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Aedes aegypti

Imagem: John Tann / Creative Commons

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Brasil vive “primeira grande epidemia de zika” do mundo, diz especialista

Criado em 14/01/16 20h40 e atualizado em 05/02/16 18h14
Por Portal EBC Fonte:TV Brasil

Para o coordenador de Controle de Doenças da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, o infectologista Marcos Boulo, a primeira grande epidemia de zika está acontecendo agora no país. Em entrevista concedida ao programa Espaço Público, da TV Brasil, na última terça-feira (12), ele disse que a doença era pouco conhecida e, ao contrário da chikungunya, não era prevista sua disseminação no país pelas autoridades de saúde. Professor e ex-diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), ele defendeu a eliminação maciça do Aedes aegypt, mosquito transmissor da dengue, chikungunya e zika, como medida urgente de saúde, especialmente pela associação dessa última com os casos de microcefalia, que já chegam a 3.560 notificações suspeitas em todo o país.

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O infectologista e coordenador de Controle de Doenças da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, Marcos Boulos
Creative Commons - CC BY 3.0 - O infectologista e coordenador de Controle de Doenças da Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo, Marcos Boulos (Foto: Reprodução/TV Brasil)

Confira os principais trechos da entrevista.

Zika

De acordo com o infectologista, já havia uma previsão de que a qualquer momento, dado o grande número de ocorrência de dengue no país, poderia ocorrer um surto de chikungunya, mas a grande quantidade de casos de zika era inesperada. “Zika era uma doença que a gente via, como a dengue no passado era, uma doença que se via assim com letras pequenas nos livros-texto, era desconhecida; uma doença, que de fato, teve poucas epidemias no mundo. É uma doença que não é tão longamente conhecida e as manifestações que estão aparecendo aqui no Brasil nem eram conhecidas."

A doença era até considerada mais benigna do que a dengue, segundo ele. "Febre baixa, quadros clínicos menos graves, a pessoa raramente vai morrer por causa de uma doença dessas, a não ser que seja um imunodeprimido, com depressão imunológica importante, e tem manchas pelo corpo que desaparecem em dois ou três dias. Então, não tinha problema. A dengue era mais grave." Mas a situação em relação a doença mudou quando começaram a surgir os primeiros casos de microcefalia associados à zika. "Quando começa a ter esses paraefeitos você começa a pensar: 'espera aí, o que está acontecendo?'. Nós não conhecemos. Até agora nós inferimos que a epidemia de microcefalia é por causa do zika. Por quê? Porque está acontecendo uma epidemia de zika."

Apesar de não se saber muito sobre a doença, o médico acredita que após um pico do surto epidêmico, devam diminuir os casos de zika. “O que acontece com a zika, como a gente conhece muito pouco não dá para dizer. Mas aonde teve, na Polinésia Francesa, em algumas cidades pequenas na África, onde teve epidemia de zika, uma curiosidade é que a epidemia veio e nunca mais voltou. Se isso acontecer, até que não vai ser tão ruim assim. Vamos passar por um momento epidêmico importante, mas depois é provável que exista uma calmaria." Além disso, ele ainda destaca que provavelmente uma vacina contra a doença possa ser desenvolvida. “Aqui estão dizendo que conseguem vacina contra a zika em dois anos. Se o vírus não tiver uma grande mutação, é possível que consiga. A tecnologia para fazer vacinas, quando você não tem muita modificação [do vírus], é possível. Mas são dois anos ou três. De qualquer jeito, nós temos que enfrentar esse tempo não deixando que ele [vírus] esteja por aqui causando esses problemas.” 

Microcefalia

Um dos possíveis efeitos da epidemia de zika que mais tem assustado a população é o nascimento de bebês com microcefalia, ou seja, com o crânio menor do que 32 centímetros, que é o considerado normal pela Organização Mundial de Saúde. A microcefalia pode surgir em razão de problemas durante a gestação, inclusive por doenças virais contraídas pela mãe.

De acordo com Boulos, a microcefalia em si, nesse contexto, não é uma novidade para a medicina, mas sim sua ocorrência associada ao zika vírus que foi registrada pela primeira vez no mundo aqui no Brasil. "A zika está parecendo a rubéola quando começou; você tinha lesões importantes como microcefalia, que é uma lesão cerebral com redução, ou seja, não houve formação completa, o vírus interferiu na formação, na organogênese, na formação dos órgãos. O vírus zika interfere aparentemente como a rubéola interfere, como o citamegalovírus interfere, que nós já conhecemos. Nós temos microcefalia há muito tempo. Mas essa [zika] é uma doença nova e está dando uma epidemia de microcefalia. Como nós não temos defesa contra ela nesse momento, então, isso apavora."

O infectologista ressalta que a maioria dos casos de microcefalia associados ao zika vírus ainda são tratados como notificações suspeitas por ser difícil comprovar a presença do vírus nos bebês. “Para a comprovação [que o zika causa microcefalia], você tem que ter testes positivos na criança e na mãe", explica.

De acordo com o médico, Os testes que são realizados hoje, os chamados PCR, que pegam componentes do vírus, quando a criança nasceu, já estão negativos, porque não está circulando o vírus. "Então, nós precisamos de testes mais específicos. Existem evidências, com um teste que está sendo elaborado no laboratório de virologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto [da Universidade de São Paulo – USP], um teste que é chamado neutralização, que é muito mais específico", aponta. Ele conta que o vírus foi encontrado numa mãe, que teve uma criança com microcefalia, vinda de Pernambuco, e na sua criança foi encontrado o teste neutralização positivo. "Se isso for de fato confirmado, essa foi uma notícia muito recente, é possível que seja confirmado. (…) Mas nós temos evidências indiretas muito fortes. Como eu disse anteriormente, nós estamos com uma epidemia de microcefalia. E isso acontece quando nós temos uma epidemia de alguma coisa que cause a microcefalia. E nós estamos com uma epidemia de zika. Então, já existiam evidências indiretas, não cientificamente comprovadas, mas é possível que nós estejamos muito próximos dessa resposta para mostrar essa correlação forte entre a microcefalia e a zika.”

O grande problema da microcefalia, e que tem causado pânico entre as gestantes, é que, dependendo do tipo de lesão cerebral, o desenvolvimento da criança fica comprometido. "Você tem microcefalia abaixo de 32 cm de diâmetro craniano cerebral. Você tem 32, 31, 30, 29. Quanto menor [o diâmetro do crânio], maior a lesão cerebral. São lesões cerebrais às vezes muito importantes, porque são incompatíveis com uma vida normal; o desenvolvimento cerebral em boa parte das crianças não acontece e (…) elas não têm um desenvolvimento suficiente para viver de uma maneira harmônica. Às vezes conseguem respirar, mas nunca vão ter uma vida produtiva. Outras pessoas têm lesões menores e vão ter uma vida, um desenvolvimento normal", ressalta.

Perguntado sobre mulheres que querem engravidar, ele disse que esta é uma decisão pessoal, mas que as pessoas têm que estar cientes do risco. "Algumas pessoas me ligam: 'minha filha sonhou de engravidar e agora ela está querendo engravidar. O que o senhor fala?' Eu falo: 'eu não falo'. É de fato preocupante que as pessoas queiram engravidar, sabendo que, se tiver o zika, não estou dizendo que vai ter, mas pode, eventualmente ter uma criança com problemas e isso atrapalhar a vida, o desenvolvimento da família ou a vida normal. (...) E, claro que eu falo que você pode engravidar, mas você vai usar repelente, você vai usar roupas de manga comprida, vai usar meia, não vai deixar partes do corpo exposta quando está grávida e principalmente nos primeiros meses, que é a fase de formação orgânica.”

Ao falar em repelentes, ele referendou a indicação do Ministério da Saúde e da Vigilância Sanitária, apontando a substância Icaridina, como o princípio ativado mais indicado para o uso das mulheres grávidas e crianças. “O melhor [princípio ativo de repelente] que está liberado é a Icaridina. Mas a Icaridina praticamente sumiu das farmácias, das prateleiras do Brasil. Porque ela é eficaz e dura algum tempo depois de você aplicar, não tem efeitos tóxicos à gestante ou à criança, pode ser usado por todos. Mas ele está em falta. Existe uma vontade de produção. A própria farmácia do Exército falou em produzir, mas eles não têm uma possibilidade concreta de produzir muito. Então, nós temos que desenvolver tecnologias para [a produção] de repelentes aqui no Brasil.”

Dengue e chikungunya

Marcos Boulos, falou ainda sobre o grande número de casos registrados de dengue no estado de São Paulo apesar de possuir, ao contrário de outras regiões do país, um órgão de controle de vetores, a Superintendência de Controle de Endemias (Sucen). "“Eu me lembro que o próprio governador [Geraldo Alckmin] perguntava por que São Paulo está com tantos casos [de dengue]", contou. Segundo ele, a explicação é "que por muito tempo a dengue ocorreu nas cidades litorâneas brasileiras. Aconteceu no Rio de Janeiro desde a década de 1980, em 1985 e 1986, aconteceu em todo o Nordeste brasileiro com epidemias sucessivas. Por algum motivo, o Aedes não chegava, principalmente nas altitudes maiores. Nós não tínhamos Aedes, por exemplo, em São Paulo, na Grande São Paulo. Tinha um pouquinho no interior, então nós começamos a ter epidemia [de dengue] em Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Presidente Prudente, mas não tinha nos maiores centros urbanos do planalto. O Aedes foi chegando. Então, nós tivemos praticamente 20 anos de epidemias acontecendo no litoral brasileiro e não acontecia em São Paulo. De repente, começou a chegar em São Paulo. E chega numa população suscetível, que não tinha tido ainda, não tinha anticorpos. E aí que veio em 2014 e 2015 com infestação maciça, a população praticamente virgem de infecção e começa a aparecer infecção, enquanto no Brasil que já tinha Aedes suficiente já tinha muita gente que já tinha tido a infecção. Então em São Paulo, [a dengue] veio para acabar. Arrasou. Nós tivemos 50% dos casos e mais de 50% dos óbitos [registrados no país]". 

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O especialista alega que por algum motivo não se tem casos de chikungunya em São Paulo. "Do jeito que está disseminado o Aedes, ela já deveria estar disseminada no Brasil. Eu não sei se existe uma competição do Aedes pelos vírus que transmite. Apesar que na Bahia tivemos os três nesse ano passado: chikungunya, zika e dengue. Sendo que zika foi o primeiro, dengue, o segundo, e chikungunya, o terceiro em número de casos", explica.

Ele acredita que ainda nesse verão os casos de dengue e zika podem aumentar. "Eu entendo que nós podemos ter uma grande epidemia de dengue e zika, podemos ter. Se nós não tivermos sucesso nesse projeto de ação conjunta de diminuição do Aedes, é possível que nós tenhamos.”

Eliminação do Aedes Aegypt

Boulo lembrou  da campanha de eliminação do mosquito, também causador da febre amarela, há uns 110 anos, como exemplo de motivação política no combate à doença. "Tem que ter vontade política. Quando [o mosquito] foi eliminado, há uns 110 anos, quando começou essa campanha pela eliminação [do mosquito] por causa da febre amarela, com Osvaldo Cruz e Emílio Ribas, existia não só uma motivação política, como uma necessidade econômica".  De acordo com o infectologista, naquela época, quem mandava no país eram os cafeicultores. Com a epidemia, ninguém mais queria ir nos portos de Santos e do Rio de Janeiro comprar o café por causa da febre amarela que matava as pessoas, então, houve uma necessidade econômica. Naquela época foram queimados cafezais no país inteiro por uma necessidade econômica de se eliminar o Aedes. "E mais do que isso: Rodrigues Alves, então presidente da República, perdeu uma filha por causa da febre amarela. Então, nesse momento houve a necessidade não só econômica como uma vontade política do presidente", completa.

"Hoje, não existe interesse econômico, ou seja, a economia não é atingida por causa da presença do Aedes (…). É claro que você tem uma perda importante quando você tem recursos humanos que ficam doentes com muita frequência, aí você tem perda econômica.  (…) Agora se tem uma vontade política mais evidente por causa da história da microcefalia. De fato, nós ficamos sem saída".

O infectologista destacou que para combater o mosquito é necessário que estados, municípios, o governo federal e toda a sociedade trabalhem juntos. "Há uma necessidade, hoje, de aglutinação de forças, que não são só da área da saúde. Por isso que a presidenta esteve até também indignada e [disse que] vamos pôr o exército, vamos pôr a polícia militar, vamos pôr todos os voluntários. Eu acho que é necessário isso o que se faz agora. A gente voltar num momento de uma intervenção mais pontual para que a gente tenha uma diminuição muito grande e importante da infestação do Aedes aegypt, para que as pessoas possam viver normalmente. E se com essa diminuição, nós organizarmos o nosso sistema de saúde, pode ser que a gente não tenha mais uma elevação [de casos da doença] tão grande como tem acontecido.”

“[Em] Singapura, que é uma cidade-país-estado, né, que é uma ilha, riquíssimo, um nível social enorme, eles não conseguem eliminar o Aedes. E isso é uma dificuldade grande que mostra que não é só recurso. Então, você precisa ter uma vontade política enorme, uma intensidade, mas precisa estar em cima, persistindo, porque o mosquitinho assim se esconde no mato e é difícil.”

Assista a entrevista na íntegra:

 

* Atualização em 05/02/2016 para inserção de links de matérias relacionadas ao zika vírus.

Creative Commons - CC BY 3.0
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