Coluna da Ouvidoria – Uma ou duas fontes?
Brasília – No dia a dia do jornalismo, é cada vez mais comum os jornalistas acatarem sem questionamento informações transmitidas em declarações de autoridades – sejam elas executivos do governo ou de empresas privadas. No entanto, são muitas as informações, passadas com muita rapidez, e os jornalistas frequentemente acabam dependendo de informativos distribuídos no local do evento, de releases enviados às redações ou de notícias publicadas em sites oficiais para conferir os dados usados em suas matérias. Nesse ponto, pode haver discrepâncias que passam despercebidas.
Foi exatamente uma discrepância de informações que chamou a atenção da leitora Lighia Brigitta Horodynski Matsushigue, de São Paulo, que escreveu à Ouvidoria no dia 11 de dezembro. A leitora reclamou de números apresentados em matéria publicada pela Agência Brasil no dia 6 de dezembro de 2012, que, segundo ela, destoam da realidade. A matéria Ensino superior teve melhora generalizada nos últimos três anos, diz Mercadante contém a seguinte afirmação: “Foi divulgado o Conceito Preliminar de Curso (CPC), que avalia exclusivamente cursos de graduação. O índice considerou 4.403 universidades – sendo 2.642 públicas e 1.761 privadas – além de 2.245 faculdades e 928 centros universitários”.
A leitora comentou: “Estou preocupada com a falta de precisão das notícias veiculadas ultimamente. Apenas hoje vi duas coisas insólitas: o país teria mais de 4 mil (pasmem!!) universidades públicas [sic], além de faculdades e centros universitários; e a avaliação de todas essas instituições de educação superior (IES) públicas e privadas é tão melhor que, percentualmente (!!), todos os valores são maiores em 2011 do que em 2008... Gente!! Isso depõe contra a EBC , mas também, e muito, contra o MEC. Vamos corrigir isso?”.
As fontes citadas na matéria são o ministro de Educação, Aloizio Mercadante, que concedeu uma entrevista coletiva na mesma data sobre os resultados das avaliações da qualidade do ensino superior no país feitas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e pelo Ministério de Educação (MEC). A apresentação do ministro – os slides e o áudio – está disponível no site do MEC, junto com a notícia da assessoria de imprensa do órgão sobre o evento.
Embora os dados publicados pela ABr referentes ao número de universidades consideradas no índice sejam idênticos aos da notícia no site do MEC, na exposição do ministro, está claro que essas cifras não se referem nem ao número de universidades nem ao número de cursos, mas às 7.576 unidades de cálculo que, no CPC de 2011, abrangem 8.665 cursos em 1.387 instituições de educação superior, incluindo universidades, faculdades e centros universitários. Em pelo menos 87,4% dos casos, as unidades de cálculo são equivalentes aos cursos, mas uma unidade de cálculo pode ser composta de mais de um curso, quando houver mais de um curso numa área de avaliação específica do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes ( Enade) na mesma IES no mesmo município.
A reclamação da leitora foi encaminhada à Diretoria de Jornalismo (Dijor) no dia 12 de dezembro. A resposta veio no dia seguinte: “Gostaríamos de esclarecer que os dados... publicados pela Agência Brasil , no dia 6 de dezembro, estavam corretos, de acordo com o que foi divulgado pelo Ministério da Educação. Mas, como o MEC divulgou novas informações hoje, dia 13, com dados diferentes dos que tinha nos informado, corrigimos a matéria.”
Mesmo com a correção, as informações continuam divergentes, embora representem uma melhor aproximação. “O índice avaliou 7.576 cursos [deveria ser unidades de cálculo], sendo 4.703 em instituições particulares e 2.873 em unidades de ensino públicas. Desse total, 4.403 estão em universidades (2.642 em públicas e 1.761 nas particulares), 2.245 em faculdades e 928 em centros universitários”. O que nos chama a atenção é que a Diretoria de Jornalismo corrigiu os dados, mas deixou por conta do MEC, cujos dados originais, de acordo com a Dijor, “estavam corretos”, como depois passaram a ser “corretos” os dados divulgados na revisão, apesar de ambas as versões divergirem das informações que aparecem na apresentação do ministro. A resposta da Dijor demonstra que, pelo menos neste caso, no que diz respeito a sua concepção do escopo da responsabilidade da empresa pela transmissão de informações precisas, os gestores do setor depositaram fé absoluta em uma das fontes sem atentar para a possibilidade de discrepâncias.
O risco deste tipo de desencontro de informações está previsto por Jorge Duarte no capítulo intitulado Release: História, Técnica, Usos e Abusos de um livro editado por ele. Duarte dá a seguinte orientação às assessorias de imprensa na preparação dos releases : “Após redigir seu release , procure conferir (checar) as informações, dados e números. Não é incomum dado diferente ou errado circularem em uma organização. Erros comprometerão sua credibilidade e a da instituição”. Esse conselho pode ser complementado por outra observação da leitora Lighia, que, ao responder ao questionário de pós-atendimento da Ouvidoria, sugeriu “que o MEC tenha alguém das áreas de educação, estatística e física, entre outras, para verificar os textos antes de enviá-los a público...”.
Boa leitura!