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Kuarup 2014, aldeia Yawalapiti

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Kuarup 2014: saiba como acontece o culto aos mortos no Alto Xingu

Criado em 19/08/14 13h32 e atualizado em 02/01/15 12h48
Por Stephanie Ferreira Fonte:Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge

Após dois dias de ritual fúnebre, com presença das etnias Mehináko, Matipuhy, Kuikúro, Kalapalo, Kamayurá, Waurá, Aweti e Nafukuá, chegou ao fim, neste domingo (17/8), mais um Kuarup. Famílias que perderam seus entes queridos receberam amigos e visitantes para dizer o último adeus. Nesse ritual indígena do Alto Xingu, os troncos da árvore Kuarup representam os mortos.

O encerramento do Kuarup teve início na manhã deste sábado (16/8). Em frente à Casa das Flautas, local sagrado restrito aos homens, guerreiros xinguanos ornamentaram dois troncos da madeira. Cada um deles representa uma pessoa falecida na aldeia Yawalapiti neste ano. Além da Casa das Flautas, outras 14 casas elípticas, feitas de sapé compõem a aldeia Yawalapiti, onde vivem cerca de 250 pessoas.

Confira fotos do ritual:


O tio de uma das meninas homenageadas no Kuarup, Tunuly Yawalapiti, explica que o luto, na cultura do Alto Xingu, dura cerca de um ano, e “vai saindo aos poucos”. “Quando alguém morre, a gente enterra. Essa primeira semana é a de luto mais forte, e a família de quem morreu não fala com ninguém. Depois dessa semana, o luto vai saindo aos poucos. Quando completa seis meses, decidimos se haverá o Kuarup ou não. Como nós aceitamos, aí teve”.

A partir daí, a cerimônia para dar fim o luto começa a ser organizada. “Vamos na mata, tiramos a madeira e fazemos uma espécie de cemitério para lembrar que haverá Kuarup. Depois de oito meses da morte, fazemos a pescaria dos donos da festa, que é quando pegamos muitos peixes pra alimentar todos os parentes que vêm. E aí temos o dia final, que é o encerramento do luto”, contou Tunuly.

Com os troncos ornamentados e fincados no chão da aldeia, os parentes mais próximos dos Yawalapiti, foram, aos poucos, chegando para o fim do Kuarup. Na noite de sábado (16/8) para domingo (17/8), no pé dos dois troncos sagrados, os familiares dos homenageados deste ano, cantaram e choraram ininterruptamente. Na frente dos troncos, uma fogueira aquecia a todos. Era um momento de comoção coletiva. “Por mais que o luto seja tirado aos poucos, parece que no dia final do Kuarup, quando o tronco está alí, volta tudo. É muito forte”, disse Tunuly Yawalapiti.

Noite à dentro, de tempos em tempos, alguns guerreiros apareciam para tocar as grandes flautas de madeiras que acompanham o Kuarup, em língua Aruak, chamadas de Wüpü. A música e os gritos puxados por eles são para amenizar o sofrimento. “Pra pessoa não passar mal de tanta dor no pé do tronco, tem que gritar muito e ter muita música, que é pra diminuir o sofrimento”, explicou. É como se o espírito das pessoas que faleceram estivessem alí presentes.

O dia nem havia amanhecido e o guerreiros Yawalapiti e das outras aldeias vizinhas se preparavam para a luta Huka Huka. Eles não dormiram durante toda a madrugada. Segundo o costume, o guerreiro que dormir terá pesadelos e poderá se machucar durante a luta na manhã do dia seguinte. Pintados e ornamentados, eles foram para o centro do da aldeia e se separaram em grupos.

O primeiro grupo a lutar é formado por lutadores campeões. De joelhos, com as mãos no chão, eles ficam em frente ao grupo a ser desafiado. Ganha o lutador que derrubar o outro ou golpeá-lo na perna. Todos são juízes. Percebemos que alguém ganhou ou perdeu pela reação dos presentes. Após a luta dos 16 campeões, começa o combate entre os rapazes mais novos, todos ao mesmo tempo. As lutas se estenderam durante toda a manhã de domingo (17/8).

Ao fim da Huka Huka, os ornamentos do tronco sagrado foram retirados. Os parentes se despediram, e o pátio da aldeia ficou novamente vazio. “O luto acabou, agora sentimos alívio”, relata Barriga Yawalapiti, tio-avô de um dos homenageados.

É o final do Kuarup. “Para o espirito não ficar no centro da aldeia, e a alma se libertar, jogamos os troncos no Rio Xingu”. Assim, cada alma segue o seu caminho no outro mundo, mas continua na memória de todos. “A lembrança da pessoa continua com a gente, mas agora que o luto terminou, não choramos, não sofremos mais”, conta Tunuly.

Rito de iniciação
Além de ser uma celebração fúnebre, o Kuarup também é um ritual de passagem. É durante o Kuarup que se dá o fim da reclusão pubertária. A reclusão para as meninas é um período de aprendizagem, no qual as adolescentes permanecem em suas casas, só podendo sair para tomar banho e ir ao banheiro. Elas ficam com a pele mais clara, devido à restrição do sol e não podem cortar a franja.

Monique Yawalapiti Waura, de 13 anos, ficou oito meses em reclusão e saiu neste domingo (16/8). “A gente não se sente triste por não poder sair, a gente se acostuma, é do costume da gente. Mas eu tô feliz também que vou sair agora”. A partir desse momento as meninas podem se casar e são consideradas adultas.

Durante o Kuarup, as moças que estavam reclusas saem de suas casas para acompanhar os tocadores de flauta Wüpü. Enquanto eles tocam, as meninas dançam com as mãos em seus ombros. Juntos, eles percorrem todas as casas da aldeia.

Um processo semelhante ocorre com os garotos. No inicio do ano eles começam a ser doutrinados pelo pai, tio, avô e primos para aprender as técnicas da luta huka huka. No fim do Kuarup, esses jovens lutam com guerreiros jovens de outras aldeias.

Um olhar sobre o Kuarup: Simon McBurney
Com caderninho e caneta na mão, o ator, escritor e diretor inglês Simon McBurney registrava tudo que via. Ele veio ao Brasil para conhecer o Kuarup e deixou sua impressão sobre o ritual. “O que mais me chamou atenção aqui foi a extraordinária presença dos mortos como tema central do Kuarup. Eles trazem os mortos à vida em tudo que eles fazem. É muito intenso. Eu quase sinto que eu não deveria estar aqui. É incrível o senso de privilegio que eu tenho por ter esta oportunidade. Tudo aqui me mostra a essência do que significa ser humano”, relatou Simon.

McBurney que é diretor da companhia de teatro inglesa Complicite, já dirigiu diversas produções cinematográficas, entre elas, A Disappearing Number (2007). Também atuou em vários filmes como ator, como em A Duquesa (2008). Ao vivenciar o Kuarup, ele faz um paralelo entre a relação que a cultura ocidental tem com a morte e a cultura indígena alto xinguana. “Eles sabem que a morte está no centro da vida. A morte é parte de nós e somos interdependentes dela. Mas na nossa sociedade do consumo de massa, nós pensamos a morte como eliminação e perdemos esta conexão vital. Temos muito o que aprender com eles”.

O Kuarup é realizado com o apoio da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, através de patrocínio da Petrobrás.

 

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