Digite sua busca e aperte enter


Proposta que legaliza jogos de azar tramita em caráter terminativo na Comissão Especial de Desenvolvimento Nacional

Imagem: Divulgação/Senado Notícias

Compartilhar:

"No Brasil, se você for um jogador compulsivo, estará em dificuldades", alerta psiquiatra

Criado em 16/08/16 16h11 e atualizado em 17/08/16 12h03
Por Leandro Melito / Portal EBC Edição:Noelle Oliveira

Em meio à discussão no Congresso Nacional sobre a aprovação de uma legislação que legalize os jogos de azar no país, a doença conhecida como ludopatia, ou jogo compulsivo, é uma das maiores preocupações de quem lida com o tema. Hermano Tavares, psiquiatra e professor do departamento de psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), lembra que  o número de jogadores que buscavam tratamento era três vezes maior na época que os bingos eram legalizados. "Ainda que não seja uma estatística consolidada e publicada, sentimos na  pele que quando o jogo está liberado e com acesso irrestrito, a demanda por tratamento praticamente triplica", aponta o especialista.

Tavares desenvolve um programa de atendimento e pesquisa voltado a esse público desde 1997 quando criou o Ambulatório do Jogo Patológico (Amjo), posteriormente renomeado para Pro-Amjo (Programa Ambulatorial do Jogo), que funciona no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em São Paulo. Quando os bingos operavam livremente, o local recebia em torno de 240 solicitações de atendimento de novos casos por ano. 

Em 2016 foi lançado, por meio de uma parceria entre o Pro-Amjo e a Caixa Econômica Federal (CEF), um programa de suporte à distância para o jogador com dificuldade, com material explicativo e interativo sobre a doença. Ainda em fase inicial, o programa servirá para uma pesquisa sobre a eficácia desse tipo de atendimento online. "Eu imagino que no futuro isso vai ser cada vez mais importante, porque vivemos num país de dimensões continentais e mesmo que a gente treine pra começar outros centros para dar apoio, acho que nunca será possível uma cobertura completa da nossa população. Então, a possibilidade de você apoiar pessoas à distância, eventualmente poder identificar um problema, e conseguir encaminhá-las pra um lugar onde elas recebam atenção direta, é muito importante", considera Tavares. 

Confira a entrevista completa com Hermano Tavares, psiquiatra e professor do departamento de psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP)

PORTAL - Como você começou a trabalhar com o atendimento de jogadores compulsivos?

HT - Eu trabalhava com álcool e drogas desde o tempo da graduação na faculdade de Medicina e, naquela época, um ou outro paciente poderia apresentar uma dificuldade com jogo, mas isso era um evento raro. O cenário mudou muito nos anos 90, com a legalização dos bingos. Inicialmente a ideia era que os Bingos iam ajudar a arrecadar dinheiro, financiamento para o esporte amador. Isso, na minha opinião, nunca aconteceu de fato. As associações de esportes amadores foram usadas, emprestaram o nome, e bingo virou uma grande jogatina, negociação, comércio puro. 

PORTAL - Quando você percebeu a necessidade de criar um atendimento para esse público?

HT - Com a passagem do videobingo para o caça-níquel eletrônico, a coisa estourou e começou a haver uma demanda muito importante de pacientes. Em 96, eu atendi os primeiros pacientes. Confesso que tive dificuldade de reconhecer que era esse o problema. Depois, exatamente por reconhecer uma dificuldadee perceber a demanda crescente, achei que seria interessante iniciar um estudo, então eu me matriculei num programa de pós-graduação do departamento de psiquiatria da USP e abri junto com os colegas o Pro- Amjo ou Amjo na época, o Ambulatório do Jogo.  

PORTAL - Qual foi o momento de maior demanda de pacientes?

HT - Teve um período, entre 2001 até 2003, quando a legislação era temporária e deveria seguir uma normatização que iria regulamentar definitivamente a questão. A legislação caducou e os bingos só poderiam continuar com liminares, a partir das quais eles não tinham mais nenhuma restrição de operação. Trabalhavam 24 horas por dia, sete dias por semana. A coisa foi crescendo e a demanda era cada vez maior, basicamente porque os bingos operavam freneticamente. Ai começaram as várias acusações de deficiências da regulação e mesmo de fraude que culminaram em 2004 com uma indignação popular e a proibição definitiva dos bingos. Quando houve essa superexposição, observamos também no nosso ambulatório a maior demanda de toda nossa existência como serviço pra tratamento.

PORTAL - Com a legislação atual como está a procura de jogadores compulsivos por atendimento?

HT - Em 2004, quandos os bingos foram proibidos, os pacientes não desapareceram, mas a demanda diminuiu bastante. Teve um momento que os bingos voltaram, a demanda aumentou de novo, depois foram definitivamente proibidos e a demanda se estabilizou. Quando os bingos operavam livremente, tínhamos algo em torno de 240 solicitações de atendimento de casos novos por ano. Conseguíamos atender 120  casos novos por ano, e os outros 120 infelizmente tinham que aguardar uma oportunidade de tratamento. 

Isso me deixava sempre muito preocupado, essa é uma população com alto risco, risco de suicídio, risco de abuso de substância e acidentes. Eles estavam aguardando o momento de poder se tratar. Com todas as idas e vindas na legislação, hoje a demanda está mais ou menos estabilizada em torno de uns 80 casos. Embora não seja uma estatística consolidada e publicada, sentimos na própria pele que quando o jogo ocorre com acesso irrestrito, a demanda pro tratamento praticamente triplica. 

Já quando os jogos operam de forma clandestina, a demanda cai pra um terço.  Essa tem sido a nossa experiência nesses quase 20 anos de trabalho. 

PORTAL - O jogo compulsivo pode ser comparado com outros tipos de vício?

HT - Jogo hoje em dia é considerado uma dependência. Uma dependência não química, uma dependência comportamental, mas que tem todas as características de uma dependência. A pessoa que tem essa dificuldade vai jogar, começa a escalar as apostas e o risco da aposta. Jogar baixinho, como ela jogava antes, não dá mais a mesma emoção.

É como o nível de álcool e drogas que você precisa ir aumentando a dose pra ter o mesmo resultado que você tinha no começo. Se essa pessoa por qualquer razão é privada de jogar, ela passa mal, fica inquieta, desatenta, triste, angustiada. Ela sabe que quando ela tiver a oportunidade de fazer uma aposta ela vai melhorar dessa situação e, na primeira oportunidade, ela vai fazer isso pra tentar desfazer o que a gente pode chamar de uma abstinência emocional das apostas. 

Existe também a perda de controle que vai gerar muitas dificuldades pessoais nos relacionamentos, relações pessoais e profissionais, fora o alto endividamento econômico. Apesar de tudo isso, a pessoa persiste na atividad. Ou seja, se eu falasse álcool ou jogo, se substituisse a palavra, você não ia perceber a diferença entre um comportamento e outro. 

PORTAL - Pessoas que são consideradas dependentes do jogo costumam ter outros vícios?

HT - Pessoas em tratamento para dificuldades com álcool e drogas apresentam em até 20% das vezes dificuldades com jogo. Entre os jogadores, algo em torno de 25% dos homens que jogam tem dificuldades com álcool. Já 70% dos jogadores em geral, homens e mulheres que estão em tratamento, são fumantes, o que é outra dependência química que é a da nicotina.

Esses quadros andam de mãos dadas. Inclusive tem fatores genéticos compartilhados e isso é observado nas famílias, é muito comum o pai ser alcoólatra, a filha ser jogadora, ou a mãe ser jogadora e os filhos terem dificuldades com drogas. Isso tem uma agregação familiar e um compartilhamento de fatores  genéticos e ambientais bastante evidente. 

PORTAL - O ambiente das casas de Bingo contribuem para esse quadro?

HT - Não só o próprio jogo tem instrumentos arquitetados de uma certa forma para prender a atenção do jogador, como também todo ambiente é construído pra causar um alheamento do ambiente externo e um foco preferencial na atividade do jogo, na aposta. Mesmo em outras formas de jogo, como cartas, as pessoas sentam pra jogar e a mesa tem um foco de luz que é na carta, o ambiente restante fica escurecido, quer dizer tudo é configurado e organizado pra que o foco seja na atividade da aposta e nenhum tipo de estímulo alheio a essa atividade possa intervir ou interromper ou fazer pausas nessa atividade. 

Uma das coisas que andou diminuindo um pouco a atividade de jogo ao redor do mundo foi a exigência de que os cassinos também se tornassem ambientes livres do tabaco, ou seja, quem quisesse fumar teria que sair pra fumar fora e ai voltar pra jogar. Notou-se uma diminuição do volume de apostas depois que os cassinos e as casas de aposta foram forçados a observar essa regra. 

PORTAL - Um dos argumentos de quem defende a regularização do jogo é que isso facilitaria um maior controle por meio de estatísticas sobre o número de pessoas que têm problema com essa prática a fim de desenvolver um projeto para atender a esse grupo? O que acha? 

HT - O lado bom é que finalmente quando se discute a legalização do jogo no país não se faz mais a discussão pautada exclusivamente na questão financeira de arrecadação e de estímulo à atividade econômica. 

Acho interessante quando se fala assim. Mas é importante dizer qual porcentagem da arrecadação será guardada para investir em campanha de orientação para familiares e pessoas em risco; para campanhas de prevenção, de rastreio e detecção de pessoas com dificuldades que estejam indo a esses lugares e estejam começando a ter dívidas e prejuízos; além treinamento do profissional de saúde, sobretudo da rede pública, para que saiba identificar e acolher essas pessoas com dificuldade e tratá-las.

Não vai ser barato montar uma estrutura dessas, mas ela vai ser imprescindível quando se pretende avançar nessa discussão da legislação. O único argumento que eu acho pouco aceitável é dizer que, assim, teremos estatística. Desculpa, mas estatística a gente já tem.

 

PORTAL - O tratamento desenvolvido no Pro-Amjo ele é parecido com o tratamento da dependência química?

HT- Apoiamos os jogadores anônimos, achamos uma iniciativa muito interessante e todos os nossos pacientes são estimulados a complementar o tratamento junto com os doze passos. Já o nosso modelo de tratamento é complementar, porque não faz sentido a gente fazer o que os outros já estão fazendo. Por isso oferecemos um modelo de abordagem médica e psicológica.

O paciente na entrada do tratamento faz uma avaliação do seu perfil psicológico e do seu perfil clínico geral, do seu perfil psiquiátrico. Em cima dessa análise estabelecemos as necessidades do paciente. Esse paciente as vezes tem uma saúde um pouco precária por conta de vários maus hábitos desenvolvidos ao longo do envolvimento com jogo, então vamos tratar concomitantemente pontos como o tabagismo, o sedentarismo, a hipertensão e os triglicerídios. Não adianta nada você tratar o paciente do ponto de vista da sua saúde emocional e depois de alguns anos ele ter um acidente cardiovascular e morrer. 

Também cuidamos da parte psiquiátrica, 70 a 75% desses pacientes apresentam dificuldades psiquiátricas associadas como depressão, transtornos ansiosos, fobias, pânicos, ansiedades generalizadas e o  abuso de substâncias, questões que se negligenciadas diminuem a eficiência do tratamento.

PORTAL - E como são tratadas as questões específicas da compulsão pelo jogo?

HT - A nossa diretriz é a abstinência das apostas, porém isso não é um requisito indispensável. Se o paciente ainda não tá preparado para isso, continuamos  apoiando e e tentando promover pelo menos a redução da frequência de apostas. 

Encerrada essa primeira fase do tratamento - que pode durar de seis a doze meses - entramos em um período de manutenção, onde se investe na mudança de estilo de vida e na qualidade. Quanto mais oportunidades de realização pessoal, de lazer, de envolvimento positivo com a vida, menor será o risco de recorrência no comportamento do abuso de apostas.    

PORTAL - Quais os outros programas que vocês desenvolvem nessa área?

HT- São dois programas. Um em que pesquisamos  uma medicação que diminua a vontade de jogar, e um outro associado à como a atividade física ajuda a pessoa a ter mais alto controle.

PORTAL - Como avalia a rede de tratamentos no Brasil?

HT- Não são muitos os lugares em que o tratamento está disponível. Se você for um jogador compulsivo, você está em dificuldades. Se você for jogador compulsivo em Belo Horizonte, eu não saberia para onde te encaminhar, além de jogadores anônimos. Os jogadores anônimos têm a melhor cobertura, ainda que insuficiente. Está nas principais capitais do país (jogadoresanonimos.org.br).

Nós montamos um site com um programa de suporte à distância para o jogador com dificuldade. Trata-se de um programa interativo, com material, perguntas e respostas. Estamos colhendo as primeiras impressões dos usuários e, em breve, vamos fazer um tipo de pesquisa específica pra verificar a eficácia desse suporte à distância. Quem tiver interesse, pode acessar o trabalho na página da associação ou pode ir direto no site do programa

Creative Commons - CC BY 3.0

Dê sua opinião sobre a qualidade do conteúdo que você acessou.

Para registrar sua opinião, copie o link ou o título do conteúdo e clique na barra de manifestação.

Você será direcionado para o "Fale com a Ouvidoria" da EBC e poderá nos ajudar a melhorar nossos serviços, sugerindo, denunciando, reclamando, solicitando e, também, elogiando.

Denúncia Reclamação Elogio Sugestão Solicitação Simplifique

Deixe seu comentário