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Primeiro arranha-céu do Brasil, edifíco A Noite é tombado pelo Iphan

Publicado em 04/04/2013 - 15:30 e atualizado em 29/01/2016 - 09:17

Por Gerência de Comunicação Social Editor Gerência de Comunicação Social

Fonte EBC

Nesta quarta-feira, 3, o Edifício A Noite, na Praça Mauá, recebeu o título de patrimônio cultural brasileiro, concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Construído em 1929, o A Noite foi o primeiro arranha-céu da América Latina e marco da arquitetura Art Déco. Com 22 andares, foi a maior construção em concreto armado da época e teve o projeto estrutural assinado por Emílio Baumgart e o arquitetônico por Elisiário da Cunha Bahiana e Joseph Gire, este último responsável também por outros projetos grandiosos na cidade, como o Copacabana Palace e o Hotel Glória. Até ser desocupado para obras, em meados do ano passado, foi a sede de um dos mais importantes veículos de comunicação brasileiro: a Rádio Nacional.

Pertencente à União, o A Noite é cedido ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), que ocupava 18 dos 22 pavimentos, e à Empresa Brasil de Comunicação, gestora da Rádio Nacional, que mantém no prédio os lendários estúdios e o auditório que marcaram época no rádio brasileiro.  As obras pretendem acompanhar a transformação pela qual passa a região da Zona Portuária, que ganhou recentemente o Museu de Arte do Rio (MAR), na Praça Mauá, e receberá, ainda, o Museu do Amanhã, no Pier Mauá.  Com o tombamento, pretende-se buscar os investimentos necessários para a modernização do prédio que, além da restauração arquitetônica, deverá receber soluções de sustentabilidade ambiental, instalações elétricas e cabeamento de telefonia.Prédio de 22 andares, em estilo Art Déco, abriga os famosos estúdios da Rádio Nacional

 Prédio de 22 andares, em estilo Art Déco, abrigou os famosos estúdios da Rádio Nacional   

(Foto: Acervo Rádio Nacional do Rio de Janeiro)

O prédio já foi o principal mirante da cidade

Localizado de frente para a Praça Mauá, o Edifício A Noite já foi o principal mirante da cidade do Rio de Janeiro. Do seu famoso terraço é possível ter uma das mais bonitas vista da Baía da Guanabara. Quando foi erguido, os navios que ancoravam no Pier Mauá se deparavam com um edifício de estrutura arrojada, que se destacava por sua imensa massa vertical.

Construído para ser a sede do jornal A Noite, o edifício viveu nas décadas de 1940 e 1950 o apogeu da Rádio Nacional, lá instalada desde a sua criação, em 1936. Enquanto os auditórios eram tomados por populares, os restaurantes do terraço e do térreo eram frequentados pela elite carioca.

— O A Noite tinha um elevador tão rápido, que as pessoas tinham até medo de subir nele  — conta a radialista Daisy Lúcidi, há 61 anos na Rádio Nacional.  — Lá, realmente, é a nossa Casa. A história da Rádio Nacional está lá — diz, já na expectativa de retornar ao prédio e aos estúdios lendários nos quais interpretou,  nos anos de ouro do Rádio, personagens de radionovelas de autores como Dias Gomes e Janete Clair, consagrados depois também na televisão.

Daisy foi parte integrante da Época de Ouro do Rádio, quando novelas irradiadas faziam sucesso semelhante às da TV atualmente. Na música, o auditório da rádio apresentava cantores como Orlando Silva, Francisco Alves e Sílvio Caldas, além de geniais arranjos do maestro Radamés Gnattali, que hoje dá nome ao local. A radialista também comanda na emissora, há 42 anos, um programa diário de prestação de serviços: o Alô, Daisy!

Com 102 metros de altura, o A Noite foi construído em dois anos. Mas, em 1934, o edifício deixou o posto de mais alto da América Latina, com a inauguração do Edifício Martinelli, em São Paulo, com 105 metros. Um ano depois, ambos foram desbancados pelo Edifício Cavanagh, em Buenos Aires, e os seus 120 metros de altura.

 

Auditório lotado durante gravação de um programa de Paulo Gracindo (Foto: Acervo Rádio Nacional do Rio de Janeiro)

O tombamento promete garantir a reforma do edifício, que vai devolver ao A Noite o brilho e fazer juz à sua história.

— O tombamento do edifício A Noite vai preservar um trecho muito importante da história cultural e midiática do Brasil. Dos estúdios da Rádio Nacional tiveram origem as vozes/os sons que fizeram parte do imaginário popular durante décadas: desde a voz de Heron Domingues lendo o noticiário Repórter Esso, as vozes dos calouros nos programas de auditório de Paulo Gracindo ou César de Alencar e as piadas de Jararaca e Ratinho até as orquestrações do maestro Radamés Gnatalli — diz a pesquisadora Sonia Virgínia Moreira, coautora, com Luiz Carlos Saroldi, do livro “A Rádio Nacional – o Brasil em sintonia”. A Nacional, conta, também fazia transmissões de jogos com narração de Ary Barroso e abusava dos fabulosos recursos da sonoplastia, que literalmente construíam as paisagens sonoras de radionovelas e seriados.

Segundo Sonia, como parte da política de integração nacional de Vargas, a Rádio Nacional chegou a todas as regiões e conseguiu unir um país de dimensões continentais, principalmente por meio da música, e ajudou a plantar raízes sólidas da música popular, de norte a sul. — A Rádio Nacional também foi instrumento do primeiro político a usar ativamente o rádio como elemento para a disseminação de um ideário, o que transformou Vargas no personagem mítico que passou para a história. À moda da época, foi a origem do sistema que hoje começa a se estabelecer no Brasil: a radiodifusão pública, diz a pesquisadora.

Gerdal dos Santos: "A Rádio Nacional dignifica o A Noite"

Outra personagem que fez e faz história na Rádio Nacional, Gerdal dos Santos vê no tombamento do A Noite e, consequentemente, dos estúdios que marcaram a época de ouro do rádio brasileiro, um grande reconhecimento ao serviço prestado pela Rádio Nacional.

— A Rádio Nacional dignifica o A Noite. O tombamento do edifício não apenas representa um marco para a cidade do Rio de Janeiro como consagra a Rádio Nacional como meio cultural e de educação, que unificou o país ao chegar a todos os públicos, a todas as classes, diz.

Gerdal estreou na emissora em 1953, no programa Consultório sentimental, escrito e apresentado por Helena Sangirardi. Também atuou em radionovelas e em programas musicais. Durante o golpe militar de 1964, foi arrolado na célebre lista de esquerdistas afastados da emissora. Além de ser o mais antigo radiator em atividade no país, ainda hoje Gerdal apresenta dois programas na Rádio Nacional: Onde canta o sabiá, das 9h às 10h, aos sábados; e Rádio Memória, aos domingos, das 7h às 9h. O radialista também tem um quadro semanal no programa Redação Nacional, apresentado pela jornalista Neise Marçal, no qual conta a história da Rádio a partir de um grande nome citado pela jornalista.

Palco do qual emanavam e faziam eco em todo o país vozes de intérpretes como Dolores Duran, Cauby Peixoto, Dorival Caymmi, Dalva de Oliveira, Marlene, Emilinha, Carmélia Alves, Orlando Silva, Francisco Alves, Carlos Galhardo, Silvio Caldas entre tantos outros, a Nacional fez história também com O primo rico e o primo pobre, de Paulo Gracindo e Brandão Filho; emocionou com radionovelas como Em busca da felicidade, ou O direito de nascer; e seriados como Jerônimo, o herói do sertão.

—  A Rádio Nacional e o Edifício A Noite, construído pelo grupo que a criou, fazem parte do mesmo corpo. Um remete ao outro. O prédio, além de endereço da emissora, é histórico também como ícone arquitetônico, tanto pelo fato de ter sido o primeiro "arranha-céu" da América Latina, como também uma das primeiras grandes edificações em Art-Déco no país, diz o gerente da Rádio, Cristiano Ottoni de Menezes, para quem o tombamento do A Noite é um presente para a Rádio Nacional, para os ouvintes e para a cidade do Rio de Janeiro.

Amaral Gurgel e Gerdal dos Santos gravam programa nos estúdios da Rádio Nacional

 (Foto: Acervo Rádio Nacional do Rio de Janeiro)

Tombamento

Empenhada há anos no processo de tombamento, a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) tem planos de implantar no prédio um museu vinculado à história da Rádio Nacional. O diretor-geral da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Eduardo Castro, disse que o prédio deverá ser reformado para que a Rádio Nacional volte a funcionar no local e possa ser visitada pelo público: “Teremos agora o trabalho junto a órgãos estaduais, prefeitura, para que o edifício ganhe a valorização do estado físico para que tenha uma utitlização ainda mais nobre para a sociedade. A recuperação dete patrimônio é também recuperação da história do país”.

A presidenta do Iphan, Jurema Machado, explica que, com o tombamento, o órgão será um parceiro mais constante na busca de financiamento para a reforma e manutenção do prédio. Durante a reunião, os conselheiros destacaram a fachada do edifício e a associação entre a arte e a técnica utilizadas na arquitetura do prédio como aspectos que devem ser mantidos na construção. A construção é um marco da utilização do concreto armado no país.

Com informações da Agência Brasil

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