A qualidade do jornalismo da radiodifusão pública é debatido no Seminário Internacional de Mídias Públicas
A qualidade do jornalismo praticado pelas emissoras públicas de televisão e o conteúdo dos programas foram objeto de debate desta nesta sexta-feira (01) no Seminário Internacional de Mídias Públicas, que reúne jornalistas, educadores e especialistas em comunicação pública do Brasil e do exterior. O jornalista Franklin Martins , ex-ministro da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, que está no exterior, gravou um depoimento para o evento, realizado na sede da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), em Brasília.
“O bom jornalismo, tanto da empresa de comunicação privada quanto da pública, tem que ser independente”, afirmou, acrescentando que o bom jornalismo “só pode depender dos fatos e que os profissionais precisam ter a notícia como foco”.
O jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva , presidente da Projor, afirmou que existem três possibilidades de aferir a realidade de forma objetiva sobre o trabalho de uma boa mídia pública. Através de indicadores de qualidade; repercussão do que é produzido e a satisfação da audiência. “A repercussão é uma boa maneira de saber se a mídia pública está fazendo bom jornalismo ou não”, disse. “Mas o que realmente pode comprovar se a comunicação pública é ou não de boa qualidade é a satisfação da audiência”, emendou. Ele sugeriu que a EBC faça pesquisas de satisfação com vistas a produzir, cada vez mais, conteúdos de boa qualidade.
“A audiência é o coração de tudo o que estamos fazendo”, analisou, mais tarde, o jornalista Soren Johannsen , da BBC World Trust, para quem é preciso aferir a audiência, que tem uma ligação com a diversidade que, por sua vez, se liga ao público. “O serviço da comunicação pública não é para a elite que já tem seu canal de voz”, constatou o jornalista, que atualmente desenvolve projetos da BBC em Angola, Serra Leoa e Tanzânia, países africanos.
Os especialistas em comunicação pública vindos do exterior avaliam que, através do jornalismo, o sistema de radiodifusão público pode suprir o privado, fazendo documentários e um bom noticiário. Assim, atenderia um público que não tem voz na sociedade. Entendem ser preciso fazer pesquisas para identificar se os programas estão atendendo os interesses do telespectador e suprindo suas necessidades. Pesquisa feita na Inglaterra mostrou que 87% dos entrevistados acham que a BBC cumpre seu papel informativo e, dessas, 57% disseram que vale a pena pagar pelo serviço.
Ao ser questionada sobre a relação entre jornalistas e fontes, a representante do Global Fórum for Media Development, Bettina Peters , contestou a proximidade e a produção de matérias a partir do financiamento da fonte. “O jornalista não deve aceitar de modo algum”, completou, lembrando também que, em algumas partes do mundo, isso é comum. “Alguns aceitam, mas não é bom”, disse.
Bettina Peters destacou que jornalismo privado não significa, porém, independência. “As empresas privadas não independem do Estado”, resumiu. Segundo ela, é preciso seguir á risca os padrões gerais do bom jornalismo. “Não interessa quem financia o veículo, o bom jornalismo é bom e ponto. Se queremos acertar no jornalismo, precisamos ter um financiamento adequado e independente, disse. Bettina informou ainda que, em maio do próximo ano, será realizado em Brasília uma reunião do Fórum Global para o Desenvolvimento da Mídia.
Já Sérgio Fernandez Novoa , da Télam e Ulan, uma das questões culturais a serem vencidas no meio público é entende-lo como público e da sociedade, e não como partidos políticos. “E isso não se limita ao financiamento. É preciso construir uma agenda diferente e não uma agenda de tematização. É preciso trabalhar sem se resignar à marginalidade. Isso é um grande desafio”, ressaltou. Para ele, o novo marco regulatório na Argentina vai possibilitar a maior pluralidade, mas admitiu que ainda falta muito para se chegar ao ideal de pluralidade. Ele se referiu ao “monopólio do grupo Clarin ” e defendeu uma maior integração das mídias públicas na América Latina.
Em outro painel sobre a qualidade e diversidade dos conteúdos, Lumko Mtimde , representante da Media Development anda Diversity Agency, da África do Sul, disse que a radiodifusão pública precisa ser a chave na educação e promover a produção independente para contribuir com a qualidade do conteúdo diante do advento das mídias digital e social.
Morando na África, o jornalista Soren Johannsen disse que a BBC World Trust atua em dez países da África. Segundo ele, programas de rádio produzidos pela rede têm ajudado a população, oferecendo conselhos sobre o uso da água, saúde e outras ações de assistência médica.