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Artista plástico, Walmor Corrêa constrói criaturas imaginárias usando a ciência

Imagem: Divulgação / Site profissional

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"História do ET de Varginha será mais interessante daqui a 100 anos", analisa artista plástico Walmor Corrêa

Criado em 19/01/16 11h03 e atualizado em 19/01/16 12h06
Por Leyberson Pedrosa Fonte:Portal EBC

 

O artista plástico Walmor Côrrea aplica técnicas de taxidermia para criar artisticamente criaturas improváveis. Ele utiliza a ciência para tentar explicar, dentro de sua poética, como esses seres relatados por viajantes no Brasil no período Colonial poderiam existir. Entre eles, já construiu a anatomia e funcionamento do Curupira, Ibupiara (espécie de peixe-homem) e das sereias, criaturas que fazem parte do imaginário europeu trazido pelos colonizadores ao Brasil. Corrêa comenta como acompanhou a história do ET de Varginha e vislumbra como seria a aplicação de sua arte sobre essa criatura, independente de ser real ou não. Confira:

Artista plástico, Walmor Corrêa constrói criaturas imaginárias usando a ciência
Artista plástico, Walmor Corrêa constrói criaturas imaginárias usando a ciência. Foto: Divulgação - site profissional

Você lembra da época em que começaram os relatos sobre o caso ET de Varginha?

Na época, estava realizando uma série de híbridos do imaginário brasileiro: inclui o Curupira e o Ibupiara, baseados em relatos históricos de cartas do Padre Anchieta de 1560, que comenta a existência desses dois seres do imaginário brasileiro.

Estava na Amazônia e as pessoas de lá continuavam falando do Curupira, 500 anos depois, foi quando eu tive a ideia e a vontade de entrevistar pessoas para saber como elas tinham visto os animais e, através do olhar da ciência, comprovar essas existências. Por exemplo, porque os pés do curupira são virados para trás teriam aqueles ligamentos, como ele caminharia, como ficaria em pé?

Técnicas de anatomia são usadas para construir figura do Curupira
Técnicas de anatomia são usadas para construir figura do Curupira. Divulgação - Walmor Corrêa

Foi na mesma época que começou aparecer a onda do ET de Varginha. Muitas pessoas já sabiam que eu tinha feito trabalhos com os relatos de viajantes e elas me peguntavam sobre o ET. Quando eu fiz a escolha dos seres para desenvolver, eu procurei, ao máximo, sair desse olhar curioso, meio infantil, tanto que não peguei o Saci Pererê, o Boitatá, minha ideia não era abordar esses personagens do folclore de histórias meio infantis.

As pessoas não levavam muito a sério o ET?

O ET de Varginha veio envolvido em meio quase a uma gozação, as pessoas falavam daquilo, mas sempre com desdém. Lembro que em programas de televisão passavam as entrevistas do caso ET de Varginha, mas sempre havia uma ironia na narrativa dos testemunhos. Como o meu olhar vai para um lado, entre aspas, científico, uma visão científica mais séria – afinal, nada mais sério do que a ciência comprovar a existência desses seres, não me interessou ir a fundo na pesquisa do ET. Meu olhar foi mais de observador, eu até me diverti com as informações.

Talvez essa história tenha um olhar mais interessante daqui a 100 anos. Por enquanto, a gente vive um mundo de muita informação, a internet e tal. Tem um filme na internet, por exemplo, mostrando sereias. E se você não tiver um olhar atento, você vê a sereia ali na pedra, parece que foi na Noruega.

Mas esse ocorrido comoveu muitas pessoas pelo Brasil afora...

Recordo que o ET de Varginha ficou marcado sim, até porque a própria cidade ficou conhecida por causa do episódio. Parece muito interessante essa visão do cérebro grande porque, para nós, se formos pelo olhar do estrangeiro, esse ser seria mais iluminado, mais inteligente. Nunca se falou que eles vieram para matar. Sempre que falavam do ET, falavam como se fossem seres superiores. Aí sim, eu concordo que ele teria esse cérebro muito maior até para justificar essa inteligência superior. Por outro lado, se estudarmos o desenvolvimento humano do cérebro, lá quando eramos mais animais no passado, o cérebro era muito maior do que o de hoje, e isso não significa que a inteligência era superior. Se o Walmor Côrrea, artista que tem essa poética, fosse olhar o ET de Varginha, teria que fazer uma análise mais interrogativa. A minha questão como artista é interrogar: por que a cabeça é grande? O que tem dentro daqueles três cornos que ali se apresentam, seriam antenas? Os olhos vermelhos seriam por que ele teria capacidade de enxergar à noite com visão superior? Eu olharia por aí, mas isso não significa que eu acredite nele.

Será que o ET de Varginha entrará para o rol de seres como o Curupira que parece mais mito, mas que sempre deixa a dúvida no ar?

Acho que já está decretado a existência dele, até porque tem uma cidade inteira que vive até economicamente ao redor disso. Acho que existe uma legião de pessoas que acreditam, que falam que viram. Não estou desdenhando. Inclusive, as pessoas me perguntam: você acredita em sereia? E eu respondo que não sei mais se acredito. Antes eu não acreditava, mas já escutei tantos relatos que a essa altura…

Como produzo peças, obras com um olhar científico, mas sem que isso seja um compêndio de medicina, eu não me sinto na obrigação de ter 100% de certeza ou razão naquilo. A minha ideia é justamente questionar o olhar do outro sobre o convencimento. Não precisa ir muito longe, toda hora a gente fica reproduzindo matérias que são mentirosas na internet e que julgamos serem verdadeiras. A internet disseminou isso de uma forma enorme. Se você colocar ali pode ser mentira e pode ser verdade.

Como faria o artista Walmor Côrrea na construção dessa figura tão marcante?

O que o Walmor faz é isso: eu poderia, sim, construir o ET para que fosse mais provável, mais verossímil, pois sobre o olhar do Walmor artista é bem complicado aquela cabeça grande. Que tipo de osso teria no crânio desse ET para que ele tivesse tanta leveza para ser suportado por aquele corpo franzino? Por outro lado, eu questionaria o seguinte: às vezes, o compromisso com o medo e com a dúvida faz com que as pessoas enxerguem coisas que a gente não enxerga. Eu não sei se essas meninas estavam assustadas quando viram aquela coisa no meio do mato. Na cabeça de uma pessoa com medo, aquilo cria uma proporção gigantesca. O que eu posso dizer é que isso está muito próximo do olhar no qual eu foco o meu trabalho, que é o olhar do estrangeiro, do viajante, sobre essas maravilhas brasileiras.

De alguma forma, os relatos e a construção do imaginário do ET de Varginha tem um pouco de arte?

Acho que não. O que acontece é que o imaginário foi desenvolvido porque já existia essa dúvida no ar a respeito de seres extraterrestres. Você pode pegar filmes de 1980 como o próprio E.T. (de Steven Spielberg). Já estava no imaginário do nosso universo a possibilidade de existência de um ET dessa maneira. Ele apareceu daquela maneira e entrou no imaginário que é o que aconteceu, por exemplo, com o caso do Ibupiara.

O Ipupiara é um homem-peixe. Pode ser lobo-marinho e homem, leão-marinho, peixe-boi e homem. Quando os europeus trazem para o Brasil a lenda das sereias, os índios acreditavam no Ibupiara, eles temiam esse ser que era meio homem e meio peixe. Logo, foi muito fácil na época assimilar uma sereia, mulher-peixe. Por outro lado, essa assimilação pode ter acontecido no final de tarde em uma lagoa, quando um peixe-boi, uma dessas focas que tem o olhar meio doce, grande, com cílios longos, sobe e emerge em meio a uma quantidade de algas e aquilo pode parecer no imaginário de quem está vendo uma mulher com cabelo encaracolado. Dizem que alguém pode ter visto um desses animais emergir em meio aalgas e acharem que é uma mulher e aí estaria comprovada a existência da sereia, porque ela já existia nesse imaginário. Artesões fizeram do ET uma forma de ganhar seu dinheiro. As lojas vendem suas imagens, mas eu não considero aquilo arte. O intuito de desenho era mais fotografá-lo. Não vejo o impulso artístico de fazer o desenho para tal.

Creative Commons - CC BY 3.0
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