veja no próximo bloco”.

Para saber como a mídia alternativa e os midiativistas se sustentam, o telespectador teve que passar por uma longa apresentação da empresa Jota, que trabalha exclusivamente com assuntos jurídicos, cujos empresários tiveram bastante espaço para divulgar a empresa que eles mesmos afirmam não ser veículo alternativo, mas um empreendimento.

E a “pergunta que não quer calar” deu espaço à divulgação de novos negócios, passando muito longe de responder como é, afinal, que se sustentam as mídias alternativas que hoje se apresentam mais estruturadas, como as que foram mostradas na reportagem e que suscitaram a questão.

Os leitores devem agora estar se perguntando: por que a Coluna da Ouvidoria está tratando de um programa que foi ao ar em novembro de 2015? Por três simples motivos: aquela edição do Caminhos da Reportagem ainda pode ser acessada por meios digitais a qualquer momento; a pauta é muito relevante para o interesse público; e a crise por que passa o jornalismo e a imprensa no Brasil ainda continua precisando de uma análise mais consistente.

Até a próxima!

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