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Jornalismo público e a busca da verdade no palheiro das versões

Publicado em 11/03/2016 - 11:49

Por Joseti Marques Editor Joseti Marques

Mural “Printers” (1940) feito por vários artistas

O jornalismo na mídia pública é um vir a ser, ainda tentando encontrar um meio termo que possa chamar de seu, diferenciado das práticas às quais, de berço, se contrapõe. Ser pública significa, grosso modo, não ser estatal, nem comercial e privada. Mas haveria, para além disso, um território a se conquistar, uma alternativa ao que vem sendo construído desde as primeiras décadas do ano de 1800 como imprensa no Brasil?

O discurso autorreferencial da imprensa e do jornalismo invoca a busca pela verdade como o seu mais alto valor e principal arma na defesa do bem comum. A contrapartida para o investimento é o capital de credibilidade, que se transforma em lucro e dinheiro para os veículos atrelados ao comércio e setores econômicos;  no caso dos veículos estatais, o retorno vem em termos de publicidade que se pode transformar em prestígio político e voto. Para ambos, igualmente, a moeda de troca é o poder.

Mas quando o vínculo é apenas com a sociedade e o cidadão, de que tipo de retorno se poderia beneficiar a mídia pública ou os que nela atuam? Como empreendimento, nenhum – não terá lucro, nem voto, nem poder. Ao contrário, na comparação frequente com os modelos comercial e estatal, a mídia pública é ameaçada permanentemente de extinção. Não se compreende o que ela é, o que significa e para o que serve. Estamos acostumados a uma imprensa que serve. E servir à sociedade tornou-se apenas uma peça de retórica, esfrangalhada pelo uso excessivo e indevido nos discursos políticos e em propagandas eleitorais ditas gratuitas.

Muitos se perguntam qual a razão para se ter um aparato tão caro e complexo como a radiodifusão pública,  cujo objetivo é apenas contribuir para a formação crítica das pessoas; servir à sociedade. Não se compreende a troco de quê? Olhando para dentro com lente aumentada – que é o papel da Ouvidoria –  vê-se um jornalismo livre das imposições de opinião que nós, como jornalistas, sabemos que existe nos demais veículos. Um jornalismo tão livre que chega a não saber para que lado e com que tintas deve tratar a informação. Prova disso está na percepção, também ambígua, do público que escreve à Ouvidoria:

“...a matéria foi produzida por um repórter que evidentemente se sentiu à vontade para produzi-la. Afinal, esse repórter, de família da Casa Grande que frequentou os Palácios governamentais dos tempos da ditadura, certamente estava à vontade para produzir uma "matéria" desconexa aos interesses, hipoteticamente, de quem comanda a EBC que igualmente, hipoteticamente, faz parte de um Governo.”

Em que pese o equívoco das hipóteses do cidadão, ele aponta para um problema real. Por outro lado, há quem pense exatamente o oposto, com a mesma ênfase:

“A TV Brasil está muito chapa branca. O Repórter Brasil era um jornal que eu gostava, pois achava que não tentava alienar o povo, mas agora tenho visto que ele está virando as costas para a sujeira que está em Brasília. Quando falam de coisas da "presidenta" sempre tentam disfarçar. Acho que nenhum jornal deve ser totalmente contra nem totalmente a favor de algo.”

Sem entrar no mérito do que está sendo apontado pelos reclamantes, reportagens que deixam transparecer tendências, seja para que lado for, são tão impertinentes quanto aquelas que os críticos de mídia costumam condenar nos veículos comerciais. Mas haveria mesmo um caminho do meio?Ou será isso apenas uma ilusão engendrada pela falácia do conceito de isenção? A comunicação pública, transitando pelo fio da navalha, guarda ainda muitas perguntas que não podem ser respondidas tão facilmente.

Mas temos pistas que podem nos socorrer – se não do fio da navalha, ao menos do compromisso moral que se assume ao optar pelo jornalismo como profissão. A lei que criou a EBC e instituiu os princípios e objetivos dos serviços de radiodifusão pública (11.652/2008) diz, em seu Art. 3o. VI, que devemos “buscar a excelência em conteúdos e linguagens e desenvolver formatos criativos e inovadores, constituindo-se em centro de inovação e formação de talentos.”

É uma pista, não é um manual de instruções. Mas a partir daí podemos nos questionar sobre que papel podemos desempenhar no cipoal de informações não confiáveis em que a sociedade está embrenhada e, quem sabe, até descobrir uma nova forma de oferecer às pessoas um produto no qual elas já não confiam tanto – a notícia.  E a falta de confiabilidade não aponta apenas para a internet, embora esteja lá o manancial de fatos não confirmados e verdades carentes de apuração.

Será verdade? É o que todos se perguntam quando olham pela janela que abriu para todo o mundo o direito de dar notícias. Será verdade que os militares estão de prontidão? Será verdade que isso foi mentira dos jornalistas de O Globo? Será verdade a história da mansão de Paraty dos Marinho? Será verdade que a mulher do Sérgio Moro trabalha para partido de oposição? Será verdade que o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima é mesmo “Raposa no galinheiro”, como publicou a revista IstoÉ em 2003? E se for tudo verdade, porque ninguém informa para o cidadão? E se for tudo mentira, por que também não? Do resto, os veículos convencionais já estão cuidando e dando notícias à exaustão, de modo que já não se consegue distinguir o que é fato do que é versão.

Se pensarmos no discurso que referencia a imprensa e o jornalismo, veremos que a nós, meios públicos, só resta um caminho: reinventar a forma de compreender e tratar a notícia, dentro dos critérios da ética e do compromisso público, levando a sério o preceito da busca pela verdade, destrinchando os fatos que correm por fora das trilhas, à margem do noticiário. Os veículos da mídia privada já escolheram e pavimentaram seu território, assumindo o pesado ônus da falta de credibilidade.  Aos veículos públicos, sobram o direito de se inventar e a liberdade de um jornalismo sem ilações.

Até a próxima!

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