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Testes feitos com rádio digital apresentam alcance inferior ao analógico, diz ministério

Criado em 08/10/13 16h32 e atualizado em 08/10/13 16h59
Por Pedro Peduzzi Edição:Fábio Massalli Fonte:Agência Brasil

Brasília - Os testes feitos pelo Ministério das Comunicações com a rádio digital não foram satisfatórios por apresentarem, ainda, alcance inferior ao do sinal analógico. Apesar disso, novos testes estão previstos para tornar real o desejo de qualidade manifestado nesta segunda-feira (8) por representantes de rádios públicas, privadas e comunitárias, durante audiência pública na Câmara dos Deputados.

Entre 2010 e 2012 foram feitas 11 baterias de testes em sete emissoras, informou o diretor do Departamento de Acompanhamento e Avaliação de Serviços de Comunicação Eletrônica do Ministério das Comunicações, Octavio Penna. “Foi constatado que o sistema analógico ainda tem um alcance maior do que os apresentados pelos dois padrões digitais [DRM e HD Rádio], tanto com o uso de receptores profissionais como com o de receptores comerciais, o que revela preocupação”, disse o diretor.

Penna, no entanto, acrescenta que o resultado pode ter sido influenciado por “diferenças nas características técnicas dos equipamentos enviados pelos fabricantes”. Segundo ele, o comportamento dos equipamentos “ficou aquém do esperado, mas pode melhorar”. Por isso, novos testes deverão ser feitos pois nas reuniões do conselho de rádio digital, “foi manifestado consenso” no sentido de garantir pelo menos a mesma cobertura entre padrões analógico e digital.

“Estamos buscando emissoras aptas a novos testes, o que será fundamental para darmos segurança de que [a rádio digital] é factível”, disse Penna. Entre as emissoras que participarão dos testes está a Rádio Nacional de Brasília, uma das emissoras da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). “Queremos fazer testes em situações [envolvendo ambientes] comuns à realidade brasileira, como o espectro congestionado de São Paulo”.

O diretor da EBC, Eduardo Castro, também participou da audiência. “Nosso posicionamento é em favor da digitalização em todas as três frequências [AM, FM e OC]. Mas a decisão deve ser baseada no padrão que melhor atender ao modelo de serviço como um todo, envolvendo as rádios comerciais, públicas e comunitárias”, disse Castro.

“A rádio é meio estratégico para o Brasil, especialmente pelas dimensões territoriais e pelo perfil sócioeconômico da população, pois a rádio ainda é o único meio de comunicação para boa parte do país”. Castro destacou o papel das rádios AM e de Ondas Curtas (OC), por “apenas elas” atenderem determinados segmentos da população, em especial das áreas rurais e isoladas.

O diretor da EBC ressaltou os impactos sociais e econômicos que decorrerão da escolha do padrão a ser adotado, e que, para isso, será fundamental uma política industrial focada na produção de receptores a preços acessíveis e com multibandas.

“Serão necessários receptores de baixo custo e capazes de receber todas as frequências. [Para chegarmos à melhor escolha] será necessária também a participação da indústria nacional e dos centros de pesquisa, a exemplo do que aconteceu com a TV digital”, acrescentou.

Relatório feito pela Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara concluiu ser o sistema HD Rádio o mais adequado para a implantação no Brasil. Entretanto, acrescenta o relatório, não é aconselhável que as emissoras fiquem restritas a uma única tecnologia.

Para o presidente da Associação das Rádios Públicas do Brasil (Arpub), Mário Sartorello, faltou ao relatório se aprofundar em algumas questões técnicas que foram levantadas durante as reuniões do conselho. Segundo ele, o relatório podia trazer mais subsídios técnicos, de discussão de modelos de negócios e a necessidade de novos testes.

“A Arpub se sentiu incomodada ao ver que boas e importantes discussões do conselho não foram incorporadas ao relatório. Causa estranheza que muitas coisas colocadas pela EBC e pelo ministério não tenham sido colocadas”, disse ao se referir a elementos contidos nas análises dos testes e relativos a política industrial, inovação tecnológica e prestação de serviços.

“Apesar de o padrão não ser o principal foco, ele leva em consideração um modelo de negócio que influenciará a política industrial”, argumentou. A entidade também defende que todas as frequências sejam digitalizadas.

Membro do Conselho Político da Associação Mundial de Rádios Comunitárias (Amarc), Taís Ladeira defendeu que o projeto de digitalização “tem de ser visto como uma política pública”, devido ao potencial de democratização que possibilitará, por viabilizar a multiprogramação.

“A escolha do padrão vai muito além da questão tecnológica e da indústria nacional. Por isso criticamos a ausência da academia dentro do conselho. O assunto pede debates mais focados e aprofundados e preocupação com o papel social do rádio no Brasil. Não é possível desconsiderar as rádios AM e OC. Rádio é espaço de atuação política, social; de organização social. É a comunicação social garantindo outros direitos”, disse. Ela pediu também maior participação do Legislativo nas discussões promovidas pelo conselho.

A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) defende que o sistema não se limite a apenas um padrão, a exemplo do que concluiu o relatório da comissão na Câmara, segundo informou sua gerente de Tecnologia, Monique Cruvinel Strassburguer.

A entidade considera positivos aspectos como transferência tecnológica, utilização eficiente do espectro, diversidade de modos de configuração, transmissão de dados auxiliares, custo reduzidos, democratização dos meios de comunicação, inclusão social e expansão do setor em busca de novos modelos de serviços e negócios.

“Mas não vamos avançar sem que resolvamos a questão da cobertura”, disse Monique referindo-se às limitações técnicas apontadas pelos testes feitos até o momento. Segundo ela, é necessário incentivar indústria no que se refere a transmissão, recepção e serviços.

Ela aponta como “próximos passos” a serem dados pelas autoridades a definição do padrão, das características técnicas e jurídicas das rádios, além dos aspectos regulatórios da transmissão, de linhas de crédito e de dar celeridade aos processos sob responsabilidade do Ministério das Comunicações e da Anatel, no sentido de “higienizar o setor”.

A representante da Abert avalia que, na área de produção de conteúdo, será necessária a capacitação de profissionais, principalmente para os novos serviços que devem advir da definição de modelos e do ambiente de convergência que deve surgir. “Mas o ponto principal será a recepção. Não haverá rádio digital se não abraçarmos a recepção, o que ainda foi feito de forma superficial”.

A rádio digital brasileira terá influência também na rádio digital a ser adotada por outros países, segundo o representante da Associação Brasileira de Rádio e Televisão (Abratel), André Trindade. “Nossa dimensão continental e a diversidade de nosso relevo pode resultar na apresentação de soluções para outros países da América Latina”, disse.

“O problema é que o resultado dos testes, até o momento, não apresentaram uma cobertura adequada, principalmente para cidades de grande espectro, nem dão segurança ao radiodifusor para apoiar a adoção de um padrão. Por isso, infelizmente, não apoiamos, ainda, a digitalização. Mas defendemos que sejam feitos novos testes”, acrescentou.

Outro ponto levantado pela Abratel é a possibilidade de haver migração automática do padrão digital para o analógico em situações de perda de sinal digital. “É importante que o receptor mude para evitar queda da audiência para a emissora”, disse.

“Falta também capital para investimento a serem feitos pelas emissoras. Isso poderá resultar na morte de um número imenso de rádios, pois o custo de migração da AM para a FM será elevado. Precisamos portanto dar segurança para que criemos um modelo de negócios adequado, com uso de linhas de crédito”, completou.

Edição: Fábio Massalli

 

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