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Entrevista com ministra do STF: telespectadora reclama e tem razão

  • 29/03/2017 17h16
  • Gecom

Coluna da Ouvidoria
Joseti Marques-Ouvidora da EBC                                                 

Roseann entrevista ministra  Cármem Lúcia
Roseann entrevista ministra Cármem Lúcia IMAGEM: TV Brasil/ Divulgação

A Ouvidoria recebeu uma crítica ao programa de estreia Conversa com Roseann Kennedy, que foi ao ar em 6/3, junto com a nova programação da TV Brasil. O programa, exibido toda segunda-feira às 21h30, recebe um entrevistado “para um diálogo atual e descontraído”, segundo a sinopse. A convidada da estreia foi a presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármem Lúcia.

Nos trinta minutos de programa, divididos em dois blocos, o telespectador pode ver realmente uma conversa que, ao tentar ser descontraída, resvalou para o excessivamente superficial e sem atualidade. A telespectadora Katia Peres, de Niterói/RJ, criticou, ironizando:

Boa noite. Acabo de assistir à entrevista com a Ministra Carmem Lúcia do STF. Realmente foi muito interessante. Foram debatidos temas de relevante interesse da sociedade, tendo em vista o momento de turbulência política envolvendo o Executivo, Legislativo e, principalmente, o Judiciário. Acredito que a intrépida entrevistadora esqueceu-se de fazer algumas importantes perguntas: qual o prato mineiro que a Ministra mais gosta; se a Ministra acredita no ET de Varginha; e se ela torce pelo Cruzeiro ou pelo Galo. Vou divulgar esta histórica entrevista nas redes sociais. Parabéns, TV Brasil!!!!”.

Ressalvada a ironia, a telespectadora não deixa de ter razão. 

Logo na abertura do programa, um texto em off com imagens da arrumação do ambiente da entrevista traça um perfil da entrevistada, informando ao público que a ministra “não fala sobre processos em andamento, como a Lava jato, ou assuntos que entrarão na pauta do STF, como a revisão do foro privilegiado”.  Já de início, um balde de água fria na expectativa dos telespectadores, que certamente não verão outros interesses em uma entrevista com a ministra do STF que não sejam aqueles que estão na pauta diária do interesse público.

Durante uma entrevista jornalística, se algum tema não for do agrado do entrevistado, caberá a ele não responder e até mesmo ser incisivo, dizendo que não quer falar sobre o assunto. Mas é tecnicamente indefensável que jornalistas restrinjam suas perguntas apenas aos temas de preferência do entrevistado. Ainda mais se levarmos em consideração que a ministra nunca se esquiva de responder, quando interpelada sobre questões no âmbito do STF, ainda que dê uma abordagem discreta às respostas.

Um exemplo disso ocorreu dias depois, com a participação da ministra em evento promovido pelo jornal O Globo, em que ela não se furtou até mesmo a detalhar as medidas administrativas que vem tomando nos processos da Lava Jato.

Nesta entrevista, ao ser questionada sobre a “lista de Janot”, que contém o nome de mais de cem políticos citados em delações premiadas, em relação à grande quantidade de outros processos acumulados no STF, a ministra explicou em detalhes as medidas que tomou para garantir celeridade aos casos da Lava Jato sem interromper o andamento dos demais processos: 

Designei um grupo para ficar por conta disso e eles estão trabalhando junto à minha sala, permanentemente, exatamente para que se tenha um esforço concentrado e especial (...) o que eu pude fazer até aqui foi designar um grupo específico para cuidar disso na tramitação administrativa, burocrática, que é a parte que realmente precisa ser cumprida. E para o ministro Fachin, dar um apoio especial – e isso já foi dado; por exemplo, o ministro tem direito a um juiz auxiliar, e, no caso dele, ele está com três juízes já, exatamente para que dê esse apoio”.

A ministra também não se recusou a falar sobre foro privilegiado e deu sua opinião sobre se já não era hora de o país discutir o assunto: “Já passou da hora de se ter essa discussão; não é que chegou a hora. Esse é um assunto que, na faculdade, quando eu era aluna na faculdade, a gente já discutia. Acho que tem que se discutir, não pode ficar como está; eu sou contra que isso aconteça...".

Outros assuntos de igual relevância também foram discutidos nesse evento, como financiamento de campanha e caixa 2, por exemplo, sem que a ministra se furtasse ao debate. 

No próprio programa da TV Brasil, quase ao final do primeiro bloco, o preâmbulo da jornalista para introduzir uma pergunta evidencia uma contradição sobre a informação de que a ministra poderia ter dito que “não fala...” sobre os temas polêmicos, ou sobre qualquer tema:

A senhora citou agora há pouco que foi de uma geração, ali, que sofreu muito com a mordaça, né? O não poder falar, o controle, a censura, e tem um voto da senhora que virou um clássico do direito, que é quando a senhora cita, ali, a ciranda ‘Cala a boca já morreu’”. 

Na sequência desta introdução, foram feitas duas perguntas que reconduziram o programa às abordagens superficiais – o que inspirava a ministra escolher essas frases, na hora de elaborar o voto; e se havia uma preocupação do Supremo e dos ministros “de se fazerem entender, porque judiciário, direito, não é uma coisa fácil de se entender”.

No segundo bloco, o programa segue a mesma linha casual, com perguntas superficiais, irrelevantes ou pouco abrangentes, sem uma contextualização para situar o telespectador e cativar a atenção da audiência. 

Quase ao final, um equívoco constrangedor em pergunta desnecessária: “Eu vou abordar um tema, que se a senhora não se sentir confortável, não tem problema, mas... assim... uma outra grande perda a senhora sofreu esse ano que foi a do seu pai, no início do ano. O que era exatamente a imagem do seu pai na sua vida, na sua trajetória, o que representou seu pai na sua trajetória?”. 

No encerramento do programa, uma resposta quase filosófica, simples, que acabou por tornar relevante uma pergunta frágil: 

 “Vai sentir saudades da presidência, ministra?”.

Não sinto saudades de cargos públicos; são tarefas, são funções que a gente exerce e numa democracia republicana é uma passagem rápida. Nós aqui somos nuvens passageiras, o que é permanente, é a Justiça”.

 

Até a próxima!

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