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O espetáculo, a notícia e a realidade grotesca dos acontecimentos

Publicado em 19/10/2016 - 16:45

Coluna da Ouvidoria

Joseti Marques - Ouvidora da EBC

Movimentação da polícia na comunidade Pavão e Pavãozinho

A Ouvidoria recebeu uma reclamação sobre a forma como os telejornais da TV Brasil trataram a notícia sobre o tiroteio entre policiais e supostos traficantes na comunidade do Pavão-Pavãozinho, na zona Sul do Rio de Janeiro, na segunda-feira, 10/10. A telespectadora disse estar “chocada em ver que a TV Brasil aderiu ao sensacionalismo e desrespeito aos direitos humanos, posições contrárias ao manual de jornalismo de empresa pública de comunicação”.  E afirma: “a cena de uma pessoa caindo de um penhasco em meio a um tiroteio no Rio de Janeiro é muito forte para ser exibida em horário de almoço ou antes do horário nobre da TV. A matéria não adverte o telespectador sobre o teor chocante da cena e ainda foi reprisada, indo ao ar nos dois horários do Repórter Brasil.”

Os argumentos da telespectadora pedem mais do que uma resposta; exigem mesmo uma análise sobre a reportagem exibida nos telejornais da emissora pública, além de uma reflexão sobre o que seria o “sensacionalismo” e “desrespeito aos direitos humanos” nas cenas que ela afirma que não deveriam ser exibidas sem aviso prévio de sua gravidade, ainda mais no horário do almoço.

Analisando a matéria, percebemos que a percepção da telespectadora talvez se deva ao fato de que a reportagem tratou de forma acanhada um assunto revestido da mais alta gravidade. Não apenas por ter sido na zona Sul do Rio de Janeiro, mas também por isso – uma região densamente povoada e de grande afluência de turistas que, por si só, é um megafone para os acontecimentos. Ou seja: todo o mundo, literalmente, tomaria conhecimento de uma notícia como aquela. Ao observar esse aspecto, não estamos nos referindo, à “imagem da cidade”, tão cara aos gestores públicos, mas ao fato de que o assunto estaria, inevitavelmente, nas rodas de conversa nos pontos de ônibus, nos bares, nas esquinas, assim como nos apartamentos luxuosos da região.

A emissora pública não poderia se esquivar dos fatos e nem omitir os dados, porque estaria desprezando a oportunidade de chamar a atenção da sociedade para a maneira bestial como a vida ocorre nas comunidades desfavorecidas de uma cidade dita maravilhosa, retirando-se assim do debate. Omitir seria dar as costas à favela; dar com reservas seria promover uma espécie de assepsia na notícia. Não se pode estabelecer faixa classificatória para os fatos e imagens, se eles são reais e ocorrem ao nosso lado, nas horas mais impróprias. Dar a conhecer é prover o cidadão de fortes argumentos para mudar a realidade, por mais que insistam em não se importar.  No entanto, a notícia foi dada de forma modesta, quase como uma nota, sem fazer foco nos dados relevantes que a própria reportagem trouxe de forma exclusiva.

A mídia comercial repetiu exaustivamente não apenas a imagem do homem que rolou do penhasco, mas a informação vaga de um confronto entre policiais e traficantes, sem uma referência à motivação da ação de parte a parte, qualificando, sem julgamento, os três mortos como traficantes. Já na reportagem da TV Brasil, os apresentadores relatam que “três pessoas foram mortas e seis foram presas”, conforme recomenda o Manual de Jornalismo da EBC. O repórter também informou, com exclusividade, o que motivou o tiroteio: “os confrontos entre policiais e traficantes, começaram nas comunidades de Pavão e Pavãozinho depois que o comandante da Unidade de Polícia Pacificadora da região foi atingido por um disparo...”.  No mínimo, pode-se depreender da informação que a dimensão do confronto que deixou dois bairros em pânico – Copacabana e Ipanema – foi uma ação de revanche da polícia, incompatível com o que a sociedade espera das forças de segurança. Se o ataque ao comandante não tivesse ocorrido, a cena de guerra teria acontecido? Os traficantes viveriam em harmonia com os policiais?

Na questão da imagem em que um homem, debaixo de tiros, acaba despencando do penhasco, a reportagem da TV Brasil, inexplicavelmente, apenas se refere a cenas gravadas por moradores, que mostram a “intensidade do confronto”, sem ao menos se referir ao fato registrado na imagem. Afinal, do ponto de vista legal e humanístico, justifica-se aquela caçada humana? Mas não havia texto narrando ou provocando o telespectador a sair da posição de audiência de um filme de violência e aventura, para avaliar criticamente aquele fato grotesco. Sob as imagens, uma voz, provavelmente de quem estava gravando, diz apenas: “e...aí...caiu...caiu”.

O Manual de Jornalismo da EBC recomenda: “a exposição de cenas de violência ou de suas consequências – por imagens, textos ou descrições – deve ser evitada e só admitida em casos excepcionais, quando houver relevância para a informação.”

A imagem chocante de um homem sendo caçado a tiros, despencando de uma pedreira, é uma informação relevante para que a sociedade tome conhecimento da violência dos confrontos nas comunidades desfavorecidas do Rio de Janeiro – mesmo que esse tipo de violência já esteja naturalizada.  A imagem dramática se transmuta de informação em espetáculo quando é repetida à exaustão, para ampliar a possibilidade de audiência através do estímulo à curiosidade mórbida das pessoas. E isso a TV Brasil não fez. De qualquer forma, o acontecimento seria uma boa oportunidade – que a TV pública perdeu - de oferecer algo mais ao telespectador, ampliando a capacidade das audiências de refletir sobre a situação – essa, sim, dramática – das populações das favelas que têm não uma imagem, mas um cotidiano violento como pano de fundo para o espetáculo midiático.

E como encerramento da matéria, a reportagem da TV Brasil traz a declaração do subcomandante do Batalhão de Choque – último a falar, legitimando a ação da polícia que levou pânico à região. A pergunta à autoridade deveria ter relação com a informação dada no início da reportagem, de que o confronto se deveu ao tiro que teria atingido o comandante da UPP. Jornalismo investigativo é também fazer a pergunta certa, mesmo quando prevalece uma versão de consenso em torno dos fatos.

Nesse caso, não houve espetacularização da notícia e nem se feriu recomendação do Manual, conforme apontou a telespectadora; por outro lado, também não se cumpriu o que se espera de uma TV pública.

Até a próxima!

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