Sobre a EBC

Íntegra da Coletiva de Imprensa realizada nesta segunda-feira (31/10), por ocasião do encerramento do mandato da diretora-presidente da EBC, Tereza Cruvinel

01/11/2011
|
01:06
compartilhar notícia
Capa da Notícia

Hoje é meu último dia de trabalho, então eu achei que a gente podia conversar sobre coisas que não foram ditas, ou não foram esclarecidas. Tá alto demais, não tá? E a Érica propôs isso, que a gente convidasse vocês pra conversa. Agradeço vocês terem vindo. A primeira coisa é, na quinta-feira nós fizemos aqui uma audiência – na verdade, não era uma audiência pública. Ali foi um evento de iniciativa nossa, da Diretoria. Porque o regimento prevê que a EBC, todo semestre, faça uma audiência pública, pra prestar contas. Essa audiência estava marcada pro dia 14, mas o Conselho, e ela é chamada sempre pelo Conselho. O Conselho cancelou, sabe? Mas como eu não queria ficar privada da oportunidade de falar publicamente do que fizemos, nós mesmos fizemos o chamado, fizemos aquele evento – que contou com os dois presidentes do Congresso, parlamentares, corpo diplomático, jornalistas, jornalistas amigos que vieram só me dar um beijo. Cobrir, mesmo, acho que ninguém veio, porque não saiu uma linha em lugar nenhum. Eu acho que todo mundo veio por amizade, mas fiquei feliz que tenham vindo. Vieram muitas pessoas do audiovisual, das produtoras independentes, que são as pessoas que ajudam a fazer a TV pública, parceiros em geral da EBC – Acerp, ABPI... Então, assim, foi um evento que nos gratificou muito do ponto de vista do reconhecimento das pessoas do campo público, as associações, etc. Mas aquele não foi um evento que serviu a uma prestação de contas à imprensa. Ele foi muito emocional, teve muito discurso, muito chororô etc, etc. Então, assim, se vocês tiverem tempo, quem tá da técnica e da apuração? Arimatéia? Nós temos o vídeo aí? Se vocês tiverem tempo, aí a gente combina. Eu exibi, nós exibimos, naquele evento, um vídeo que é muito didático sobre o que foi feito na EBC nesses 4 anos. Tem gente que participou aqui? Roberto... trabalhou aqui no período, e que lembra disso. Se vocês tiverem tempo a gente exibe; se não, vocês vão leva-lo. O vídeo tem uns 15 minutos. Então, vamos rodar. Junto do vídeo vai uma publicação, que é uma publicação, também, com o mesmo teor do vídeo, ela mostra o que foi feito em várias áreas para dotar o Brasil de um sistema público, segundo as melhores democracias, continuaremos tendo o setor privado, setor estatal e setor público, de acordo com o artigo 223 da Constituição. Bom, esse era o primeiro ponto; e depois me coloco à disposição pra vocês questionarem o que tem no vídeo, o que tem na publicação, e tal. E, uma segunda parte, eu quero falar do processo, queria falar a vocês sobre o processo de mudança do comando da EBC, porque eu soltei nota semana passada, as meninas soltaram, sobre um processo absolutamente incorreto de cobertura – porque eu não fui ouvida por nenhuma matéria, a EBC não foi ouvida, e a gente queria ser ouvido. Essa é a segunda parte da nossa conversa. Então, eram essas duas coisas. Então vamos soltar o vídeo, e eu proponho que enquanto isso, Érica, a gente dê pra todos o vídeo e a publicação, que é chamada Balanço de Gestão. Ah, já tá, todo mundo tem. Então tá bom, vamos lá, rápido, então, pra não perder o tempo deles.

-Vídeo- Pode ser acessado pelo link http://www.ebc.com.br/evento4anos

Se vocês não quiserem perguntar sobre isso, passamos ao outro ponto.

Jornalista: Eu queria saber assim, pra manter esse conteúdo independente, como vocês dizem, primeiro: você acha que conseguiu manter esse conteúdo independente, a televisão?

Tereza Cruvinel: Vamos só esclarecer do que é que você ta falando: você ta falando a independência editorial dos canais da EBC, ou você ta falando de produtores independentes?

Jornalista: Não, não. Não. To falando do conteúdo, da programação.

TC: Você ta falando da independência editorial, em relação ao governo?

Jornalista: Isso, exatamente.

TC: Sim. Tenho dito, e repito, que, aqui teve problema de todo jeito – eu sempre enfrentei 50 problemas por dia, eu, os diretores e tal. O problema que eu não enfrentei foi o de ingerência do Governo.

Jornalista: Ah, era o que eu queria perguntar.

TC: Este problema, primeiro: o ministro Franklin ficou lá 4 anos, três, da criação da EBC, e ele era um fiador da independência da EBC. Então, ele próprio – a Secom, na sua pessoa – já era, digamos, um vigilante pra que isso não ocorresse em outras esferas do Governo. Depois foi pra lá a ministra Helena, que foi nossa diretora de Jornalismo, sempre brigou pela independência e que não ia, digamos, negar o que foi. Temos aqui atrás a diretora Nereide. Nereide, vem pra cá, porque aí você pode ajudar a responder. Põe uma cadeira pra Nereide aqui. A Nereide é muito mais indicada que eu, porque ela que é a diretora de Jornalismo, depois da Helena. Agora, é claro que a ingerência, geralmente, bate no presidente. Eu nunca recebi telefonema e eu nunca recebi bilhetinho, sabe, pedindo pra derrubar matéria, pra mudar matéria, pra não dar matéria, ou pra dar matéria. Eu nunca recebi. Mas assim, depois vocês podem falar com a Nereide, ou podem falar agora.

O seu trabalho, ela tá perguntando, foi possível trabalhar com independência? A sua gestão tem um ano.

Nereide (diretora de jornalismo da EBC) : É , eu também nunca recebi... nunca, nenhuma ligação do Franklin nem da Helena

TC: Não, mas o seu trabalho. Ela tá perguntando: Foi possível trabalhar com independência.?A sua gestão tem 1 ano...

Nereide : Sim

Jornalista: Agora, Tereza: o fato de você ser uma jornalista que não tinha ligação partidária, ajudou nisso, né? Você fez um trabalho supra-partidário lá no Congresso para aprovar a MP.  Trabalhou com todo mundo e tal. Você acha que isso foi fundamental? Quer dizer...tem que ter no comando uma pessoa com independência e com esse perfil? Não importam as ligações políticas, as pendências e tal...mas assim, sem vinculação partidária mais forte?

TC: É importante. 1 - Ter credibilidade, ter determinação de manter a independência dos canais públicos. Ter compreensão disso. E é preciso que o governo também entenda isso. Até aqui são dois governos comprometidos com a criação da comunicação pública. E ter um Conselho que vigie, que zele pela observância. O Conselho é importante neste papel, que está escrito na lei: zelar pela observância dos princípios. O Diretor jurídico , que sabe a lei mais ou menos de cor, (eu também sei um pouquinho)...mas eu citaria - vou ousar, vamos ver: Art. 2º , inciso 8º , um dos princípios:  independência em relação ao Governo . Como é que é ? Leia aí. Ou se não é 8, me corrige.

Marco Antônio Fioravante (diretor Jurídico da EBC): Autonomia em relação ao Governo Federal  para definir produção, programação e distribuição de conteúdo no Sistema Público de Radiodifusão.

TC : Pois é. Isso é um artigo de uma Lei. Então é esse o papel do Conselho Curador. Zelar pela observância dos chamados  princípios. Então está na lei, devemos todos zelar pela observância: a diretoria, o presidente, o diretor de jornalismo, todos. Governo e conselho e a sociedade, já que todos estão aqui querendo fazer em nome da sociedade. Eu acho que foi uma experiência vitoriosa neste sentido. Conseguimos. Eu lembro que tive uma conversa com o presidente Fernando Henrique  e ele falou assim : eu acredito muito em você.  Meu problema não com você. Meu problema é que no Brasil tudo desanda, tudo vira aparelho. E eu acho que não virou aparelho, não houve inobesrvância da lei. E nós conseguimos mostrar que é possível: ter o público, o privado e o estatal  separados. Agora tudo isso que a gente fez até aqui é muito complexo. Vocês viram. Isso é uma televisão que nasceu com 3 canais. Isso foi um imenso trabalho. O governo não deu nada de graça pra nós. Tudo fomos nós que fizemos. O governo nos deu 3 canais:  TVE Rio, TVE Ma e TV Nacional de Brasília.  A construção da EBC é uma construção nossa.

Jornalista: Isso que eu queria saber. Quer dizer, você em 04 anos implantou a EBC. Não é muito pouco tempo pra você ver os resuldados disso? Você não sai em um momento em que ainda não está colhendo o resultdado que poderia?

TC: A empresa é pública, não é minha. Se há um defeito do Brasil, da cultura  política brasileira que eu combato com muita vontade é o patrimonialismo. É a confusão do que é público com o  privado. Então assim: esse amor  - ai eu preciso colher os frutos -  você faz na tua empresa.

Jornalista: Eu não tô dizendo colher pessoalmente, é ver...ver , por exemplo.... eu acho que um dos problemas que vocês tem é levar esse...

TC: Ah sim , mas aí nós estamos entrando em outro assunto: claro que há muitas coisas que eu plantei que eu gostaria de vê-las mais amadurecidas. Isso é natural do ser humano. O presidente Sarney fez um discurso lindo aqui sobre sementes, sobre plantar. Também por isso eu precisei ver mais o interesse da instituição do que o meu. Por isso em algum momento eu concluí que para a instituição era melhor. E aí nós estamos entrando no segundo ponto. Então vamos esgotar. Quem quiser perguntar sobre gestão, orçamento....a publicação contém tudo. Insisto: a TV pública nunca custou 450 milhões, nem 350 milhões.... Essa empresa faz um mundo de coisas. o que sobra pra TV pública não é nem 1/3 disso aí. Essa informação errada que a imprensa sempre publica . Não é a TV pública , é o conjunto de atividades que a EBC faz. Todo gestor público acha que nós fomos excepcionalmente  competentes  de gastar todo o dinheiro do investimento, 97% de execução todo ano. Vocês sabem o que é execução orçamentária. É a capacidade de gastar, que no Brasil que é um horror.  Licitação anula licitação, recorre, não sei o que.. então a gente chega no final do ano e não conseguiu gastar. Nós conseguimos todos os anos gastar 97%. 98%. Fazendo o que? Comprando aquelas coisas que eram fundamentais. E para isso, é preciso , desculpem a palavra: ser competente.

Jornalista: A EBC Serviços gerou quanto de receita neste período?

TC: A EBC Serviços gera cerca de 30 milhões.

Jornalista: Ano?

TC: Ano.

Jornalista: Desde quando?

TC: São variáveis esses números. Eu não tenho aqui um orçamento. Mas ela gera entre 25 e 32 milhões cada ano.

Jornalista: E esse dinheiro está sendo investido onde?

TC: Não existe isso. Esse dinheiro não é um “a mais” . Quando a EBC Serviços gera  recursos eles vão para a conta do Tesouro. Isso não aumenta o orçamento. Apenas ele não vem do Tesouro mais. Então, qual é o futuro da EBC? Cada ano ela gerar mais e mais receitas próprias. As receitas próprias, um dia, vão transformar a EBC em uma empresa não dependente. Existem estatais de 2 naturezas: as dependentes do orçamento da União e as não dependentes. Essa é a diferença entre uma Petrobrás e uma EBC.

Jornalista: Mas, ele entra no Tesouro?

TC: Ele entra no Tesouro. É uma coisa assim: em vez de ser chamada fonte 100 (o pessoal da gestão pode me ajudar, se tiver algo de errado) Nós saímos da fonte 100. Isso é classificado como fonte 250, receita prórpria.

Jornalista: Mas o que eu queria saber é como está se dando esse processo de independência financeira da União com o uso dessas receitas?

TC: Hoje você não pode pegar este dinheiro e falar assim: esse foi eu que ganhei, vou fazer isso. Não pode fazer isso.  A lei não deixa .  Ele apenas vai para o Tesouro e ganha outro carimbo. Mas quando a empresa alcança um grau de independência que ela paga sua própria folha de pagamento, quando as receitas próprias... Isso é um assunto bastante técnico para gente falar aqui. Mas quando a empresa alcança um nível de receitas próprias que lhe dá bastante auto-suficiência, inclusive para pagar seu próprio pessoal , ela se torna não dependente. E quando ela é não dependente, não quer dizer que não entra mais nenhum centavo do dinheiro, entra. É uma classificação. Ela tem mais liberdade pra gastar, pra fazer seu orçamento, pra remanejar. Ela passa a um outro patamar. É uma Petrobrás, uma Itaipú ,são várias outras empresas que têm essa coisa. Agora, a independência da EBC, tem aqui o diretor júridico. A maior fonte de receitas dela não vai ser a EBC Serviços, quer dizer, eu acho, não sei. Acho que não . A EBC Serviços vai ser sempre isso: a unidade de negócios para buscar autonomia. Como tem a BBC Serviços,  Cultura Serviços, para ficar mais perto. Toda a empresa pública de comunicação tem lá sua unidade. A nossa questão é: a contribuição ao  fomento da TV Pública, artigo... fala aí , Fioravante. Temos aqui na lei um artigo que cria, 25, se não me engano. A Contribuição: que é aquela taxa a ser paga....aquela contribuição, não é uma taxa a ser paga pelas teles. Essa receita frutrou-se. Nós temos hoje temos mais de 700 milhões bloqueados na justiça porque as teles entraram com uma ADIN e ganharam uma liminar. O mérito ainda não foi julgado . Enquanto isso, nosso dinheiro fica lá parado. Mas no futuro, porque isso não foi um imposto novo. O Walter Pinheiro, que foi quem escreveu a emenda, cortou 5% no Fistel para transferir para esta contribuição; Ou seja, as empresas ganharam  porque elas perderam 5% no Fistel, deixaram de pagar 5% de Fistel , e pagaram , e deixaram de pagar a contribuição.

Fioravante: Se me permite esclarecer, Tereza. Na verdade a contribuição é paga por todas as empresas  de telecomunicações que exercem alguma atividade de telecomunicação , e que essa determinada atividade , por exemplo: a instalação de uma torre, a disponibilização de um sinal ,todas elas, passam por uma taxação. E essa contribuição, a lei previu um decorte do valor do Fistel de um percentual do Fistel para fins de financiamento da EBC. Hoje, há uma ADIN...

TC: Só um minuto , Fioravante. Da EBC e das TVS do campo público estatal.

Fioravante: Exatamente. A Rede Pública como um todo.

TC: Porque só 25%,  quer dizer 75% que é nosso, da EBC.

Fioravante: Extamente. Então, essas empresas de telecomunicação ajuizaram ações para depositar o valor do tributo em juízo, a legislação permite isso. E debater a legalidade e a constitucionalidade dele. Este tributo está sendo recolhido aos cofres públicos, contudo em juízo.

Jornalista: Só uma outra pergunta. Não tem nada a ver com isso. Brasil tem hoje ainda seus problemas: saúde, educação, saneamento.Gostaria que você avaliasse a abordagem jornalística destes temas: saúde, educação, os problemas fundiários do Brasil pelo jornalismo da EBC.

TC: Eu falo pela programação. Pois é, você tem que julgar pelo conjunto, a programação. O canal não é só o jornalismo. Ele é uma programação....

Jornalista: Inaudível.

TC: Não, não é não. Quando você tem por exemplo um programa chamado Canal Saúde e um chamado Ser saudável, você também está tratando sobre saúde na TV. Isso não é jornalismo exatamente no sentido de Hard News . Então, eu acho que todos esses temas têm grande clivagem na grade, com programas, e também nos telejornais e também na Agência Brasil e também nas Rádios. Eu acho que eles são muito bem abordados, há muitos prêmios. Acho que a Nereide pode me complementar. Acho que ganhamos muitos prêmios exatamente nestas áreas.

Nereide: No caso, por exemplo da Educação, foi feita uma pesquisa da Universidade de Juiz de Fora que acompanhou um ano de telejornal e foi o assunto mais discutido. E tem vários programas que a gente chama da faixa de reflexão: o C aminhos da Reportagem,  o Brasilianas e o 3 a 1, que esses 3 temas a que você se referiu estão sempre na pauta. São efetivamente assuntos que  interessam mesmo ,e que a gente concorda que interessam ao público e que são questões importantes, problemáticas no Brasil ainda e a gente trata muito deles nesses programas da faixa de reflexão.

TC: Na publicação, tem aqui em algum lugar, (eu acho que você foi um desses premiados) que a gente só tem prêmios jornalísticos. Temos prêmios também de televisão mas basciamente são prêmos jornalísticos. Eles passam muito por estes temas que você citou: saúde, habitação, direitos humanos, fundiário. A gente trata bem dos temas. A construção do jornalismo no canal público , ela é um longo processo também . As pessoas falam muito que muito é parecido o das mídias privadas. É um longo processo de construção . Acho que há uma virtude nisso, se ele é parecido. Mas é claro que ele tem que fazer algo diferente também. Acho que estamos no caminho correto.

Jornalista: Um das dificuldades de vocês ainda é a audiência baixa.

TC: Nós temos um capitulo aqui que se chama audiência e relevância, que são duas coisas diferentes. Isso é assim, em todos os lugares do mundo onde se tem canais públicos, se tem essa evolução, essa discussão sobre a diferença entre relevância e audiência. Em alguns países, as Tvs públicas foram as primeiras Tvs e elas ainda têm grandes audiências. Mas todas já perderam bastante. À exceção da BBC, a TV pública da Espanha até poucos dias, até pouco tempo, 3 há 4 anos era a líder de audiência. Hoje ela já não é. Entraram Tvs privadas, aumentando a competição. Antes de falar de nossa audiência . Em primeiro lugar, a relevância da TV pública não pode ser medida pela mesma fita métrica da TV comercial porque elas tem objetivos diferentes. A TV comercial tem que agradar ao público  para fazer audiência  para angariar publicidade e atender a seu negócio, que é um negócio comercial, legítimo; E não quer dizer que isso desqualifica a TV comercial . A Tv comercial pretou grandes serviços no Brasil, mas esse papel é outro. A relevância da Tv pública tem que ser medida por outros valores. Ela tem que buscar audiência sim, mas ela precisa ser medida não apenas por audiência. Se não a gente torra um pedaço do orçamento e contrata aquele popularesco comunicador de auditório e fazemos grandes picos de audiência e estará resolvido o problema? Teremos perdido a relevância porque esse programa não será relevante. Então são coisas distintas. Mede-se a relevância da TV pública pela sua contribuição à cidadania , pelo o que ela contribui à própria inovação da televisão, pelo  o que ela faz pela cultura, pela expressão da diversidade, ou seja, de todos aqueles, que por alguma razão não se expressam em outros canais. Então temos várias medidas de uma contribuição de uma TV pública. Em todas as sociedades, até no Brasil. Se não houvesse relevância alguma, todos os países da Europa tinham acabado com suas Tvs públicas, não é verdade?  Elas estão lá.

Bom, sobre audiência: a nossa audiência é pequena, é baixa sim,  mas ela não é muito mais baixa do que as 3 menores televisões. Nenhuma emissora vive divulgando seus índices. Mas todo mundo que tem acesso ao IBOPE sabe disso. Nós estamos ali no mesmo patamar que das 3 menores redes de televisão. E somos bastante competitivos em algumas faixas, como : o infantil, por exemplo. O filme nacional, que nós somos os maiores exibidores de filmes nacionais. A TV Brasil é a maior exibidora de filmes nacionais há 3 anos, segundo a ANCINE. Então, esta história da audiência, tem vários aspectos que é preciso entender disso. Esse negócio de traço, faz parte da desqualificação.  Isso é o jornalismo de desqualificação. Porque pra você falar que é traço você precisa dar números., você precisa mostrar um traço permanente. Segundo , o IBOPE só mede 3 canais da EBC. O IBOPE não mede a rede pública de televisão, aquela que foi mostrada. O IBOPE não mede a parabólica , que são aqueles 60 milhões. Não mede porque ele não tem tecnologia para a parabólica. Ele está até desenvolvendo. Nós fizemos medidas com o Datafolha, mas aí você tem que pagar uma pesquisa especial naquele momento para fazer. E foi muito bom o resultado do Datafolha. Nós divulgamos em 2009. Nossa audiência em parabólica é maior do que em TV aberta. A rede pública não é nossa. Aquelas emissoras são um acordo de rede. Então, a TV Brasil paga apenas para medir os seus próprios canais, que são as 3 geradorAs. Isso faz uma grande diferença, não é uma medida de rede. A TV Brasil não participa do PNT. Como é que se chama aquilo? Painel Nacional de Televisão, porque ela não tem canais em 17 praças. Então é preciso entender disso. Agora, semestre a semestre a TV Brasil acumula audiência, aumenta audiência. Não é verdade dizer: ah está perdendo, está caindo. Se já era traço, então como é que EStá caindo?

Jornalista: Isso é o que eu falo;  porque 4 anos, eu imagino, é um período muito curto para vocês construírem tudo isso. Como é que faz chegar isso? Eu acho que esse é um desafio também.

TC: O problema é aquele lá. Você pode fazer a melhor programação do mundo. Se não tiver a entrega ao telespectador.... Entao , esse vídeo fala muito. É preciso entender o que ele está falando. Olha, é no sistema digital que a TV pública , primeiro: terá cobertura nacional, chegará a todos. Segundo, chegará com a qualidade de sinal competitiva, porque pode estar um belo programa , mas se estiver chuviscando , a gente muda de canal. É natural. Ninguém vai falar assim: vou ficar escutando este conteúdo aqui , tá chuviscando mas vou ficar assistindo. Vou ficar só ouvindo. Então isso não existe em televisão. Nós temos problemas técnicos ainda ,sim. A rede ainda está em construção, sabe. A migração para a TV digital está em curso. Eu costumo brincar com o seguinte: a TV Brasil foi criada para colocar um pé do lado de cá do mata-burro e ter o direito de atravessar para o lado de lá. Se ela não existisse no  analógico, ela não estaria atravessando para o digital porque irão para o digital as televisões já existentes, certo? Por isso ela foi criada antes, mas existe no meio do caminho um mata-burro: migração para o digital.

Estamos trabalhando nisso, vocês viram quantos canais digitais a gente criou?

Repórter: Quais são os próximos desafios e se você conseguiu fazer tudo que foi planejado nestes quatros anos ou ainda a próxima gestão tem muita coisa para fazer neste caminho de crescimento da TV.

TC: Tem muito, sobretudo tem isso que eu falei. A TV Pública tem que tornar-se uma Rede Digital Pública, plena. Isso porque em 2016 segundo o Decreto 5820 o Brasil desligará o analógico. Então até lá todo mundo tem que ter Rede Digital. Por isso que a gente trabalha na Rede Digital e na analógica ao mesmo tempo. Esse é um desafio. A programação é permanente. O desafio da programação é permanente. A expansão da TV Brasil Internacional, chegar a 100 países, nos próximos meses, que a gente chegou a 69, então tem que continuar expandindo. Tem países aí que ainda cobram ela, onde tem muito imigrantes e que a gente ainda não conseguiu chegar por vários motivos, emigrados brasileiros, desculpe a palavra, mas temos vários desafios para a frente sim, longe de estar pronto. Nunca tivemos a pretensão de dizer que está pronto. Falta muito por fazer. Agora a gente fez muito. Acho que nós fizemos bastante além do possível. Porque tinha coisa aqui que gente achava impossível.

Repórter: Por exemplo?

TC: A TV Brasil ser existente. Existir hoje como uma emissora nacional. A TV Brasil estar 24 horas no ar. Nós herdamos televisões que ficavam só um pouquinho, um pouquinho não, mas não tinham emissão plena. Esta Sede aqui que vocês não conhecem, mas ela é o melhor centro de mídias de audiovisual em Brasília. Ninguém tem cinco estúdios em Brasília. Ninguém tem oito estúdios de rádio. Os equipamentos que tem aqui, isso eu não estou falando na “chutometria” não.  Há pouco tempo estiveram aqui os nossos companheiros do setor privado,  da Abert. A EBC é uma empresa da radiodifusão, ela é membro da Abert. Ela integra a Abert. Os dirigentes da Abert há pouco tempo e ficaram muito impressionados com o que eles viram. Agora, dá resultado? Ainda não. Porque não adiante só você ter equipamentos. Você tem que ter uma série de providências articuladas para que isso produza ainda os efeitos. Você está aí com toda cadeia de produção digitalizada, mas está faltando um equipamento e nós estamos licitando, né Arimatéria? Nós estamos licitando um equipamento chamado exibidor em HD. Fala dele no vídeo. Vai chegar esse ano, né? Torço para que chegue nesse ano. Quando colocar lá no finalzinho, lá na ponta do processo o exibidor em HD, mas vai fazer uma grande diferença. Você perguntava: não tem coisas que você queria ver? Olha eu lutei tanto pelos exibidores HD. Não vou vê-los chegar, mas faz parte da vida, né?

Repórter: inaudível

TC: Aqui quem tem mandato e precisa sair sou apenas eu. Eu não posso assinar mais nem um ato a partir de amanhã. Sou eu que saio e os outros diretores, a nova diretoria, o novo presidente é que vai fazer esse encaminhamento. Não me compete falar sobre o futuro.

Repórter: inaudível

TC: É o ponto dois. Deixa eu me orientar aqui. Eu disse há pouco, quando alguém me perguntou que há momentos em que a instituição como público eu não confundo com o privado, eu acho que seu eu pudesse ser empresária, eu poderia ter sido algum dia na vida. Eu não vim aqui para ser empresária. Eu vim aqui para prestar um serviço ao meu país. Há momentos em que você tem que pensar mais na instituição. Eu tinha muitas razões pessoais e dezenas de pessoas na cidade e no jornalismo sabem disso, amigos, que eu não ficaria por oito anos. Eu tinha dezenas de razões pessoais. Todo mundo sabe o tanto que fumo e que tive que parar de fumar porque eu estava a beira de um infarto. Eu tive problemas de saúde. Eu tive um veto do meu filho e dos meus irmãos a qualquer permanência e eu tenho um chamado do jornalismo que é a profissão da minha vida. Eu vou voltar a fazer jornalismo, nem que seja só no meu blog. Aliás até já comecei. Esse fim de semana comecei a escrever. Como exercício da minha profissão. Além disso, eu conto até um caso ao vivo aqui. Em junho eu fui ao casamento da filha do senador Heráclito Fortes e a jornalista, grande repórter, Kátia Seabra, ouviu quando eu disse a muitos senadores, inclusive ao ex-governador José Serra, que eu sairia em Outubro.  Eu peço desculpas a Kátia, porque ela quis fazer essa matéria. Eu disse não, não é bem isso. Eu ainda vou ter que conversar com a Presidência, porque eu não tinha estado com a Presidenta. Isso foi em junho. Eu acho que seria uma descortesia enorme eu falar que vou sair sem falar com ninguém. Ela tinha me ouvido em confidência. E eu disse, eu outubro acaba. Eu peço desculpas a Kátia, porque eu tirei uma matéria dela. Mas eu não poderia fazer aquela descortesia também de anunciar a minha saída por uma festa. Vocês entendem isso. Pois então.  Mas afora as razões pessoais ou coisas de natureza institucional. Como eu disse ali quando alguém perguntou: não queria colher os resultados? Não gostaria? Gostaria. Mas você tem que pensar na instituição. Das matérias que foram publicadas sobre a minha saída. Há muitas coisas incorretas, mas há uma coisa corretíssima. É verdade que o Conselho Curador não desejava a minha recondução. Isto  foi explicitado em mais de um momento. Por exemplo, quando começaram a surgir notícias na imprensa. Ou quando a presidenta Ima e a conselheira Ana Fleck , vice- presidente, levaram à ministra Helena o nome de um membros do conselho para ser presidente. Claro que não desejam a minha recondução, senão estavam defendendo a minha recondução.  Não sou estúpida. Isso foi noticiado em muitos outros lugares, mas foi noticiado aqui pela coluna Poder Online que o conselho levou nome – começa a ler a notícia : “ Conselho Curador indicou o nome de Murilo César Ramos  da UnB para substituir a jornalista Tereza Cruvinel em outubro na presidência da EBC. A indicação foi feita a ministra Helena  etc.. para impedir a nomeação de Nelson Breve”. A gente pode dar isso para eles. É só para recordar. Depois saíram notícias de que se a Dilma me reconduzisse eu ia sofrer impeachment. Olha só, temos aqui “se Dilma Rousseff aquiescer, pode provocar uma demissão em massa de conselheiros ou certamente a jornalista ganhará dois votos de desconfiança para a abertura de um processo de impeachment, pois pela lei o Conselho não elege, mas pode demitir. Não é bem assim. A lei fala o seguinte: que um diretor pode ser a Nereide, pode ser eu, qualquer um de nós, pode sofrer o voto de desconfiança do Conselho, e que quando recebe dois votos perde o cargo.   Isso que eles estão chamando de impeachment.

Fioravante: E esse voto de desconfiança, ele deve dizer respeito ao cumprimento dos princípios e objetivos de lei, então somente que são delimitadas no artigo 2º e 3º.

TC: Aquele lá que fala da independência do governo e fala de várias outras coisas, então é o seguinte: descumpriu o princípio pode sofrer, então não é assim, só porque não gosta da cara entende? Tem que ter um processo. Então vocês vejam, tem outras matérias que falam do impeachment que é esta história das duas moções de desconfiança. Vocês que me conhecem, todos nos conhecemos um pouquinho, acham que eu sou tão estúpida que eu ia querer ficar em um cargo sofrendo este tipo de ameaça?

Repórter: Eu queria saber quais os problemas que você tem com o Conselho.

TC: Pois é, o que não se perguntou é mas por quê? O Beluzzo foi o primeiro presidente da EBC. Nós convidamos ele para o evento de quinta-feira, eu só estou colocando isso aqui para dar um exemplo, o Beluzzo mandou esta carta, que é linda, eu achei linda, que ele diz que eu e meus diretores, nós merecemos a frase do Churcill, “Nunca tantos deveram tantos a tão pouco”, é um exagero naturalmente, mas assim ele fala que viu nosso trabalho, ou seja, não tivemos problemas nenhum com a gestão, do Beluzzo. Quando começaram a surgir estas matérias estava em curso um problema com o Conselho. Não é só um mais o principal. Então, eu tive um encontro com a presidenta Dilma no dia 25 de Agosto. O meu motorista Pereira ficou muito feliz porque viu a Dilma, falou com ela lá na garagem do Palácio. Foi quando eu fui ter a primeira conversa sobre isso. Olha, o problema religiosos realmente está grave e é absolutamente impraticável a recondução, porque eu também não vim aqui para ser desqualificada, trabalhar muito, ganhar pouco, tudo isso sim, mas sair sofrendo este tipo de coisa. Então, a partir daí foi colocado o problema para a Presidente de que a recondução era complicada. O problema dos programas religiosos eu falarei rapidamente, porque eu também não vim cobrir esta pauta que vocês não falaram durante seis meses, eu não vou fazer ela toda hoje né? Mas estamos falando de sucessão na EBC. Então, eu tive um encontro com a Presidenta Dilma, dia 25 de agosto, no qual eu entreguei este documento. Desculpa, eu não vou vasá-lo porque eu acho desrespeito, mas ele aponta um balanço da EBC, este documento está com a Presidente e com a Ministra Helena, ele aponta um balanço da EBC, o que a gente fez, não tão bonitinho assim, e depois ele fala o seguinte: questões relevantes para o futuro da EBC, algumas mudanças e ajustes terão que ser feitos pela próxima diretoria para enfrentar problemas do futuro, já falando da próxima diretoria. Eu sugiro para a próxima diretoria vários pontos, quatro, cinco, seis. Seis questões importantes. Uma delas, por exemplo, é a questão do dinheiro, que a gente já falou. E uma delas a do Conselho Curador. Sugiro que se enfrente o problema. Que é o problema das competências e da forma de compô-lo. Mas esse documento eu não vou dar não.

Repórter: Você pode falar desses itens?

TC: Eu falo. Não tem nem um que é segredo. Um, a composição e as competências do Conselho Curador. Eu disse isso de público no Senado. A questão Acerp , que é uma questão importante, que está sendo resolvida. Vocês sabem, a instituição gestora da antiga TVE do Rio de Janeiro e a gente precisa agora renovar o contrato de gestão. Porque pela lei estourou o prazo e ainda não é possível, o Roberto sabe bem o que é isso. A EBC não tem quadro no  Rio de Janeiro e nem  com concurso nós não vamos ter quadro suficientes no Rio de Janeiro. Ainda vamos precisar da ajuda da Acerp, que é esta instituição parceira. Eu falo de ajustes na estrutura organizacional da EBC, como por exemplo, mais diretorias e por veículos, porque hoje não é assim. Nosso número de diretorias é pequeno para o tamanho da empresa. Eu falo na questão do diretor-geral ser nomeado pelo presidente da República, que eu acho que ele tem que ser nomeado pelo presidente da EBC. Fica assim, uma questão complicada e eu falo do Operador Único da Rede Digital Pública, que é essa plataforma pela qual vão transmitir em digital: TV Pública, TV Senado, TV Justiça, TV Legislativa. Tudo que é do campo do campo público. Campo público aqui no sentido de que é não comercial. E até o comercial se quiser, porque lá na Europa mistura tudo. Público, privado, transmite tudo pelo Operador único. Então, são esses pontos. Nada é segredo. Então, vamos voltar.

Repórter: Eu tenho cinco. Falta um.

TC: Eu falei seis. Operador de Rede. Ah sim! São mudanças na Lei 11652 para melhorar a gestão. Falavam tanto da lei, que nós não iríamos precisar fazer licitação. Mentira. Nós vivemos debaixo do tacão da lei 8666. Vocês lembram que o ACM Neto falava “essa empresa vai poder comprar sem licitar”. Nós ficamos só com o ônus daquelas acusações. Não é verdade isso. Ter regimento simplificado de compras. São pontos da Lei da EBC que não estão bons, que prejudicam a nossa gestão. Nós não podemos contratar temporários. Todo mundo pode. Nos contratamos aqueles. O Maltchik foi temporário na EBC. Quando o Maltchik foi embora, foi na minha gestão interina na no jornalismo. A vaga dele foi fechada. Então eram mudanças na lei da EBC para tornar a gestão mais flexível. Bom, então assim, eu não vou falar muito sobre Conselho, eu estou saindo. Agora em defesa da minha reputação profissional eu preciso de dizer porque o Conselho não quer, deu tantos sinais de que não queria minha recondução. Eu não sou burra. Por que eu que vou querer isso? Os caras estão falando que se eu ficar vão fazer uma coisa pra me tirar. Então todo mundo no autocomando da EBC sabe disso, que eu vou sair. Depois eu voltei à Presidenta, eu e a Ministra Helena no dia oito de agosto. E no dia seguinte, dia nove, olha só, como vazou que eu fui ao Alvorada saiu a seguinte nota: Dectaram movimentações, os Conselheiros, o Conselho Curador detectou movimentações políticas da presidente da EBC, Tereza Cruvinel, para ser reconduzida ao cargo, por quê? Porque eu tinha ida à Dilma no dia anterior e isso aqui saiu no dia nove. Se Dilma aquiecer ela vai sofrer um impeachment. Isso foi uma reação ao encontro. Neste encontro do dia nove foi quando se estabeleceu o ritual: olha, não pode avisar, não pode se falar antes, porque a empresa é muito complexa, então vamos deixar este anúncio para bem vésperas do mandato. Porque se eu falar, gente daqui há dois meses eu vou embora, o que vai acontecer aqui Carlinhos? Entende? Empresa é assim. Se ela não tem chefe não é só o café que fica frio para o chefe, tem prejuízo para a gestão. Eu confesso para vocês que me deram cafezinho bom até o final. Então é isso, sabe. Agora, por quê? Porque o seguinte, da mesma forma que eu não aceitaria e não foi preciso reagir, não aceitaria ingerência governamental na questão editorial, eu não posso aceitar a expropriação das competências e das obrigações da diretoria executiva por nenhuma razão, seja ideológica ou de qualquer natureza, ou seja, eu não posso aceitar que o Conselho substitua a diretoria, eu não posso aceitar ser humilhada, eu não posso aceitar que o Conselho nos substitua. Entende? Porque eu zelo pela lei. A lei diz que ele deve observar, ele deve observar não, desculpa. Ele deve zelar pela observância, ou seja, mas não gerir. É apenas isso. Por exemplo, eu não gostaria de generalizar porque não é o Conselho como um todo. Este Conselho pós Beluzzo ele mudou muito sua composição. Não é o Conselho como um todo, acho que é assim um agrupamento, há uma maioria talvez, o Conselho, eu cometi um erro administrativo em algum momento o Conselho queria um assessor, pra alguém para ajudar ali nas coisas, nas providências do dia a dia, fazer ata, não sei o que, e o Conselho não tem funcionário. Eu tinha designado uma funcionária da casa, de carreira, mas o Conselho disse que queria alguém formado em Comunicação Pública, bom e eu nomeie para um cargo de minha assessoria, mas para emprestar ao Conselho uma pessoa que é o Diogo Moisés, um militante de um movimento chamado Intervozes e que se tornou uma pessoa muito influente no Conselho, mas do que os conselheiros, até do que muitos conselheiros. Acho que foi um erro administrativo meu e isso coincide com este momento em que o Conselho quer mais. Por exemplo, eu tenho aqui uma carta da presidenta Ima perguntando à Dilma porque que a EBC não faz o Operador de  Rede Digital. Mas o operador da rede não é competência do conselho. Ao conselho cabe observar os princípios da programação e do jornalismo. Essas coisas foram agastando, porque aí eu falo “não, aí não, essa aí não é do Conselho. Orçamento é do Conselho de Administração, e então assim, ta difícil eu ser uma pessoa que aceita esse tipo de coisa. Ou aceitar um conselheiro, como o Daniel Arão Reis, disse pra mim de público: “a sua função é trabalhar, a minha é te controlar”. Eu não posso aceitar uma humilhação dessas. Mas isso tudo culminou com a questão dos programas religiosos. Os programas religiosos foram herdados na grade, são um evangélico e um católico: a missa – são dois católicos, porque tem um lá, pequenininho, chamado Palavras de Vida. São programas que estão há mais de 30 anos na grade da TVE do Rio de Janeiro, e que a TV Brasil herdou na programação. É verdade que é um problema complexo, porque mesmo na diretoria havia controvérsia: “nós vamos tirar? Bom. Nós vamos tirar todos ou é a pluralidade que deve ser observada?”. Esse debate aconteceu, e eu sempre professei o entendimento, com o apoio dos meus companheiros da diretoria, de que o que nós tínhamos que fazer era ampliar a expressão da diversidade na grade. A diversidade cultural é uma coisa. A diversidade regional, a diversidade lingüística, existe também a diversidade religiosa. A nossa proposta sempre foi construir uma faixa mais ampla, que contemplasse, segundo os critérios estatísticos do IBGE, as diversidades dos brasileiros. Mas o Conselho, primeiramente, determinou a supressão, pelo parecer do conselheiro Arão Reis, dizendo que o Estado é laico e a TV não devia ter expressão religiosa nenhuma. A gente bateu-se muito, o ministro Juca Ferreira estava ainda no Conselho, no sentido de que o Estado é laico, mas a TV é pública; o espelho dela não é o Estado, senão, não ta adiantando nada a gente falar – então, vamos fazer jornalismo pro Estado, também. O espelho é a sociedade. Então, a nossa posição foi sempre defender a expressão da diversidade, Se nós tínhamos o evangélico, o programa Reencontro, e a missa, e milhares de pessoas escrevendo porque querem ver a missa, ou ver o programa evangélico, nas cadeias, nos hospitais, nos lugares remotos, nas cadeiras de rodas, em outros lugares... Então foi feita uma consulta pública, mas ouviu 140 pessoas, a gente achou muito restrito. Isso culminou com a edição dessa resolução 02 do Conselho, aprovada em março, e que marcou um prazo de seis meses para retirar os programas do ar. Bom, isso foi transcorrendo, as igrejas debatendo, procurando a presidenta, a ministra, a mim, e não sei mais quem. Por isso que eu disse, dia 08 de setembro, quando eu disse com a presidenta “olha, se anunciar a minha saída agora, realmente fica difícil no meio de um problema desses”. Mas como se resolveu o problema religioso? A posição da diretoria estava expressa, escrevi artigos na imprensa, no blog meu e no Correio Braziliense, sobre a posição nossa, divergente do Conselho, está documentado – não tem meu artigo aqui não, aquele do Correio, mas da Época foi bastante divulgado, no meio da televisão. E isso culminou com a seguinte situação: as igrejas foram à Justiça, agora em setembro, porque os seis meses acorreriam dia 25 de setembro, ou seja, em plena sucessão da EBC. Então a gente já estava com a nossa decisão tomada, mas não podia, não era nem conveniente divulgar por causa disso, nós estávamos no meio de um problema muito grave. O que ocorreu: as igrejas entraram com liminares, exatamente com o argumento da diversidade, e elas foram vitoriosas. Pouco antes, nós tínhamos apresentado uma proposta alternativa onde a gente incluiria, além do católico e do evangélico, alguns outros programas, segundo o critério do IBGE. Qual é a outra? Espíritas. Tem um ponto não sei quanto por cento. Acho que a proposta, também pode divulgar pra eles. Essa proposta, o Conselho não quis aprovar, falou que ia examinar. Aí as igrejas entraram na Justiça e ganharam liminares. O diretor jurídico, inclusive, a pedido do Conselho, contestou as liminares – o Conselho exigiu. Foi feito esse trabalho, contestar as liminares. Isso foi dia 27. Os programas deveriam sair do ar dia 24, 25. Nós, por força da liminar, mantivemos no ar. As chamadas, o diretor de produção e programação não está aqui, ele fica no Rio, mas a gente estava com as chamadas no ar, falando que vai sair programa. Quando vieram as liminares nós tiramos, mantivemos os programas, que a gente obedece a Justiça, certo? Claro que isso irritou profundamente o Conselho. O diretor jurídico fez a defesa, a contestação das liminares – o que está em curso ainda, lá na Justiça, e no dia 29 de setembro, teve uma audiência pública, que ninguém cobriu, no Senado Federal ( essa eu quero que vocês dêem pra eles, a transcrição) , que houve um debate muito acalorado lá. E os senadores foram amplamente favoráveis à nossa posição, e disseram ao Conselho que se o Conselho não recuar daquela decisão de proibir os programas religiosos, eles vão aprovar um decreto Legislativo. Vocês vão ler isso aí no Lindbergh, no Crivella, dizendo isso. Então o Conselho tem este problema. Confesso, se eu fosse conselheira, eu também não queria Tereza – quer dizer, se eu fosse conselheira e achasse que o Conselho é que manda.

Jornalista: Você acha que o problema foi mais interno, mesmo, não há uma tentativa de setores do Governo de tentar colocar alguém mais identificado com –

TC: O Governo não tem nada com isso. O problema está entre eu e o Conselho. Eu é que não sou estúpida, não vou colocar a EBC numa situação de constrangimento institucional, porque se eu desejasse... Primeiro, eu acho que segundo mandato, ninguém pede. Agora, a presidenta achou que eu devia concluir uma série de coisas, e eu é que fiz vê-la que, nessas circunstâncias com o Conselho, seria insanidade. Qualquer um há de ver que é. Então o problema é entre a Diretoria e o Conselho. Diante dessas circunstâncias, essas circunstâncias me recomendaram a nem aceitar o segundo mandato, muito menos pleiteá-lo. Todos os manifestos pela minha permanência, eu mandei que fossem engavetados, e eu lhe digo de quem: Frenavatec, produção audiovisual independente, cineastas, teve uma oferta de um sindicato, mas não chegou a se materializar, porque eu pedi que não.

Jornalista: A presidente pediu pra você ficar?

TC: Ela me convidou a permanecer, mas ela não conhecia essas circunstâncias. Ela acha que a nossa gestão foi vitoriosa, ela conhece, a ministra Helena conhece, nós tínhamos levado um relatório, mas então tem que concluir tudo isso. Diante dessas circunstâncias, eu falei “presidente, isso vai colocar em risco institucional a própria EBC, de modo algum eu quero fazer isso”. E aí, naquele momento, ela concordou, na de 08 de novembro. Então, ta bem. Na de 08 na de novembro, não, desculpa; 08 de setembro.

Jornalista: Você não teme que, com a sua saída, alguns grupos que exercem uma, que às vezes atrapalham até o processo de desenvolvimento da EBC, prevaleçam e haja algum retrocesso nas conquistas que ocorreram nesse período?

TC: Eu espero que a minha saída sirva a esta reflexão. Agora, tenho certeza que a minha permanência, em conflito com o Conselho, seria nociva. Agora, eu defendo que se recoloquem as coisas no lugar. O Conselho não é o gestor. Por exemplo, mandar tirar programas da grade não é o seu papel; o seu papel é aprovar o Plano Anual de Trabalho, por exemplo, isso ta na lei, e o Plano Anual de Trabalho mantinha os programas na grade, e foi aprovado em fevereiro. Porque a diretoria de uma televisão trabalha assim. A gente aprova o Plano Anual de Trabalho – claro que tem ajustes, tem programa que não saiu, que não deu certo, tem várias coisas que acontecem. Mas o diretor-presidente, nem os demais diretores, não são subalternos do Conselho. Se fossem subalternos, não existia um mandato para o diretor-presidente. O mandato é para que ele tenha independência, ninguém lhe peça a cabeça, nem a própria, nem a dos outros.

Jornalista: Trabalhei com você, fui seu interino na coluna do Globo, conheço você, sei o tanto que você é independente, sei o tanto que você, politicamente também, tem seus conhecimentos. Agora, ao pegar, por exemplo, pegar alguém da Intervozes, que tem uma das poucas bandeiras que tem, que é fazer, praticamente, uma intervenção na mídia, você não percebeu que você estava criando –

TC: Não conhecia esses antecedentes.

Jornalista: Outra coisa, eu posso te dar um testemunho que de agosto, mais ou menos, setembro pra cá, eu nunca vi – a gente sabe disso, uma pessoa da cobertura política – a gente começa a ser procurado por pessoas, de um lado e de outro. Eu nunca fui tão procurado de pessoas que tentavam bombardear sua, tentavam bombardeá-la.

TC: Por causa da sucessão, e eu estava aqui trabalhando noite e dia.

Jornalista: Há coisa de um mês, 15 dias, sei lá, 20 dias, entrei em contato com a sua acessora, você estava pra Buenos Aires, ela disse “não, mas eu vou te mandar”, me mandou uma coisa, eu guardei aquilo comigo até,... Realmente, você dizia “estive com a presidente, vou ter outro encontro com ela”, e tal. Mas nesse período todo, veio se afunilando, veio se afunilando informações.

TC: Esse último e terceiro encontro com a presidente não aconteceu por causa das viagens dela.

Jornalista: Pois é, e vieram afunilando informações e dizendo, uma delas, inclusive, dizendo o seguinte: Tereza está esperando um sinal e esse sinal não vem. E que havia uma movimentação, e todo mundo aqui sabe, ouviu essas conversas também, em que pessoas do Governo dizendo “aí não dá, a gente quer o outro...”

TC: Como é que é? Repete devagarinho. Pessoas do Governo diziam o quê?

Jornalista: Pessoas do Governo chegavam e diziam “não dá pra ficar com a Tereza, ta no outro...”

TC: Fala devagarinho, eu quero entender bem o que é que as pessoas do Governo diziam.

Jornalista: Não dá pra ficar com a Tereza, e tal. Até então -

TC: Não dá pra ficar com a Tereza, por quê?

Jornalista: Porque há uma incompatibilidade com o Conselho Curador, porque outras pessoas se movimentam politicamente pra escolher um outro diretor, e tudo já leva pra esse caminho. Isso, a partir de setembro, já é o que se falava. Foi nessa época que eu procurei a sua assessora –

TC: Mas a primeira pessoa que levou o problema de que “olha, o Conselho está me ameaçando fazer impeachment”, fui eu que levei esse problema.

Jornalista: Então, até então, os vazamentos que havia eram desse jeito que eu tô te contando. Eu acho que alguns aqui possam ser testemunha de que realmente se falou. E pessoas ligadas a você também diziam “puxa a Tereza ta sendo injustiçada que vocês não imaginam o tanto, porque” e citavam uma série de coisas. Aí eu te pergunto o seguinte: nessas mesmas histórias, disseram que você foi convidada pelo Josemar Gimenez pra passar a escrever lá, no Correio

TC: Não é verdade. O Josemar me convidou a continuar a escrever lá; eu escrevo um artigo no Correio. Inclusive esse, sobre programas religiosos, sobre essa questão dos programas religiosos, que eu citei, é um desses artigos, eu escrevo no Correio. É porque talvez vocês não leiam, mas eu escrevo há três anos no Correio. Sou muito grata ao Josemar, porque eu sou uma jornalista de texto, basicamente, embora tenha feito 10 anos de televisão, e ele nesse período me ofereceu esse espaço. E o que ele disse agora? “Sendo ou não presidente da EBC, o espaço continua seu.” Eu escrevo um artigo por mês. Por ora, é isso.

O que eu tenho, assim, o trabalho que eu devo fazer; primeiro, eu estou esperando estudo sobre a questão do impedimento, então assim, o artigo eu posso escrever, porque eu não sou remunerada por ele. Mas o diretor jurídico ta encaminhando minha vida, aí.

Jornalista: E convites de trabalho, você –

TC: Mas o que eu to dizendo, eu não posso aceitar convites, a não ser o do Josemar, que é não-remunerado, por causa da interdição que estão... Não, eu não tenho convites. Eu tenho uma relação com o sistema público argentino, e eles vão implantar um informativo em língua portuguesa e talvez eu ajude lá, mas eu nem sei se eu posso, entende? Um sistema de informação na língua portuguesa na agência Télan. Tudo tem que ver se eu posso, se você quiser explicar melhor , eu não sou como ministro de Estado, que tem que ficar parado 4 meses, totalmente. Meu caso chama interdição, aí algumas coisas eu posso, outras eu não posso. Não é assim, Fioravante? Querem perguntar pra ele? Ele é o diretor jurídico.

Fioravante: É uma regulamentação específica que estabelece e fixa a quarentena, como uma determinação para que não se exerçam determinadas atividades. Essa quarentena foi instituída inicialmente para as instituições financeiras, mas por uma deliberação da Comissão de Ética Pública, por uma deliberação, também se estendeu a outros dirigentes o impedimento de atividade ligada àquela atividade que o diretor ou o administrador exercia na sua função pública, Então nós fizemos uma consulta à Comissão de Ética Pública e ela se manifestou nesse sentido de que há determinadas atividades que não podem ser exercidas. Não são todas, mas algumas que são impedidas de ser exercidas.

Jornalista: Tereza, você sai frustrada, porque – não porque se realizou muita coisa, mas por sair com esse problema interno, com essa resistência, digamos assim.

TC: Não, de jeito nenhum. Saio muito gratificada, acho que missão dada é missão cumprida, não tenho nenhuma frustração, não. Agora, o que me desagrada foi apenas a incorreção da notícia, de que eu tentei ficar até a última hora e fui, o quê, inaudível . A única contrariedade que eu tive foi essa, nesse processo. No mais, eu olho pro horizonte com muita esperança de fazer coisas que eu ainda não fiz.

Jornalista: Olhando pro passado, desconsiderando –

TC: Olho muito pouco pro passado, porque se eu olhasse muito, meu filho, o que eu já sofri na vida...

Jornalista: Mas o que você reformularia, o que você faria diferente, fora essa questão desse problema com o Intervozes, com a indicação do cara do Intervozes?

TC: Você fala na EBC? Algum arrependimento?

Jornalista: É, o que faria de diferente?

TC: Eu nem falei isso, eu falei que foi um erro administrativo. Olha, eu acho que a gente sempre fez o possível aqui, não vejo nada que pudesse ser muito diferente. Porque foram circunstâncias tão difíceis... O vídeo mostrou. Sabe, fazer uma TV nacional com três canais é como te falar “entre no mar bravio e faça uma canoa com três tábuas”. Eu acho que isso foi uma grande vitória, ter uma rede hoje.

Jornalista: - O que faria diferente?

TC: Você fala na EBC, algum arrependimento? A gente sempre fez o possível aqui. Não vejo nada que possa ser muito diferente. Foram circunstâncias tão difíceis! Fazer uma TV nacional com três canais, é como falar: entre no mar bravio e faça uma canoa com três taboas.  Acho que isso foi uma grande vitória, ter uma rede hoje. Combinando vários mecanismos. Vocês viram que o que a gente fez foi juntar uma taboa, um ferro, a gente conseguiu fazer uma TV nacional  combinando todos esses sistemas, juntando isso tudo: temos TV satelital – na argentina a gente chama de TCV satelital - , temos uma TV terrestre, temos uma TV por assinatura... A gente combinou várias plataformas.  Acho que isso foi uma grande vitória.  Tenho orgulho de ter servido ao meu país dotando-o de algo que ele não tinha e que a sua constituição previa: o sistema público de comunicação, que envolve TV Pública, rádio Pública, etc.. Ter emprestado minha trajetória pessoal, o prestígio profissional que eu tinha.E tenho outra grande alegria E é um motivo de orgulho porque eu servi o meu país com generosidade, porque deixei uma posição importante e ganhei metade do que eu ganhava nesse período.  Outra alegria que eu tenho é que houve grandes esforços de desqualificação, mas não teve uma denúncia de ordem ética, que tenha ferido minha integridade moral. E hoje isso não é muito fácil!

Então, o que deixo para vocês é uma pauta. Eu sempre falo que a EBC tem que ser muito exposta na janela. Quanto mais se veja o que acontece aqui, melhor. A imprensa não cobriu mais o Conselho Curador nos últimos tempos. A gente também, correndo muito, não se esforçou por isso. É uma instituição republicana, logo é uma instituição de interesse público. A EBC é notícia! Vocês teriam visto os debates, teriam visto o contencioso... Isso é tudo natural. Agora, existe uma pauta importante. A sessão do Senado foi muito importante.  O que os senadores disseram? Que eles querem uma definição mais precisa do papel do Conselho.

Jornalista: Essas divergências do Conselho com suas posições são só divergências editoriais ou há um fundo político?

TC: Não, gente, é outra questão, é poder.

Jornalista: Então é política?

TC: É. A questão é a seguinte: - ache para mim a carta da presidente Ima para a presidenta Dilma.... (não acha a carta) Era só para dar um exemplo. Ela diz que “o Conselho deve controlar a EBC”. O Conselho não deve controlar a EBC, a EBC tem diretoria. É uma questão do papel. O Conselho diz que tudo pode, inclusive diz que não precisava existir o outro Conselho, o de Administração. Eu acho que a lei fala outra coisa. Mas vocês me desculpem, mas é meio tarde pra mim para entrar nesse debate. Quando o Conselho discute o jornalismo, a programação infantil, se o tema de direitos humanos está na grade, acessibilidade, tudo isso é pertinente. Mas não é pertinente discutir outras coisas que são de ordem administrativa, de ordem tecnológica, de ordem operacional...

Jornalista: Você acha que o Conselho tava querendo em entrar em assuntos para por gente aqui dentro ou fazer valer a força de setores econômicos que têm interesse direto de fornecer serviços a A, B ou C dentro da EBC e por isso começaram a minar a administração executiva?

TC: Não, eu não disse isso. Não acho que seja essa a razão. As motivações do Conselho são mais ideológicas, nesse sentido “o Estado é laico, a TV Pública não tem que ter religião”...

Não enxergo isso não, não vejo interesses econômicos. Pelo contrário. As motivações desse conselho são mais de ordem de convicções. Convicções que para mim são equivocadas, mas não conta muito minha opinião que eu estou indo embora. Mas essa pauta existe. Em todo lugar do mundo tem conselho, não tem mistério, ele não é jabuticaba, não existe só no Brasil! Então podemos comparar com outros modelos.

Por exemplo, quem nomeia o Conselho hoje, vocês sabem? Não é mais o presidente da República. Vocês lembram que no debate da lei da EBC se falava assim: a Tereza é o Lula que nomeia, não sei quem é o Lula que nomeia, o Conselho é o Lula que nomeia.... O Lula nomeou com base na  MP 398 – vocês viram naquele video – o Conselho do Beluzo, a primeira fase do Conselho. Lá no Congresso houve mudança na MP, na lei, que diz o seguinte: será por eleição direta da sociedade. Aí vocês sabem, tem dezenas de articulações. O Estado brasileiro não tem ingerência nenhuma. O Conselho hoje é composto majoritariamente com essa ois tração, com essa origem. É uma regulamentação que o próprio conselho fez. Mas, por favor, estou só dando uma informação pra vocês, eu não queria entrar nisso. Essa é uma informação do que passou lá no Congresso, é que na época ninguém prestou atenção.

Jornalista: Então quando você faz a sugestão para que se mude a questão do Conselho, você está fazendo uma sugestão para isso, para que se mude a forma de se escolher, é isso?

TC: Eu acho que se sim. A empresa é pública, o Estado brasileiro tem só quatro representantes (no Conselho Curador). Os demais são da sociedade. É preciso encontrar uma forma de maior equilíbrio entre o Estado e a sociedade e de como é que a sociedade escolhe (seus representantes). Se fosse por voto direto, por plebiscito...

Jornalista: Claro, até porque essa parte certamente é de uma sociedade altamente organizada. Então só vão chegar conselheiros altamente organizados.

TC: Isso que eu acho que é uma boa pauta para depois vocês estudarem. Mas independente do que vocês escrevam, não estou pedindo uma linha, agora, olhem o que a EBC foi e em que ela se transformou....Pode olhar com calma, é importante formar uma opinião: o que é isso que está nascendo no Brasil? Isso é uma coisa, da parte da gestão. Vocês formarem suas opiniões é importante, não a partir do que falam.

A outra coisa era isso: considero-me uma pessoa pelo menos medianamente inteligente. E se vocês olharem as datas desde quando está-se ameaçando com o meu impeachment, eu teria que ser bastante insana para não ter decidido desde então que eu não ficaria.

Jornalista (inaudível)

TC: Como que eu vou ficar, para ser desqualificada! Já conseguiram me desqualificar! Sofrer impeachment? Eu tenho um filho brilhante, o Rodrigo. Ele lê isso tudo. E ele foi o primeiro que falou: mãe, eu não te deixarei saltar num abismo. Isso foi na véspera de eu ir à Dilma em 25 de agosto.

Mas eu quero agradecer a vocês todos, pude falar com calma. Não sei o que vocês vão fazer, mas sei que vocês todos têm compromisso com a verdade. Eu precisava contar a minha. Hoje eu estou me retirando, ainda vou me despedir dos funcionários. A Érica e a Ana, que são minhas fiéis companheiras, podem providenciar qualquer documento. Porque tudo o que eu disse aqui está documentado, inclusive meus encontros com a presidenta.

Jornalista: Sobre os R$ 450 milhões do orçamento, toda vez que a gente pede informação...  Porque se trabalha sempre com projeção. Quanto é o orçamento de R$ 2011.

TC: Não existe isso fixo, vocês sabem. Era R$ 471, mas o governo já enfiou a faca em 25%. Quanto ficou? Parece que eu vi o Collar aqui, Ricardo Collar, Secretario Executivo da EBC, meu companheiro de gestão... Quanto é, tira aí 25,11%, entendeu? Cada ano é de um jeito. Tem ano que a gente consegue aumentá-lo porque aumenta a previsão de receitas próprias para o ano seguinte. Aí você consegue dizendo assim: pode por 470 pra mim porque eu vou por pelo menos 20 de receita própria. Aí você consegue dobrar os homens no sentido de aumentar só para o ano que vem. Mas se você não consegue aquilo que você promete...Chama-se frustração de receita. Teve um ano que a gente contou com a tal da contribuição, aquela que as teles foram para a justiça. Não veio, não veio, chama-se frustração de receita.

Não existe orçamento fixo. Todo ano tem uma novelinha  com o governo.... É tudo um jogo de negociação....Construímos um orçamento de R$ 470 milhões. Teve ano que eu tive tempo de ir para o Congresso e conseguir emenda de deputados.... - Trabalhei quatro anos de manhã, de tarde, de noite e de madrugada - Nós construímos um orçamento de R$ 475 milhões para esse ano. Aí veio o corte, e caiu. Não existe esse orçamento da EBC fixo.... Mas quero outra coisa, quero reconhecer da parte do presidente Lula e seu governo, que o compromisso orçamentário foi mantido. Nós não sofremos nenhum corte no governo do Presidente Lula. Nunca foi menor de R$ 350 milhões. Vocês lembram que foi isso que ele falou, que garantia R$ 350 milhões? Nunca caiu disso. O governo da presidente Dilma teve um corte para todo mundo, não foi só para a EBC. Também não estou me queixando. É preciso reconhecer que o que foi combinado foi honrado. E também a independência. Os dois governos (Lula e Dilma) honraram dois compromissos fundamentais com a EBC, o do orçamento e a independência.

Jornalista: Não teme que a programação fique prejudicada?

TC: Fica sim, aperta sim. Por exemplo, a Nereide ali! Eu corto as viagens dela todos. Porque está em vigor um decreto da presidenta Dilma que reduz em 50% as viagens do setor público. Vocês sabem disso? É uma pauta para vocês fazerem. Vão universidades, vão no Itamaraty, um desespero total. Porque só podem gastar com viagem a metade do que gastaram no ano passado. E quem autoriza é o chefe da unidade orçamentária. No nosso caso, eu. É desagradável, mas tem que fazer. Esse decreto prejudica muito as viagens do jornalismo.

A programação: se você olhar nos nossos vídeos, houve uma queda brutal nos licenciamentos. Que que são licenciamentos? São filmes e documentários de terceiros que você licencia. Então nós passamos dois dias de reunião cortando. Mas pudemos fazer isso porque nós tínhamos um estoque que nós permitia usar, passar um filme duas ou três vezes. Então nós vamos só reprisar, até passar o aperto orçamentário só reprise.

Na produção nós tivemos muita sorte. Em 2010 fizemos muita contratação de programa de produção independente, de pitchings, etc.. Essas produções estavam em curso, estamos estreando agora.  Nós acabamos de estrear Equador, acabamos de estrear Sábados Azuis, acabamos de exibir Histórias do Brasil... E tudo foi contratado ano passado. Então a gente tinha um estoque. Mas ano que vem, se continuar com aperto orçamentário a programação pode sofrer. Mas aí é preciso esperar janeiro.

Gente, continuem visitando a EBC, acho esta casa, sendo uma instituição pública e republicana deve sem bem aberta.

Queria falar uma palavra sobre Nelson Breve. Fui eu que trouxe o Nelson para a EBC em janeiro e criei para ele nos ajudar numa área que estava descoberta. Agora, se ele vai ser nomeado ou não não é da minha competência. Sempre que me perguntaram dele disse que é uma pessoa com todos atributos para ocupar o lugar que eu ocupo, mas não é da minha competência nem sugerir nomes. nem nomear. Eu precisava dizer isso porque existem coisas “estão escolhendo ele pra me trocar porque eu não presto” (risos) Então queria dizer o seguinte, eu trouxe o Nelson em janeiro, criei uma unidade chamada Sucom, Superintendente de Comunicação Multimídia para ver se a gente consegue superar um problema grave da EBC que é não ter convergência de midias. Isso está em curso, ele tem feito esse trabalho e eu tinha obrigação de falar isso.