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Presidenta vs. presidente, uma questão ideológica

Publicado em 24/06/2016 - 18:49

Coluna da Ouvidoria

Joseti Marques - Ouvidora da EBC

Presidenta Dilma

Nos últimos meses, a Ouvidoria tem recebido mensagens que nos demandam um posicionamento sobre o uso, nos diversos veículos da EBC, da palavra “presidenta”. Até agora, foram 13 manifestações. A mensagem de um telespectador de São Paulo/SP resume as demais que reclamam do uso da palavra no feminino:

“Acompanhando a programação de todos os programas de reportagem da TV Brasil, percebe-se que todos os profissionais, ao falarem do assunto do impeachment, tratam a sra. Dilma como presidenta. Será que faltaram à aula de Língua Portuguesa onde diz que os substantivos e adjetivos de dois gêneros terminados em “ente”  não apresentam flexão de gênero terminado em “a”? Ou será que a partir de amanhã os mesmos profissionais passarão a tratar o sr. Michel Temer de presidento?  Minhas filhas passarão a ser estudantas? Passarei a ser um ouvinto? Por favor, esse erro grotesco (...) deve ser anulado desde já”.

Esse assunto foi muito debatido a partir do momento em que Dilma Rousseff, a primeira mulher a ocupar a Presidência da República, solicitou ser tratada por  “presidenta” e não por presidente. Certamente movido pela polêmica, o portal de notícias IG encomendou um estudo exclusivo à equipe do Dicionário Aurélio.  Embora a Agência Brasil também tenha se referido a isso, recorro a uma fonte externa para não correr o risco de ser mal interpretada: “De acordo com as lexicógrafas Marina Baird Ferreira e Renata de Cássia Menezes da Silva, que realizaram a pesquisa histórica, o substantivo feminino ‘presidenta’ existe na língua portuguesa desde 1872. Em dicionários, os primeiros registros da palavra ocorrem ao menos desde 1925”. A reportagem que divulga o estudo apresenta ainda alguns verbetes sobre a palavra, em dicionários famosos, como Caldas Aulete, Laudelino Freire e Cândido de Figueiredo.

Portanto, não há erro no uso da palavra. Por outro lado, resta a questão da linguagem. A linguagem é formada por fios de ideologias, tecidos na longa trama da história. Mesmo que não saibamos a origem ou reconheçamos suas personagens, legitimamos o passado e atualizamos seus efeitos através do tempo, na linguagem.  Talvez esteja aí a raiz do estranhamento com a mudança do termo que designa a ocupante do mais alto cargo da República.  Como já demonstraram diversos estudiosos, a linguagem não apenas descreve, mas instaura a realidade e molda comportamentos, estabelecendo e atualizando ordens de poder.  O estranhamento com o uso do feminino talvez não esteja na palavra, mas no fato de a palavra evidenciar a mulher naquele cargo onde o masculino tem sido hegemônico.

Olhando para fora dos discursos, podemos ver o retrato da realidade da mulher ainda hoje no Brasil. O noticiário recente, assim como as estatísticas sobre violência, não deixam dúvidas.

O Mapa da Violência 2015 da Organização das Nações Unidas (ONU) mostra que o Brasil ocupa a 5ª posição no ranking global de homicídios de mulheres, em uma lista de 83 países. Nos dez primeiros meses de 2015, do total de 63.090 denúncias de violência contra a mulher, 31.432 corresponderam a denúncias de violência física (49,82%), 19.182 de violência psicológica (30,40%), 4.627 de violência moral (7,33%), 1.382 de violência patrimonial (2,19%), 3.064 de violência sexual (4,86%), 3.071 de cárcere privado (1,76%) e 332 envolvendo tráfico (0,53%). Os atendimentos registrados pelo Ligue 180 revelaram que 77,83% das vítimas são mães e que 80,42% de suas crianças presenciaram ou sofreram a violência.

O discurso implícito no termo “presidenta” refere-se a essa realidade. A polêmica sobre o uso da palavra não é uma questão gramatical, mas ideológica – e a ideologia perpassa a todos.  Dos que nos escreveram reclamando contra o uso da palavra “presidenta”, oito eram homens e quatro eram mulheres.  Apenas um homem se posicionou a favor do termo.

O ouvinte de Brasília/DF, reclamou do que ele considerou reportagem favorável ao Partido dos Trabalhadores na Rádio Nacional-FM, mas cobrou o fato do apresentador ter se referido a Dilma Rousseff como presidente, no masculino: “o apresentador chamando a Dilma de Presidente e não de presidenta! Por que essa mudança? Quanto desrespeito com o ouvinte.”

Não sabemos a motivação do ouvinte para preferir a palavra no feminino, mas a adesão das emissoras públicas à forma de tratamento solicitada por Dilma Rousseff faz pleno sentido se considerarmos que a missão da comunicação pública é contribuir para a promoção da cidadania e dos avanços sociais. Partindo do princípio (teórico) de que a linguagem materializa ideologias, mesmo as mais indesejáveis, a linguagem também pode ser estratégica para promover mudanças na realidade social. A presidenta fez isso. A comunicação pública, que tem um compromisso com a cidadania, ao adotar a palavra apenas cumpriu o seu papel.

Até a próxima!

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