Coordenadora da EBC é reconhecida como Jornalista Amiga da Criança
A coordenadora da Radioagência Nacional, Juliana Cezar, foi titulada Jornalista Amiga da Criança, nesta terça-feira (22). O título foi criado pela Andi – Comunicação e Direitos como forma de reconhecer e estimular a atuação dos profissionais de imprensa comprometidos com a ética, a temática social e a defesa dos direitos humanos.
Juliana ingressou na EBC em 2004 e conta com uma vasta experiência profissional, que lhe rendeu reconhecimentos, como o Prêmio Tim Lopes de Jornalismo Investigativo (pela Rádio Nacional da Amazônia), e o Prêmio Herzog (pela Agência Brasil).
Antes de coordenar a Radioagência, foi repórte r, editora e coordenadora de edição da Agência Brasil, sempre priorizando os temas da infância, juventude e igualdade racial.
A jornalista, mestranda em Comunicação Social na Un iversidade de Brasília, atuou no jornal Correio Braziliense (onde conquistou o Prêmio Tim Lopes), nas editorias de Saúde, Educação e Ciência; no Ministério da Justiça, contribuindo com a revisão do sistema de classificação indicativa; e na assessoria de comunicação da UnB. É diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do DF, integrando a Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira).
Leia a entrevista:
Qual a importância do título de Jornalista Amiga da Criança?
O título "Jornalista Amigo/a da Criança" é um iniciativa muito interessante da Andi - Comunicação e Direitos, que desde 1997 premiou 346 profissionais de todo o país. Aqui na EBC, já tínhamos dois diplomados: Airton Medeiros e Mara Régia, apresentadores das rádios EBC que admiro profundamente. Fico bem feliz em ser a terceira profissional da empresa titulada, até porque não entendo esse prêmio como um reconhecimento individual. Para que os jornalistas possam desenvolver suas pautas na área da infância e juventude, com qualidade técnica e ética, é fundamental o apoio das chefias e dos colegas de todas as áreas. Jornalismo é uma produção coletiva. Esse título mostra que a EBC, enquanto empresa pública de comunicação, busca produzir de forma cotidiana matérias diferenciadas sobre os direitos de crianças e adolescentes. Receber este prêmio apenas aumenta nossa responsabilidade em continuar a desenvolver esse trabalho. Não tenho dúvida que outros colegas, em breve, também serão titulados e, caso a Andi crie um título para Empresa Amiga da Criança, teremos todas as condições de conquistá-lo.
Por que a infância e a adolescência precisam estar na pauta da comunicação pública?
A Constituição estabelece a necessidade do sistema público de comunicação justamente para que temas como esse sejam abordados a partir de diferentes perspectivas. Enquanto empresa de comunicação pública, financiada pela sociedade brasileira, temos a obrigação de produzir conteúdo informativo, educativo e cultural que contribua para a garantia e promoção dos direitos das crianças e adolescentes, sem apelos para o sensacionalismo ou estímulo ao consumo.
Temos hoje na área de jornalismo e programação importantes iniciativas neste sentido. Nas rádios, produzimos diariamente material sobre o tema e temos o Núcleo Infanto-Juvenil, com programas como o Zoa Som, Blim Blem Blom e Rádio Maluca. Dialogamos com os adolescentes com programas como Nacional Jovem, Ação Periferia e Funk Nacional.
O grupo de trabalho que elaborou o Manual de Jornalismo da EBC, coordenado pela Diretoria de Jornalismo, pesquisou boas práticas de cobertura na área de infância e adolescência. Essas orientações estarão no manual, a ser lançado em breve, e se baseiam nos guias da Andi e da ONU. Temos que mobilizar outras empresas públicas de comunicação a seguir este caminho e priorizar sempre a produção de conteúdos que não apenas abordem a temática da infância e juventude, como permitam que as crianças e adolescentes expressem sua visão sobre o mundo, sem estigmatizar e violentar jovens em situação de vulnerabilidade social.
Você já passou por diversas editorias, mesmo fora da EBC. Como é possível promover o debate sobre questões da infância e da adolescência em áreas diferentes, como educação e ciência?
Crianças e adolescentes são sujeitos de direitos nas mais diversas áreas. Por isso, quando fazemos uma matéria ou programa sobre educação, precisamos observar se as políticas públicas voltadas para a infância e adolescência estão sendo cumpridas, se o governo tem atuado para garantir o direito à educação nas áreas rurais e ribeirinhas, se a sociedade consegue incluir no sistema educativo crianças em situação de rua ou de dependência química, se as escolas oferecem apoio para crianças em situação de abuso e exploração sexual, se os adolescentes que cumprem medidas socioeducativas estão devidamente assistidos, etc.
A mesma lógica vale para o campo da ciência. As pesquisas acadêmicas estão preocupadas com essa parcela tão importante da população? O Brasil consegue estimular o pensamento e a prática científica ainda na escola? Questões que suscitam centenas de pautas e que estão todas aí ao nosso alcance. Portanto, acho que promover o debate sobre infância e adolescência em áreas diferentes requer curiosidade, esforço, compromisso, pesquisa, capacitação, ética e sensibilidade. Penso que temos vários profissionais na EBC com essas habilidades que já trabalham e podem atuar cada dia mais em prol dos direitos das crianças e adolescentes.
Após defender a infância e a igualdade racial em locais diferentes, como o Distrito Federal e a Amazônia, como você vê o tratamento que é dado a esses temas nas diferentes regiões do país? Existe alguma diferença?
O racismo estrutura a sociedade brasileira desde a escravidão e nenhuma região do nosso país está imune à essa violência. Já fiz, pautei ou editei matérias sobre infância e igualdade racial em diferentes contexto regionais. Certamente alguns aspectos variam em cada localidade, até porque a composição étnico-racial brasileira não é uniforme, a articulação dos movimentos sociais em alguns locais está mais avançada, bem como o compromisso do Estado com o combate ao racismo. No entanto, as crianças negras e indígenas estão em condição vulnerável em todo o país.
Por muito tempo, o jornalismo foi omisso em relação a esse tema e até mesmo contribuiu para a perpetuação do racismo na nossa sociedade. Alguns veículos de comunicação ainda reproduzem estereótipos racistas ao abordar jovens em conflito com a lei ou mesmo invisibilizam a necessidade de política afirmativas ao omitir o recorte étnico-racial em matérias sobre mortalidade materna, desnutrição infantil, evasão escolar ou acesso ao ensino superior. Neste sentido, tem sido muito importante o trabalho das Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojiras), do movimento negro e indígena, que cobram e orientam os profissionais de comunicação para a cobertura desta temática. Precisamos incorporar essa perspectiva no nosso trabalho cotidiano para que possamos seguir construindo uma empresa pública de comunicação atenta aos direitos das crianças e adolescentes de todas as cores, raças, etnias, gêneros, regiões e classes sociais.
Foto:Magno Romero/EBC