Darcy Ribeiro por ele mesmo

Darcy Ribeiro durante exílio na Venezuela

Ouça no podcast abaixo a trajetória de Darcy, desde a saída de Montes Claros, passando pelo trabalho de antropólogo, a passagem pelo governo de João Goulart, o exílio após o Golpe de 1964 e o retorno à vida pública do Brasil nas últimas décadas de vida. 
 

A seguir selecionamos trechos das gravações de Darcy que constroem um mosaico de seu pensamento: discursos históricos, opiniões sobre o passado e visões de futuro.

Índios

 

Em discurso de posse no Senado em 1990, Darcy alerta para o suicídio dos Guaranis do Mato Grosso.

 "Eram jovens, rapazes e moças na flor da idade, que não achavam mais que valia a pena viver a vida de oprimidos e desenganados que nós lhes estamos impondo. Recordo ao Senado da República que essa nação índia, os guaranis, que se suicida, é remanescente do tronco indígena que mais contribuiu para a formação do Brasil"

Darcy Ribeiro entre os índios Urubu-Kaapor
Darcy Ribeiro entre os índios Urubu-Kaapor, por Acervo / Fundação Darcy Ribeiro

"No esforço de ver o mundo com os olhos deles pude quase sentir inteiramente o gozo de viver, que é privilégio de um índio isolado, e a amargura da sua existência no embate com a civilização"

UnB

Trabalhadores durante construção da Universidade de Brasília
Trabalhadores durante construção da Universidade de Brasília, por Heinz Foerthmann / Acervo Fundação Darcy Ribeiro

No discurso de inauguração da UnB, Darcy fala sobre os dois trabalhadores que morreram em um acidente durante a construção, homenageados por meio do auditórios "Dois Candangos".

"Anísio e eu planejamos a Universidade de Brasília, com a preocupação de fazer dela a casa de inteligência brasileira em que dominaríamos todo o saber humano e o colocaríamos a serviço do desenvolvimento nacional autônomo de nossa pátria". Discurso realizado em 1990 no Senado. 

Jango e Golpe de 64

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Darcy Ribeiro ministro de João Goulart / Acervo Fundação Darcy Ribeiro

"Aquele governo foi derrubado porque representava uma ameaça inadmissível para as classes dominantes nativas e seus associados estrangeiros"

Exílio

 

Futuro

Darcy Ribeiro
Darcy Ribeiro, por Acervo / Fundação Darcy Ribeiro

"Atualidade do futuro é portanto isso: é o medo, é a perplexidade, é o meu medo de que os homens façam consigo mesmo o que fizeram com as plantas, o que fizeram com os bichos: ordenar o mundo"

Entrevista com Clarice Lispector?

- E seu romance Maíra? Como é que lhe veio a vontade de escrever ficção, você antropólogo conhecido, cientista lido?

Pois é, Clarice. A tentação me roía há anos. Não resisti. E gostei muito. Foi um barato meter num enredo o meu sentimento de gozo de viver e da tristeza que é ser índio neste mundo. Creio também que escrevi um romance para ser intelectual.

- Eu sou romancista e não sou intelectual...

Só os romancistas são intelectuais... agora, como romancista, já posso dar palpite sobre qualquer coisa, saiba ou não do assunto. Romancista é assim: voz e boca do povo. Eu, você e o Antônio Callado, não é?

- Pelo menos inspiração nós temos. Ainda Bem.

Darcy Ribeiro
Darcy Ribeiro, por Ednalva Tavares / Acervo Fundação Darcy Ribeiro

Em um dos áudios, que não contém a informação da data em que foi gravado, Darcy simula uma entrevista à escritora Clarice Lispector. Ele mesmo faz ambas as vozes: pergunta e responde. Clarice publicou uma entrevista com Darcy Ribeiro na revista "Fatos & Fotos" em 14/03/1977 sob o título "Darcy (O cientista)". O conteúdo da entrevista publicada é praticamente o mesmo do áudio gravador por Darcy, com poucas edições. Fica a pergunta de como ocorreu essa interação, mas o áudio pode ser ouvido na íntegra abaixo:

Darcy Ribeiro
Darcy Ribeiro, por Acervo Fundação Darcy Ribeiro

Gravações

No acervo mantido pela Fundação Darcy Ribeiro (Fundar), encontram-se diversas fitas K7 onde Darcy gravava de tudo: diários, ensaios, reuniões políticas, discursos públicos e anotações para seus livros. Paulo Ribeiro, presidente da fundação, fala sobre esse hábito de Darcy. Segundo ele, o antropólogo teria dado a Mário Juruna o gravador para "registrar o discurso dos brancos".

 

Darcy Ribeiro sentado com seu gravador durante entrevista
Fernando Paiva / Acervo Fundação Darcy Ribeiro

O jornalista Sérgio Gomes foi escalado pelo Folhetim, tablóide que circulava com a Folha de S. Paulo aos domingos, para realizar uma entrevista com Darcy Ribeiro em 1978, quando ele havia retornado do exílio antes da Lei de Anistia. Sérgio conta que ficou surpreso que o entrevistado também gravasse a entrevista.

"Nunca tinha participado de nenhuma entrevista em que o entrevistado também gravasse".

Darcy Ribeiro durante entrevista
Darcy Ribeiro durante entrevista, por Fernando Paiva / Acervo Fundação Darcy Ribeiro

Ao final da entrevista Sérgio perguntou a Darcy o porque do gravador. Ouça na voz de Sérgio Gomes o que Darcy lhe contou na ocasião:

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Acervo / Fundação Darcy Ribeiro

Em boa parte das fitas, Darcy inicia a gravação se dirigindo a diferentes interlocutoras, provavelmente aquelas que transcreviam suas gravações. Nessa gravação ele gravação ele "conversa" com a interlocutora Bia, sobre os ruídos que poderiam prejudicar o entendimento do áudio.