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Saída da fábrica em Pimenta Bueno (RO) - Projeto Transite

Imagem: Felipe Baenninger/Projeto Transite

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Fotógrafo pedala 30 mil km para registrar cultura do ciclismo

Criado em 22/09/15 19h27 e atualizado em 23/09/15 20h26
Por Gustavo Gomes Fonte:Portal EBC

Quem já não teve o sonho de deixar tudo para trás e colocar o pé na estrada? O fotógrafo paulistano Felipe Baenninger, de 27 anos, colocou esse ideal em prática, e, desde junho de 2013, tem cruzado o país em cima de uma bicicleta. Não foram só a vida cigana e a liberdade que motivaram o fotógrafo. A ideia do projeto Transite - Os Brasileiros e Suas Bicicletas é fazer um registro fotográfico dessa cultura dos ciclistas país afora. Ao final da viagem, os caminhos de Baenninger vão virar um fotolivro - uma das contrapartidas do financiamento coletivo conseguido pelo fotógrafo via Catarse.

Até 2013, Baenninger trabalhava com fotografia documental em São Paulo (SP). A principal inspiração dele para a viagem foi conhecer a história do seminarista conhecido como Valdo, que viajou de bicicleta por muitos anos e mantinha o blog Pedalando Pela Paz até 2010, quando morreu de morte natural no México. "Suas mensagens de paz e diários me inspiraram muito", conta. A partir daí, as viagens dentro e fora de São Paulo começaram a fazer a cabeça do ciclista.

Autorretrato - Projeto Transite
Autorretrato - Felipe Baenninger/Projeto Transite
 

    "A bike revolucionou minha vida, me trouxe questões escondidas pela cidade, e me transformei como cidadão e como  pessoa através do uso da bicicleta" comenta Baenninger.

 
Ciclista em Torres (RS) - Projeto Transite
Ciclista em Torres-RS (Felipe Baenninger/Projeto Transite)

Estrada afora

Conseguido o financiamento coletivo, Felipe saiu de Porto Alegre no dia 1° de junho de 2013. Cruzou o Sul rumo ao Espírito Santo, depois Minas, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, Rondônia, até chegar ao Acre. "Chegando no Acre, minha ideia era voltar, mas chegando lá, tudo conspirou para eu ir para Manaus. Então fiz o norte todo e desci até Goiânia", explica. A parte final do projeto, que deve ser concluída até março do ano que vem, é chegar a cidades do Nordeste. No total, serão cerca de 30 mil quilômetros percorridos de bike.

Segundo Baenninger, o maior desafio dos percursos são os veículos motorizados nas estradas, muitos deles trafegando em excesso de velocidade. "O brasileiro corre demais, e isso implica muito estresse, principalmente em estradas privatizadas, onde toda prioridade é dada ao automotor, e quase não existe fiscalização", considera. Boa parte dos trajetos é feita pelas rodovias, mas há trechos, segundo Felipe, que tem cortado caminho por estradas rurais.

Ciclista em Tarauacá (AC) - Projeto Transite
Ciclista em Tarauacá-AC (Felipe Baenninger/Projeto Transite)

"Somos, um país com muitas áreas rurais. Então se o ciclista ficar ligado e buscar informações antes de uma viagem como essa, vai encontrar coisas lindas e lugares tranquilos para viajar", aconselha.

A céu aberto

Depois dos longos dias de pedalada, Felipe, algumas vezes, conta com uma rede de apoiadores do projeto que o hospedam nos pernoites, mas já chegou até a colher quiabos em troca de um pouso. "Fora isso, existe sempre uma troca entre o hóspede e o hospedado, seja de informações, com as histórias do viajante, de energia... tudo isso é muito gratificante", comenta. Quando não consegue onde ficar, o jeito é apelar para o improviso.

Autorretrato à beira da estrada - Projeto Transite
Autorretrato à beira da estrada - (Felipe Baenninger/Projeto Transite)

"Levei barraca muito tempo, agora tenho levado uma rede. Durmo em árvores, postos de gasolina, campings, redários, hospedarias baratas...", relata. 

Lua e posto de gasolina - Projeto Transite
Felipe Baenninger/Projeto Transite

Na bagagem, vai também um kit básico de sobrevivência: mudas de roupa, fogareiro, um computador e equipamento de fotografia. "Mas não sou um bom exemplo para quem viaja", diz. "Já levei livros grandes, um berimbau e até uma impressora para imprimir as fotos e presentear os fotografados na hora", completa.

Bike na roça

Depois de tanto chão sobre duas rodas, Felipe conta que a relação do brasileiro com esse meio de transporte tem vários níveis. Mas a faceta que mais chama a atenção do fotógrafo é a da relação dos trabalhadores rurais com a magrela.

"No começo da urbanização no país, você tinha grandes distâncias para caminhar, e com o barateamento das bikes, o povo da terra teve mais acesso à bicicleta, e para eles, a bike é como uma luva: você leva peso, outras pessoas na garupa, você diminui uma caminhada de 3 horas em uma pedalada de 40 minutos", afirma.

Não por acaso, a figura do trabalhador rural é uma das que mais se repetem no galeria do Flickr que o ciclista tem atualizado constantemente.

Ciclistas rurais - Projeto Transite
Ciclistas rurais - (Felipe Baenninger/Projeto Transite)

Mas as fotos que Felipe tem tirado não se restringem aos retratos dos usuários de bicicleta pelo país. As cenas espontâneas de beira de estrada que o fotógrafo tem captado, como as crianças correndo na chuva que abrem a galeria abaixo, lembram cenas de um road movie e formam um interessante mosaico da diversidade do país.

Creative Commons - CC BY 3.0
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