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Importância do rádio público pauta debates do último dia do 7º Simpósio Nacional do Rádio

Mesas discutiram capacitação de gestores, modelos de administração e o fenômeno dos podcasts com foco na Radiogência Nacional
22/05/2026
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18:29
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Tânia Rêgo/Agência Brasil

A gestão de emissoras de rádio, a capacitação de profissionais e os desafios e perspectivas para o fortalecimento do rádio público no Brasil foram temas de duas mesas realizadas nesta sexta-feira (22), durante o 7º Simpósio Nacional do Rádio, na Sala Funarte Sidney Miller, no Rio de Janeiro (RJ).

A programação é organizada pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), por meio da Rádio Nacional, em parceria com o Grupo de Pesquisa Rádio e Mídia Sonora da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). Em 2026, o encontro celebra os 90 anos da Rádio Nacional.

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A primeira mesa da manhã teve como tema “Modelos de gestão e capacitação de gestores de emissoras de rádio”. Participaram o diretor no Núcleo de Rádio e TV da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Marcelo Kischinhevsky; e Thiago Regotto gerente-executivo das Rádios da EBC. A mediação foi conduzida por Veronica Lima, da direção da Rádio Câmara.

Na sequência, a mesa “A importância do rádio público no Brasil: desafios e perspectivas” reuniu Paulo Reis, diretor de Rádio e TV Universitária da Universidade Federal de Roraima (UFRR); o professor Paulo Fernando de Carvalho Lopes, da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e vice-presidente da Rede de Rádios Universitárias do Brasil (Rubra); e as jornalistas da Radioagência Nacional, veículo da EBC, Eliane Gonçalves, Patrícia Serrão e Beatriz Arcoverde. Lidia Neves, gerente de Integração de Conteúdos e Rede da EBC, realizou a mediação.

Gestão e capacitação

Durante a primeira mesa, os participantes discutiram diferentes modelos de gestão aplicados às emissoras de rádio, com atenção às especificidades das rádios públicas e universitárias. O debate abordou a necessidade de planejamento, formação continuada, integração entre equipes e adaptação dos veículos às mudanças tecnológicas e aos novos hábitos de consumo.

Durante a discussão, os participantes abordaram os desafios administrativos, tecnológicos e editoriais enfrentados por emissoras públicas, educativas e universitárias. Entre os pontos tratados estiveram os processos de licitação, a necessidade de atualização tecnológica, a definição de linhas editoriais e a formação de profissionais para cargos de gestão, com atenção à presença de mulheres em posições de liderança.

Thiago Regotto apresentou a experiência da EBC na gestão da Rádio Nacional e da Rádio MEC, duas das principais emissoras públicas do país. Ele destacou que a comunicação pública no Brasil tem mais de um século de trajetória e lembrou que a criação da EBC, em 2008, efetivou princípios previstos na Constituição Federal de 1988 sobre a complementaridade dos sistemas público, privado e estatal de comunicação.

Ao falar sobre a gestão das emissoras da EBC, Regotto ressaltou a importância da diversidade nas equipes. “A maior parte da equipe de gestão da Rádio Nacional e da Rádio MEC é formada por mulheres. A diversidade é fundamental para o rádio público e para o nosso trabalho”, afirmou o gerente-executivo. Na apresentação, ele também abordou a estrutura da Diretoria de Conteúdo e Programação da EBC, a capilaridade das emissoras, os principais programas e produtos das rádios, além do Parque do Rodeador, sistema de transmissão de alta potência apontado como um diferencial da comunicação pública.

Regotto explicou que, até 2022, as rádios da EBC enfrentavam desafios como grades desatualizadas, baixa conexão com a audiência, pouco reconhecimento de marca, presença digital limitada, programação pouco integrada entre rede e produção local, além de carência de investimentos em inovação e produção. Segundo ele, 2023 marcou um período de reconstrução com novos posicionamentos de marcas, reformulação de programas, reorganização das grades e criação de novas faixas e atrações.

Em 2024, acrescentou o gerente-executivo, o trabalho avançou para a consolidação e expansão com criação de padrões e rotinas, além da gestão de audiência a partir de relatórios mensais. Já em 2025, o foco passou a ser o fortalecimento das emissoras, com a criação da faixa internacional em inglês e espanhol na Rádio Nacional da Amazônia, integração com redes sociais e consolidação da programação em rede, por exemplo. “Na Rádio Nacional, temos quase meio milhão de ouvintes mensais em FM, segundo o Ibope. Conquistamos o maior share em Brasília desde 2010 e conseguimos rejuvenescer o público de ouvintes em Brasília e também em outras praças”, mencionou.

Para este ano de 2026, Regotto elencou que a EBC deve priorizar investimentos em modernização tecnológica, capacitação de equipes, promoção das rádios, expansão do sinal em FM e ampliação da presença digital. Entre as ações previstas, citou as comemorações dos 90 anos da Rádio Nacional, a implantação da Rádio MEC FM em São Paulo, a inclusão do som das rádios na multiprogramação de TV da EBC e na TV 3.0, além da ampliação da produção de programas de rádio com imagem para o YouTube.

O professor Marcelo Kischinhevsky destacou a parceria com a EBC e tratou dos modelos de gestão de rádios universitárias no Brasil e no exterior.  “Há 10 anos, não fazíamos ideia de quantas rádios universitárias tinham aqui. Rádio universitária não existe no ordenamento jurídico nacional. Nós temos as rádios educativas, mas não a categoria de rádios universitárias, que deveria ser um subcampo dentro das rádios educativas”, esclareceu.

Kischinhevsky ressaltou ainda que as universidades estiveram presentes nas origens do rádio em diferentes contextos e apresentou modelos de gestão. Em comum, segundo o professor, está a dificuldade de qualificação de gestores e gestoras para lidar com as demandas administrativas e institucionais dessas rádios. “Muitas vezes, os profissionais têm que lidar com muitos processos que se arrastam e com uma tramitação burocrática muito complicada”, exemplificou.

Para o professor, a gestão das rádios universitárias deve contar com instâncias decisórias bem definidas, decisões colegiadas, diretorias com mandatos estabelecidos, conselhos, políticas de governança, equidade, participação social, estímulo à inovação, aprimoramento profissional, mídias sociais e transparência. Ele defendeu que a qualificação de gestores seja pensada coletivamente com foco no fortalecimento da comunicação pública e educativa. “Tudo isso precisa estar na perspectiva de pensar uma comunicação pública e educativa de qualidade, cada vez mais relevante do ponto de vista social e cultural”, concluiu Kischinhevsky.

Rádio público

A segunda mesa aprofundou a discussão sobre a importância do rádio público no Brasil e os desafios para sua manutenção e fortalecimento. Os participantes abordaram temas como diversidade de vozes, integração em rede, adaptação às plataformas digitais e o fenômeno dos podcasts.

O debate também destacou o papel das rádios públicas e universitárias na oferta de informação de interesse público, na promoção da cultura, na educação, na valorização da produção local e na circulação de conteúdos que nem sempre encontram espaço nas emissoras comerciais.

O painelista Paulo Reis apresentou a experiência da Rádio Universitária da UFRR, que completa 15 anos em setembro, e frisou a relevância do rádio público. A localização da emissora, na tríplice-fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, amplia a responsabilidade da comunicação pública. “É de suma importância o entendimento da gestão sobre a importância da comunicação, principalmente sendo uma rádio pública. As rádios públicas têm esse papel de dialogar com o interesse público, com nossos ouvintes, trazendo cultura, informação e educação. Existem desafios, mas a rádio vive e é pujante. E o fortalecimento da Rede é fundamental nesse processo", ressaltou o diretor da rádio universitária.

Na sequência, o professor Paulo Lopes apresentou conceitos e referenciais teóricos sobre comunicação pública e rádio público. Para ele, a ausência de uma definição única sobre o tema reforça a importância de espaços de debate e articulação entre pesquisadores, gestores e profissionais do setor. “Quando a gente pensa que não temos um único conceito, percebemos a importância e o significado de encontros como esse que estamos tendo aqui”, observou.

Lopes acredita que o rádio público no Brasil ainda enfrenta obstáculos. “O rádio público no Brasil passa por desafios multidimensionais que ainda impedem sua plena consolidação, caracterizando-o como um modelo ainda em construção”. Entre os principais pontos, ele mencionou a crise de identidade e autonomia, especialmente na diferenciação entre o que é público e o que é estatal; a sustentabilidade e o financiamento, com a fragilidade financeira podendo comprometer a qualidade técnica e de conteúdo; o déficit de imagem perante a sociedade; os desafios tecnológicos e de convergência; e o que chamou de “limbo legal e inconsistência normativa”, com uma legislação “maleável, desatualizada e carente de princípios claros”.

Apesar do diagnóstico, o professor também indicou perspectivas para o futuro do setor, com ênfase em uma experiência centrada no interesse público, na inovação tecnológica e na garantia de participação ativa do cidadão.

Radioagência Nacional

O último painel da manhã desta sexta-feira (22) contou ainda com a presença de premiadas jornalistas que integram o time da Radioagência Nacional: Beatriz Arcoverde, Patrícia Serrão e Eliane Gonçalves.

Beatriz Arcoverde apresentou o trabalho do veículo na produção e distribuição de conteúdos jornalísticos para emissoras de todo o país. Ela realçou que a Radioagência Nacional busca levar informação com apuração e credibilidade a regiões onde, muitas vezes, outros veículos não chegam. Segundo a jornalista, a meta é publicar conteúdos que mostrem o Brasil em sua diversidade.

Beatriz explicou ainda o funcionamento da Radioagência Nacional e ressaltou a importância das emissoras parceiras da RNCP para ampliar a variedade e a circulação de informações. “Também ajudamos pequenas emissoras que muitas vezes não têm uma grande estrutura própria de reportagem, mas, com nosso apoio, conseguem manter a sua comunidade informada. A Radioagência Nacional, com 21 anos de existência, tem se consolidado como referência em comunicação pública”, acrescentou.

A jornalista apresentou aos convidados os números da Radioagência Nacional concernentes a podcasts. Atualmente, são 16 podcasts jornalísticos publicados, três deles semanais. São 339 episódios desde 2023. Entre os temas e produções citados estão Sala de Vacina, 190 anos da Imprensa Negra, Crianças Sabidas, Golpe de 1964: Perdas e Danos e TRANSformando as Artes.

“A Radioagência Nacional tem uma média de 1 milhão de acessos por mês e 90 mil downloads, com emissoras baixando conteúdos. Mais do que distribuir notícias, a Radioagência Nacional distribui presença”, finalizou Beatriz Arcoverde.

A jornalista Eliane Gonçalves falou sobre os podcasts narrativos e a relação desse formato com a profundidade jornalística. “O podcast é um formato que ganhou o coração dos brasileiros. E o podcast narrativo me atrai muito, tenho muita paixão, porque ele dialoga com o slow journalism, em que o que interessa é a profundidade, o rigor e a reflexão. Os podcasts têm características muito marcantes, a exemplo de sua longevidade e o fato de estarem sob demanda”, explicou.

Eliane Gonçalves também tratou sobre a complexidade da produção de podcasts narrativos, que exigem pautas de vida longa, apuração aprofundada, estrutura e tempo. Apesar dos desafios, ela acrescentou que o formato se justifica por aspectos centrais, como credibilidade e retorno do público.

A jornalista Patrícia Serrão apresentou a experiência do VibeBula, podcast que trata de saúde, direitos, doenças raras e neurodiversidade de forma acessível. Com uma abordagem leve e objetiva, ela e a também jornalista da EBC Raíssa Saraiva, mulheres que vivem na pele os desafios das doenças raras e da neurodiversidade, comandam a produção.

“Quando a gente faz um programa para falar sobre deficiências e neurodivergências, queremos também que ele esteja sob o ponto de vista das pessoas que passam por isso. Também nos preocupamos em falar com médicos e associações, porque é muito difícil transcrever e explicar uma doença rara. Envolve um trabalho de pesquisa muito grande e de tradução dos termos médicos, por exemplo”, relatou.

Patrícia Serrão discorreu que a experiência pessoal das apresentadoras, aliada ao trabalho de apuração, contribui para ampliar a representatividade e o alcance do programa. Ela lembrou que o VibeBula recebeu reconhecimento em premiações jornalísticas já no primeiro ano da produção. “Graças a essa vivência, conseguimos, ainda no primeiro ano do programa, ficar entre os 100 jornalistas mais admirados do Brasil e no Top 10 dos mais admirados da saúde no Prêmio Jornalistas & Cia. O VibeBula ficou no Top 3 da categoria ‘Saúde e Bem-Estar’ do Prêmio dos Melhores Podcasts do Brasil e no Top 3 do Prêmio Einsten”, Além disso, Raíssa, Beatriz e eu estamos na final do Prêmio Mulheres Raras”, destacou.

“A gente faz a nossa parte na comunicação pública. Passamos informações públicas de qualidade, necessárias e que não são tão fáceis de conseguir. A gente espera que ouçam nossos podcasts, todos eles feitos por uma equipe muito esforçada e dedicada”, concluiu Serrão.