Vozes da periferia definem o que é rolezinho

Leyberson Pedrosa - Portal EBC 16.01.2014 - 18h43 | Atualizado em 20.01.2014 - 17h03

Populares e polêmicos devido aos recentes conflitos em shoppings de São Paulo, os rolezinhos recebem diferentes definições de especialistas, acadêmicos e militantes. Mas os encontros organizados pelos jovens ganham novas interpretações quando se conversa com os protagonistas dessa história, os integrantes de comunidades da periferia.


Caio Lucas

O estudante já participou de outros três rolês e resume o objetivo do encontro: “é como se fosse uma festa, mas em lugar público. Várias pessoas que se conhecem estão lá e se divertem”, conta. (Perfil do Facebook)

O Morador do Jardim Castro Alves em São Paulo, identificado apenas como Lucas, aos 14 anos, planeja a segunda edição de um rolezinho no Sesc Interlagos em São Paulo. O estudante já participou de outros três encontros: “É como se fosse uma festa, mas em lugar público. Várias pessoas que se conhecem estão lá e se divertem”, conta.

O evento puxado pelo garoto em uma rede social não será em um shopping, mesmo assim o jovem acha difícil realizar encontros em lugares abertos.“Na praça, por exemplo, é ruim porque a polícia embaça [atrapalha]. Como o estilo da música é o funk, eles pensam que a gente vai ali para roubar”, reclama. Ele, que também critica aqueles que aparecem nos rolezinhos para roubar e "queimar o filme" dos outros.

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Papel do funk
Independente do cenário, o funk é a trilha sonora que predomina o mundo desses jovens. “A maioria das pessoas que vão ao rolezinho gostam de funk”, relata Lucas. Essa é a mesma opinião do músico Mano Teko, de 30 anos, presidente da Associação dos Profissionais e Amigos do Funk (Apafunk). Para Teko, o fenômeno dos rolezinhos é uma resposta imediata à proibição do gênero musical em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em outras cidades.

Para o funkeiro de Irajá, zona norte do Rio, os rolezinhos são formas “que essa molecada encontrou para se organizar, do seu jeito, contra tantas criminalizações, perseguições sofridas, para simplesmente curtir”, completa.


mano teko

Sobre a atuação dos músicos, o presidente da Apafunk acredita que todos deveriam se posicionar de alguma forma, principalmente devido ao racismo (Divulgação)

O músico faz questão de dizer que os rolezinhos nasceram como espaço de curtição e foram condenados pelos próprios militantes e artistas da cultura negra até acontecerem os casos de opressão. “Bem antes do rolezinho nos Shoppings, o Funk Ostentação já tinha se consolidado como mais uma linguagem do Funk. E seja qual for essa linguagem, Putaria, Proibidão, Consciente, Ostentação, entre outras, ela é pedagógica”.

Sobre a atuação dos músicos, o presidente da Apafunk acredita que todos deveriam se posicionar de alguma forma, principalmente devido ao racismo. “Nossa história não é contada nas escolas e muito menos a criminalização nos espaços negros de cultura. De qualquer forma, não se inventa músico combatente. Ou ele é, ou é mais um entre tantos contadores de anedotas. E disso já estamos cheios.”

Ocupação dos espaços

Diferente da ideia inicial de se divertir, grupos sociais começaram a ver no rolezinho uma forma nova de se manifestar. “O rolezinho é um ato político mas, ao mesmo tempo, ele é bem diferente do que rolou nas manifestações de junho. O rolezinho não tem cartaz, por exemplo”, afirma Ana Paula Lisboa, de 25 anos, do Coletivo Palafita Comunicação. A jovem coordena uma agência de redes para juventude e mora Complexo da Maré no Rio de Janeiro.


Ana Paula Lisboa

Ana entende que as redes sociais passaram a agregar mais pessoas para “uma disputa do espaços ou privados por pessoas que não atendiam certos perfis (brancos, bem vestidos...)”. (Agência de Redes Para Juventude / Facebook)

A ativista entende que as redes sociais passaram a agregar mais pessoas para “uma disputa dos espaços públicos ou privados por pessoas que não atendiam certos perfis (brancos, bem vestidos...)”. Para Ana, os shoppings mais elitizados do Rio são planejados para evitar que a periferia os visite.”Tem shopping que não tem MacDonald´s. Você vai ao shopping pra ter uma 'experiência de compra' e as lojas são muito bem pensadas nesse sentido [de segregar]". Para protestar contra essa separação, o coletivo Palafitas organiza um rolezinho para o dia 2 de fevereiro no Shopping Fashion Mall do Rio.

No caso da escolha dos shoppings em vez de outros espaços, ela considera que as ruas já são de todos, por isso já são espaços mais democráticos. “Os mais pobres estão realmente tendo mais acesso, mas nem por isso estão sendo mais bem tratados”. Para exemplificar, Ana lembra do constrangimento que um amigo artista teve ao levar crianças negras da Cidade de Deus para assistir um filme e dar “rolezinhos “ no Fashion Mall. “As pessoas de lá  ficavam horrorizadas, olhando de lado, os seguranças nervosos”, enfatiza.

Já na opinião de Lucas, a opção pelos shoppings atende a uma outra motivação simples: “é porque lá vãomais pessoas e a localização é mais fácil para as pessoas da zona sul, leste e norte".

 

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