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TV Brasil na cobertura dos atos políticos de março de 2016

Publicado em 23/03/2016 - 18:41

Por Joseti Marques Editor Joseti Marques

Coluna da Ouvidoria

Joseti Marques - Ouvidora da EBC

Ato pela legalidade e democracia na Faculdade de Direito da USP

A questão mais sensível para a comunicação pública, aqui representada pelos veículos geridos pela Empresa Brasil de Comunicação–EBC, tem sido, e podemos dizer que sempre foi, a abordagem jornalística dos fatos que afetam o governo ou a ele dizem respeito, quer sejam positivos ou negativos.  Historicamente, o público costumava reclamar à Ouvidoria usando a expressão “chapa-branca” para definir suas impressões, considerando que muitas reportagens privilegiavam as autoridades, em detrimento dos fatos que a elas estavam relacionados. Em muitos casos, a Ouvidoria concordou com a avaliação dos reclamantes, classificando esse tipo de abordagem da pauta como “oficialista”.

Mas desde que as disputas e lances do contexto político tomaram a cena midiática, os usuários do sistema público que se manifestam à Ouvidoria, além de maior ênfase em suas opiniões, tem demonstrado uma certa ambiguidade na avaliação que fazem da cobertura dos acontecimentos políticos, notadamente os noticiados pela TV Brasil – ora consideram favorável ao governo, ora acham que é contra. Sabemos que esse assunto já foi pauta da Coluna da Ouvidoria, mas a recorrência dos apontamentos do público nos faz voltar ao tema, no intuito de oferecer uma verificação cada vez mais apurada.

A TV Brasil é a que mais recebe manifestações entre os veículos da EBC e por isso vamos aqui nos ater a ela. Na cobertura dos atos recentes contra e a favor do impeachment foi possível observar que a TV pública se comportou de maneira semelhante a um determinado veículo de notícias da mídia privada: na direção contrária, deu maior destaque às manifestações de rua do dia 18/3, e fez uma cobertura modesta das manifestações do dia 13/3. Dar igual destaque teria sido uma oportunidade de colocar, na primeira manifestação, os pontos de vista que a comunicação pública considera relevantes, sem assumir posições particulares, apenas ajudando o público a compreender os fatos para além das disputas de opinião.

As manifestações do dia 18/3 tiveram cobertura ampla, o que está correto do ponto de vista da dimensão do fato. Mas como as primeiras manifestações mereceram pouca atenção, fica a impressão de que houve favorecimento. E houve. Assim como a mídia privada também privilegiou a manifestação do dia 13/3 em sua cobertura, dando pouco destaque à outra. Mas a pergunta é: está correto, do ponto de vista da mídia pública, repetir a performance da mídia privada?

Outro aspecto inadequado que reforça a impressão de posicionamento foi a aplicação da tarja, na tela, com o nome que os movimentos deram à manifestação: “Ato em defesa da democracia e contra o golpe”. Para o telespectador, a tarja indicou algo como o título que a emissora adotou para a sua própria cobertura, o que seria equivalente à TV pública se colocar como um jogador no campo do Fla-Flu político-midiático. Se fosse praxe aplicar o nome do movimento na tarja da cobertura, o mesmo teria sido feito sobre as manifestações do dia 13.

O problema desses pequenos deslizes é que se despreza a audiência daqueles que, muito pelo contrário, querem apenas uma informação esclarecedora em que possam confiar. Em um determinado momento, o âncora de Brasília faz um largo preâmbulo, retomando referências sobre o golpe de 64, parecendo querer justificar o uso da palavra “golpe” na tela da TV. Jornalisticamente, não seria mais adequado dizer “...contra o impeachment?

A manifestação que ocorreu em 17/3, na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, em São Paulo, não apenas teve cobertura ampla, ancorada dos estúdios, como a antecipação do ato que sequer havia começado. E até que começasse, a imagem da arrumação sustentou um discurso militante e inflamado do comentarista. Em momentos esparsos, eram também mostradas imagens de uma manifestação a favor do impeachment, na Avenida Paulista, com pouquíssimas referência a isso no estúdio.  O ato programado pelos juristas teve grande atraso e o âncora justificava, como que pedindo “aguardem”, chamando a atenção para os momentos em que os participantes, ao som de uma bateria, gritavam “não vai ter golpe”. O ato começou com o discurso de um dos organizadores, seguindo-se o discurso do advogado, escritor e jurista Fábio Konder Comparato. Do ponto de vista técnico, foi uma ampla transmissão ao vivo.

Por outro lado, o ato de juristas, advogados, promotores e defensores públicos contra o impeachment e em defesa da legalidade, no Palácio do Planalto, em 22/3, teve uma atenção menor por parte do jornalismo da emissora – repórteres relatavam em suas matérias ou entradas ao vivo o que estava sendo dito nos discursos, relevando apenas curtos e desconectados trechos das falas. Na matéria principal feita após o encerramento do ato, uma longa fala da presidenta Dilma Russeff.  Do ponto de vista jornalístico, perdeu-se aí a oportunidade, entre outros aspectos, dos esclarecimentos que foram oferecidos pelo advogado-geral da União, José Eduardo Cardoso, sobre como estão sendo conduzidas as ações de defesa de seus “clientes”.  Esta foi uma das raras oportunidades que o público teve de ouvir, direto da fonte, sem edições, as suas próprias justificativas. Mas não na TV Brasil.

Em um contexto altamente judicializado e policialesco como o que estamos testemunhando, o advogado-geral da União é fonte primária e fundamental à notícia, já que atua tecnicamente na defesa do governo e contra o impeachment. Esse é um dado jornalístico evidente e a informação vinda daí seria imprescindível para que se pudesse conhecer melhor os argumentos e defesa dos que estão sendo acuados pelos fatos e pelos principais veículos da mídia. Aliás, nesse aspecto a mídia comercial prestou um grande serviço à informação: transmitiu todo o ato do Palácio do Planalto, ao vivo, com imagens da NBR, emissora do governo federal operada como prestação de serviço pela EBC. Se levarmos isso em consideração, jamais se poderá dizer que a emissora pública é “chapa-branca”.

Para a Ouvidoria, e acredito que para os telespectadores, é difícil compreender as decisões jornalísticas que fazem a emissora oscilar da aguerrida militância partidária, como vimos em São Paulo, ao desinteresse pelo caráter técnico da notícia, que por acaso também era contra o impeachment, como ocorreu com o ato de Brasília.

Seria o caso de nos preguntarmos para quem estamos falando, porque uma coisa é certa: ninguém guarda lugar no futuro e muito menos na História.

Até a próxima!

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