Presente na memória afetiva da população como emissora que mostrou o Brasil aos brasileiros, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro foi inaugurada em 12 de setembro de 1936 ao som de “Lua do Sertão”, de João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense. Do surgimento até os anos 1960, a Nacional se firmou como grande fenômeno de expressão da cultura popular brasileira, tornando-se uma das cinco maiores rádios do mundo.

A Nacional criou formatos que passariam a se estabelecer como padrões comerciais para a comunicação de massa, como os programas de auditório, que contavam com presença do público no histórico Edifício A Noite – primeiro arranha-céu da América Latina, instalado na Praça Mauá, centro do Rio Janeiro. Grandes maestros, músicos, cantores, cantoras, locutores, radioatores, radioatrizes, apresentadores e repórteres fizeram a história da emissora. 

Em 2008, a rádio passou a ser integrante da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e teve uma ampla reformulação estrutural, técnica e de programação. Ajustes feitos com os olhos no futuro, porém sem esquecer das suas características históricas. Se antes a Nacional tinha como filosofia uma programação patrocinada e comercial, atualmente ela tem caráter cidadão, musical, cultural, noticioso e esportivo.

Relembre o passado: ouça áudios históricos e confira os artistas que trilharam os 80 anos da Nacional

Início

No dia 12 de setembro de 1936, entrava no ar a Rádio Nacional. O projeto da Companhia Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande teve início três anos antes, em 1933, quando foi constituída a Sociedade Civil Brasileira Rádio Nacional. O grupo adquiriu a sede do grupo que editava o jornal A Noite, que abrigou a emissora por 77 anos. O edifício histórico tem até hoje o nome do antigo jornal e é tombado Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Anunciada com os acordes de “Lua do Sertão”, a Nacional abriu a programação esportiva com a transmissão do seu primeiro Fla x Flu, narrado por Oduvaldo Cozzi.

Carlos Carrier, Paulo Gracindo e Ari Barroso
Carlos Carrier, Paulo Gracindo e Ari Barroso, por Acervo/Nacional

O primeiro time da Rádio Nacional era composto por nomes como o maestro Radamés Gnatalli, o professor de ginástica Osvaldo Diniz Magalhães, a locutora Ismênia dos Santos, as cantoras de samba Marília Batista e Aracy de Almeida, o compositor Lamartine Babo, e intérpretes de canções brasileiras como Orlando Silva e Nuno Roland, entre outros. Passaram por lá ainda outros músico como Caubi Peixoto, Herivelto Martins, Carlos Galhardo, Francisco Alves, Sílvio Caldas, Emilinha Borba, Dalva de Oliveira e Marlene. 

A emissora também seria o berço de grandes nomes da dramaturgia brasileira, como Paulo Gracindo, Henriquieta Brieba, Virginia Lane, Rodolfo Maia, Mario Lago, Isis de Oliveira e Janete Clair. A Nacional deu início às transmissões de radioteatro três meses após a inauguração.

Auditório da Rádio Nacional nos anos 50
Auditório da Rádio Nacional nos anos 50, por Acervo/Rádio Nacional do Rio de Janeiro

Segundo o livro "Por trás das ondas da Rádio Nacional", de Miriam Goldfeder, a incorporação da emissora ao patrimônio da União em 8 de março de 1940 - durante o governo de Getúlio Vargas -  deu condições que a levaram a ser o grande fenômeno de expressão da cultura popular brasileira e uma das cinco maiores rádios do mundo à época.

Em 1941, foi lançada a primeira história-seriada do rádio brasileiro chamada “Em busca da felicidade”, de autoria do cubano Leandro Blanco. No elenco estavam nomes como Zezé Fonseca, Iara Sales, Rodolfo Maier, Isis de Oliveira, Floriano Faissal, Saint Clair Lopes e Brandão Filho.

No mesmo ano, em 28 de agosto, surge o Repórter Esso. Com o slogan “O primeiro a dar as últimas”, o programa inicialmente não tinha um apresentador exclusivo. Mais tarde, em 1944, Heron Domingues se tornou sua voz oficial. Havia tanta credibilidade do público que considerava-se que a informações só eram de fato legitimadas quando iam ao ar no Repórter Esso.  

Com seis estúdios e uma agenda de programação ao vivo, em 1942 o famoso auditório com 496 lugares da emissora foi inaugurado no 21º andar do Edifício A Noite. Era ali que programas, apresentadores, cantores e artistas podiam sentir a vibração do público que lotava o lugar.

Em entrevista recente à emissora, o compositor João Roberto Kelly, autor de inúmeras marchinhas carnavalescas, contou que "o auditório da Nacional era o verdadeiro termômetro das marchinhas. Se o público aprovasse a música lá, com certeza ela ganharia as ruas".

Apogeu e novos rumos

A Nacional tinha hegemonia na radiodifusão brasileira e imprimiu um novo jeito de comunicar com o povo por meio de programas esportivos, humorísticos, noticiários e novelas; além de consolidar e influenciar a formação de grandes artistas brasileiros. No fim dos anos 1950, no entanto, a Rádio – que perdia força desde a morte de Getúlio Vargas (1954) – teve sua estrutura fragilizada com o impacto do surgimento da televisão, que gerou a fuga das verbas publicitárias para emissoras de TV. No início dos anos 1960, a falta de apoio ao projeto ficou clara no governo de Juscelino Kubitschek, que negou a criação de um canal de TV vinculado à Nacional. Enfraquecida, a Rádio teria deixado de responder às necessidades do público para o qual se dirigia.

Outra razão para diminuir a Nacional perante a concorrência foi a expulsão de diversos artistas, que saíram do quadro da emissora em razão da ditadura militar. Considerados “subversivos”, os comunicadores foram delatados por radialistas da própria casa, que assim passou por um processo de esvaziamento. Anos mais tarde, na década de 1980, alguns dos artistas demitidos foram reintegrados. 

Confira o especial "Eles não nos calaram", que narra esse período de afastamento dos artistas da Nacional

A apresentadora Luciana Valle e convidados no programa Tarde Nacional
A apresentadora Luciana Valle e convidados no programa Tarde Nacional, por Produção/Nacional RJ

Ainda nos anos 1960, a Rádio Nacional foi incorporada à Empresa Brasileira de Radiodifusão (Radiobrás), e ao longo dos anos mudou o caráter popular, construindo um perfil mais noticioso e esportivo. Em 2003, a Nacional do Rio de Janeiro foi revitalizada e passou a novamente refletir as informações e cultura do estado fluminense. Desde esse período até os dias de hoje, como parte integrante da Empresa Brasil de Comunicação, que sucedeu a extinta Radiobrás, a emissora segue tendo a missão de valorizar sua identidade inicial, que consiste em divulgar diversidade e atuar de forma integrada com os valores da comunicação pública e cidadã. 

Assim, a Nacional continua a registrar encontros musicais históricos, como os realizados pelo programa do conjunto Época de Ouro, lendário grupo de choro criado por Jacob do Bandolim, que hoje ganhou também a web - confira aqui a participação de Paulinho da Viola. A emissora segue difundindo novos e grandes nomes da música brasileira como nos programas Garimpo, comandados pelo músico Cláudio Jorge (escute a entrevista em que Chico Anysio fala das músicas que compôs em edição especial para os 75 anos da emissora); o Ponto do Samba, que leva a voz do comunicador e multi-artista Rubem Confete e mostra diariamente novidades e pérolas do gênero (como nesta edição com Monarco); e Adelzon, o amigo da madrugada, que conta com o carimbo do produtor musical e radialista Adelzon Alves na transmissão de conteúdos e conhecimento do comunicador que há pelo menos 50 anos atua nos bastidores da Música Popular Brasileira.

Informação e variedades também são destaques com os programas Tarde Nacional, nos debates do Tema Livre, Dito e Feito e no histórico Alô Daisy, apresentado há mais de 45 anos pela atriz e comunicadora Dayse Lúcidi. 

Reflexo do povo brasileiro, os esportes garantem as análises, notícias e coberturas para amantes do futebol e de outros esportes. A Rádio Nacional, por meio da equipe que produz, compõe e apresenta os programas no Mundo da Bola e Bate Bola Nacional, leva ao ouvinte as transmissões e emoções de jogos e competições. As Olimpíadas 2016 ganharam voz na internet e nas ondas do rádio também pela Nacional. 

Fontes: 
Artigo “Rádio Nacional, uma história de glórias e traumas”, de Cristiano Ottoni de Menezes, publicado na Revista do Festival Internacional de Cinema de Arquivo, do Arquivo Nacional (setembro de 2009); Livros “Por trás das ondas da Rádio Nacional”, de Miriam Goldfeder; “20 anos da Rádio Nacional” e Livro “Rádio Nacional - o Brasil em sintonia”, de Luiz Carlos Saroldi e Sonia Virginia Moreira; colaboração de Marcos Gomes e  do quadro "O Rádio faz história”, da MEC AM com Marco Aurélio Carvalho.

Galeria de imagens - Rádio Nacional 80 anos

O animador de auditório Manoel Barcelos, o comunicador Renato Murce, o locutor Cesar Ladeira, o escritor Amaral Gurgel, o radialista Luiz Mendes, a radioatriz Ismênia dos Santos, o cantor Francisco Alves “o Rei da Voz”, a cantora Emilinha Borba e o apresentador César de Alencar.