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Política para prevenção da obesidade precisa ser ampla e integrada, afirmam especialistas

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Política para prevenção da obesidade precisa ser ampla e integrada, afirmam especialistas

Criado em 19/07/12 17h41 e atualizado em 03/08/12 18h14
Por Fonte:Instituto Alana

O Criança e Consumo fez algumas perguntas para o Grupo Especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares sobre como é possível pensar em políticas públicas que sejam eficientes na prevenção ao problema da obesidade, que hoje afeta muitos adultos e já atinge 15% das crianças brasileiras. Confira as respostas.


De que forma é possível desenvolver políticas públicas de prevenção da obesidade?

Esse é um assunto muito importante. Especialmente ao ter em mente a obesidade como uma doença multifatorial, complexa e que envolve diversos fatores, entre eles: genéticos, metabólicos, históricos, ecológicos, emocionais, sociais, econômicos, simbólicos e de estilo de vida.


O tema de políticas públicas na prevenção da obesidade é discutido mundialmente. Suas diretrizes mais recentes indicam fortemente que essas políticas tenham caráter intersetorial, ou seja, essa não é só uma questão de políticas no setor da saúde, mas também na educação, cultura, comércio e mídia. Mais do que isso, essas políticas precisam estar conectadas.


Os programas de prevenção à obesidade tendem a focar excessivamente no peso e na culpabilização do indivíduo. Entretanto, podemos olhar essa situação com as lentes do Sistema Único de Saúde (SUS) por meio das diretrizes da Política Nacional de Humanização (PNH) que dispõe que a “culpa” e o “medo” não são bons aliados nesse tipo de estratégia, e que é preciso tomar cuidado para que essas intervenções não gerem outras doenças.


Assim, uma política para prevenção da obesidade precisa ser ampla e integrada. Não ser centrada no peso, mas em comportamentos e sua relação com o bem-estar:


• Envolver aspectos alimentares de uma maneira não-rígida, prática, possível, sustentável, que evite reduzir os alimentos à nutrientes, e que enfatize o prazer na alimentação como um  aliado e não como um inimigo;

• Possibilitar o acesso aos alimentos de todos os grupos alimentares para as pessoas de todas as classes sociais;

• Trabalhar a atividade física de uma perspectiva além das academias de ginásticas, mas de uma maneira possível para todas as pessoas de todas as classes sociais e tamanhos, centrada no prazer;

• Promover a imagem corporal de uma forma positiva, de forma a aceitar e respeitar a diversidade dos tipos de corpos existentes, não estimulando o ódio ao corpo;

• Controlar as propagandas e comércio de alimentos industrializados, medicamentos e produtos com alegações para controle/redução de peso.


Os profissionais de saúde também se beneficiariam de capacitação para compreender o tema de uma forma mais ampla, além do “coma pouco e exercite-se” de forma que fosse congruente com os princípios da PNH e os pontos já apresentados.

Como a sociedade, a escola e as comunidades podem ser parceiras e contribuir para que estas ações funcionem?

Como as diretrizes mais recentes indicam que as políticas públicas para a prevenção da obesidade tenham caráter intersetorial, ou seja, que atuem nas áreas da saúde, educação, cultura, comércio, mídia, entre outras - a sociedade, a escola e as comunidades devem ser incluídas nas discussões sobre o tema e consideradas parceiras na realização conjunta dos projetos e campanhas.

A obesidade e outros problemas alimentares são sintomas de um contexto social e cultural que inibe o desenvolvimento de padrões de alimentação e atividade física normais alem de desencorajar o respeito pela diversidade das formas corporais.

Nesse sentido a sociedade, as escolas e a comunidade devem ser alvos dos programas de capacitação com o objetivo de compreender o tema de forma mais ampla, além do “coma pouco e exercite-se” sendo capazes de promover uma política de prevenção ampla e integrada, que possa se tornar um programa nacional de responsabilidade social.

As ações e estratégias de prevenção devem abordar de forma conjunta a obesidade e outros problemas relacionados a peso e alimentação e ter foco em nutrição, atividade física, imagem corporal, influência da mídia e auto-estima.


Para exemplificar: considerando uma das ações citadas - “possibilitar o acesso aos alimentos de todos os grupos alimentares para as pessoas de todas as classes sociais” – para que de fato se consiga uma mudança no consumo alimentar de alguns alimentos como frutas e verduras é essencial que as comunidades tenham acesso a feiras-livres, com custos viáveis para que possam ter condições de comprá-los e transportar para suas casas onde muitas vezes o transporte público é precário. Alem disso é preciso criar campanhas de incentivo ao consumo desses alimentos que incluam as famílias e a merenda escolar, sendo a escola o ambiente mais favorável para acontecer essa integração. Uma ação hoje colocada para a sociedade e comunidade apenas como “Coma mais frutas e verduras” não será eficaz se as ações não acontecerem de forma sinérgica entre todos os setores.

Vocês acreditam que a publicidade contribui de maneira negativa para ações de prevenção da obesidade? De que forma?

A publicidade é uma área ampla, possui diversas vertentes, depende de leis e código de ética de cada país, cultura e de quem está por trás dela (empresas, governo, indústria alimentar ou da moda e dieta, etc). Portanto não podemos generalizar e dizer que a publicidade, em geral, contribui negativamente para as ações preventivas da obesidade. Mas podemos alegar que determinadas propagandas e ações com foco em emagrecimento muitas vezes são mais permeadas por razões estéticas do que sanitárias, principalmente quando oriundas de empresas e instituições que lucram com a indústria do emagrecimento e podem, implicitamente, estar carregadas de estigmatização da obesidade.


Um exemplo de propaganda negativa recente foi a do famoso nutrólogo fundador da Dieta Dukan na França. Ele propôs que alunos franceses do ensino médio ganhassem nota extra por não estarem acima do peso o que foi fortemente contestado por outras autoridades médicas. Porém, como celebridades importantes anunciaram que se submeteram a essa dieta, seus livros foram vastamente vendidos, as pessoas criaram confiança e admiração por Dukan, sendo suas declarações de grande impacto populacional. Outros exemplos de propaganda negativa são as dietas e métodos de emagrecimento semanais publicadas nas revistas de grande veiculação nacional, apoiadas por profissionais da área da saúde, ao invés de reforçarem a reeducação alimentar individual.


Um exemplo de sucesso envolvendo publicidade é do governo Australiano. A ministra da juventude anunciou um investimento grande em estratégias de imagem corporal positiva. Uma das estratégias foi criar um código de conduta midiática, onde propagandas para crianças e adolescentes passam por uma banca de autoridades em imagem corporal para ver se o conteúdo é adequado, contedo: diversidade de formas corporais, cuidados com imagens digitalmente alteradas e melhoradas, modelos saudáveis e exposição adequada.


No Brasil ainda temos pouca experiência em publicidade positiva para a prevenção de obesidade e problemas alimentares. Estamos insistindo no foco do emagrecimento e perda de peso desde 1970, quando a ética da dieta começou a predominar, e só vemos os números da obesidade e transtornos alimentares crescerem vertiginosamente. A integração de políticas públicas como as do SUS-PNH com treinamento propício dos educadores, já seria um avanço muito grande. Porém o ideal seria a parceria com a publicidade na mesma direção que essas propostas, para que não houvesse conflito entre as informações aprendidas na escola e as internalizadas pelo indivíduo através de publicidade negativa que aqui no Brasil, infelizmente, ainda é muito frequente.


É possível desenvolver campanhas de comunicação que sejam positivas para o tratamento e prevenção da obesidade? Quais seriam os cuidados que essas deveriam ter?


Sim é possível e extremamente essencial que se amplie a atuação da mídia de forma positiva para o tratamento e prevenção da obesidade no Brasil.


De acordo com o Instituto Midiativa, em 2006 as crianças brasileiras passam em média 4h45minutos por dia na frente da TV. O estudo mostrou que 25% das crianças assistem a TV 4 ou mais vezes por dia (classificadas como “consumidores frequentes”). Esses dados mostram o quanto a mídia, em especial a televisão, tem a possibilidade de atingir de forma imediata, extensiva e eficaz, especialmente o público infantil e adolescente com campanhas positivas sobre corpo, imagem corporal, diversidade, atividade física saudável, comer em família.


Por outro lado uma das razões que contribuem para o sedentarismo entre crianças e adolescentes hoje são as modernidades da televisão, computadores e videogames, nesse sentido há a demanda de campanhas que estimulem atividades que promovam mais interação real e não virtual entre crianças e jovens como jogos, brincadeiras e esportes ao ar livre.


A mídia influencia o comportamento e pensamento de sua audiência e tem um papel crucial na formação e reflexão da opinião pública podendo influenciar valores e normas de forma tanto negativa como positiva.


Campanhas positivas devem estimular o consumo de uma diversidade de alimentos com valor nutricional comprovados, sem falsas alegações e apelações (brinquedos, prêmios etc); promover práticas de atividade física centradas no prazer e nas trocas sociais; promover a imagem corporal de forma positiva incentivando a aceitação das diversas formas corporais e étnicas no lugar de um modelo ideal e único de beleza; promover e incentivar as relações e programas em família.

O GENTA desenvolve algum programa que considera eficaz na prevenção da obesidade infantil? Se sim, fale um pouco sobre ele.


Além de atuar na prevenção terciária, ou seja, no tratamento de pessoas com transtornos alimentares e obesidade para melhorar a qualidade de vida e minimizar complicações, o GENTA atua também na prevenção primária universal e seletiva. As estratégias de prevenção são chamadas de primárias quando focam todas as pessoas, mesmo sem comportamento de risco; e de universais quando atingem toda população independente da faixa etária, gênero, profissão, etc. Já a prevenção seletiva é direcionada a grupos que por alguma razão têm risco aumentado, como meninas adolescentes para transtornos alimentares e crianças para obesidade.


As ações de prevenção primária do GENTA envolvem palestras consoantes com os temas considerados de importância em políticas públicas para a prevenção da obesidade e abordam temas sobre: transtornos alimentares, comportamento alimentar e atividade física saudável, ditadura da beleza e insatisfação corporal e influência da mídia. Tais temas são debatidos e trabalhados com adolescentes, pais e professores em escolas e, como são formadores de opinião e responsáveis diretos pelo cuidado das crianças, acreditamos que seja eficaz trabalhar estes temas com as famílias e os educadores.


Da mesma forma consideramos eficaz trabalhar os temas acima citados com profissionais e estudantes da área da saúde - como nutricionistas, psicólogos, educadores físicos - para que estes possam ter uma visão mais adequada e humanizada do problema da obesidade infantil.


Palestras para estudantes da área de moda, publicidade e marketing também fazem parte do trabalho do GENTA, para provocar uma reflexão – e quiçá mudança – nas propagandas e comércio, não só de alimentos, mas também sobre o uso do corpo de forma extremamente sexualizada e idealizada de maneira irreal na mídia.

Creative Commons - CC BY 3.0

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