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Fotografia de uma manifestação de militares com faixa alusiva ao crime da rua Toneleros em Copacabana, Rio de Janeiro – 1954

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Crime da Rua Tonelero, um dos estopins para o suicídio de Getúlio, não foi totalmente esclarecido

Criado em 21/08/14 19h34 e atualizado em 23/08/14 13h19
Por Leandro Melito Fonte:Portal EBC

O auge da crise que levou os militares a pedirem a renúncia de Getúlio Vargas em 1954 foi o atentado contra o principal opositor do governo Vargas, o jornalista Carlos Lacerda, na madrugada do dia 5 de agosto de 1954 na rua Tonelero, 180, em Copacabana (Rio de Janeiro). "Naquela noite, o Getúlio começa a morrer", considera Lira Neto, autor da biografia em três volumes sobre o político.

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As investigações sobre o episódio apontaram a participação de três integrantes da guarda presidencial de Getúlio. Um deles, Gregório Fortunato, chefe da guarda presidencial, teria sido o mandante do crime. O fato deu munição para os opositores de Getúlio, em especial o próprio Lacerda, pedirem a renúnica do presidente. O clima foi corroborado pela imprensa e chegou aos meios militares que também exigiram que o chefe do governo entregasse o cargo. Sem conseguir contornar a situação, Getúlio optou pelo suicídio.

Sessenta anos após a morte do presidente, o crime da Rua Tonelero não foi até hoje totalmente esclarecido, aponta o biógrafo Lira Neto. Segundo ele, alguns fatos ainda levantam dúvidas sobre o que realmente aconteceu naquela madrugada de 5 de agosto de 1954: a arma utilizada por Lacerda, que não foi apresentada no inquérito, e o prontuário do atendimento médico teria recebido pelo ferimento da bala são alguns deles. Assista trecho da entrevista com Lira Neto:

 

O crime da rua Tonelero

Lacerda conversava com o major Vaz, integrante da equipe de oficiais que faziam espontaneamente sua guarda pessoal durante a campanha do jornalista para deputado federal, quando um homem disparou contra eles. O jornalista correu para a garagem de seu prédio e voltou para revidar os tiros. O autor dos disparos conseguiu fugir em um carro, que teve a placa anotada pelo guarda municipal Sálvio Romeiro, atingido por um disparo. Ao todo seriam três pistoleiros envolvidos segundo a primeira versão contada por Lacerda, que também foi atingido por um tiro na perna.

O motorista do automóvel, Nelson Raimundo, que teve a placa anotada pelo vigilante, apresentou-se na delegacia ainda naquela madrugada. Ele afirmou que fez uma corrida de táxi, mas disse que não conhecia os passageiros e não sabia o motivo da corrida. O que chamou a atenção nas declarações do motorista foi o local onde ele fazia ponto como taxista: a rua Silveira Martins, bem ao lado do Palácio do Catete. Nas páginas de seu jornal, A Tribuna da Imprensa, Lacerda apontou Getúlio como culpado pelo atentado. "Acuso um só homem como responsável por esse crime. É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá audácia para atos como o dessa noite. Este homem chama-se Getúlio Vargas", escreveu.

O motorista Nelson Raimundo continuou detido e na madrugada do dia 7 para o dia 8 de agosto fez novas revelações. Ele teria transportado dois homens, mas apenas um ele conhecia: Climério Euribes de Almeida, integrante da guarda pessoal do presidente Vargas. Nascido e criado em São Borja (RS), Climério fez parte do batalhão provisório comandado pelo irmão de Getúlio, Benjamin Vargas, durante os combates à revolução paulista de 1932, assim como Gregório Fortunato, o chefe da guarda presidencial.

A movimentação das Forças Armadas

Militares pedem punição ao crime da rua Tonelero em 1954
Fotografia de uma manifestação de militares com faixa alusiva ao crime da rua Toneleros em Copacabana, Rio de Janeiro 1954 (Arquivo Nacional / Agência Nacional)

Com base nas revelações de Raimundo, Getúlio decide extinguir a guarda presidencial, mas já chegavam ao Palácio informações de que a Aeronáutica estava em estado de sublevação - os majores não obedeciam mais aos superiores. No Clube Militar, 3 mil oficiais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica aprovaram uma moção cobrando mais esforços na apuração do crime e a punição rigorosa dos responsáveis.

Dias depois, o brigadeiro Eduardo Gomes, opositor de Getúlio, passou a liderar o movimento pela sua derrubada ao ser declarado, por aclamação, "chefe incontestável" da Força Aérea, em uma reunião da oficialidade no clube da instituição.

Em seguida, Gomes participou de uma reunião secreta com altas patentes militares com o objetivo de pressionar o ministro da Guerra, general Zenóbio da Costa, a apresentar a proposta de renúncia ao presidente. Zenóbio, que depois seria procurado pelo próprio Lacerda com o mesmo objetivo, se negou a participar da deposição de Getúlio. 

Anjo Negro

A polícia chegou ao segundo nome que estaria no carro no dia do atentado. Após interrogatório, Alcino João do Nascimento confessou ter atirado no major, após uma luta corporal, mas afirmou que havia sido contratado para matar Lacerda. 

Dias depois, o subchefe da extina guarda pessoal de Getúlio, João Valente de Souza confessou ter facilitado a fuga de Climário e Alcino, dando instruções e repassado a eles o dinheiro entregue por Gregório Fortunato. No domingo, dia 15 de agosto, o Anjo Negro, como era conhecido, foi preso.

Climério, que ainda estava foragido, é encontrado no dia seguinte e confirma que o dinheiro para a fuga teria sido entregue por Gregório. No dia 19, José Antonio Soares, apontado como intermediário entre Climério e Alcino, também foi preso. Após vasculharem os papeis de Gregório Fortunato, os responsáveis pelo Inquérito Policial Militar descobriram que ele era dono de uma fortuna incompatível com o seu salário. Os documentos distribuídos à imprensa passaram a ser divulgados a partir de 20 de agosto.

"Só morto sairei do Catete!"

No dia 21 de agosto, o vice presidente Café Filho apresentou pessoalmente a Getúlio uma proposta de dupla renúncia. Ambos deixariam o cargo para contornar a crise institucional. Getúlio disse que iria consultar alguns amigos antes de uma decisão. No dia 22, as mais altas patentes da Força Aérea se reuniram em assembleia no Clube da Aernonautica, local onde os oficiais responsáveis pelo IPM apresentaram resultado das investigações até ali e pediram aos brigadeiros que assumissem a direção dos acontecimentos.

Chamados a agir, os brigadeiros elaboraram um manifesto exigindo a renúncia imediata de Getúlio. O manifesto foi entregue ao então presidente pelo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, marechal Mascarenhas de Moraes. "Marechal, em 1945, eu estava no governo mantido pela vontade das armas. Atualmente, fui eleito pelo povo, e não posso sair daqui enxotado pelas Forças Armadas. Não renuncio; daqui só sairei morto e o meu cadáver servirá de protesto contra essa injustiça", disse Getúlio. Logo depois, o presidente recebia novamente Café Filho, para saber sua decisão sobre os últimos acontecimentos. "Não renunciarei de maneira alguma. Se tentarem tomar o Catete, terão de passar sobre meu cadáver". A edição do jornal Última Hora, editado por Samuel Wainer e único veículo favorável ao ex-presidente, estampou na capa "Só morto sairei do Catete!".

A última reunião

Ainda no dia 23, por volta das 11h, a alta oficialidade da Marinha reuniu-se em assembleia e decidiu apoiar as exigência da Aeronáutica e lançar o manifesto dos almirantes. O manifesto dos generais, já tinha sido redigido na noite anterior na casa do chefe do Estado-Maior do Exército. Por volta das 23h, com a assinatura de 27 generais, o documento foi entregue ao ministro da Guerra, general Zenóbio, para que ele entregasse ao presidente. Zenóbio chegou ao Catete por volta da 0h daquele 24 de agosto, acompanhado do marechal Mascarenhas de Moraes para comunicar a Getúlio que o manifesto seria divulgado dentro de algumas horas e ele estaria deposto.

Getúlio começou a convocar os ministros por volta das 12h30. A última reunião ministerial do presidente iniciou por volta das 2h da manhã daquele dia 24 e foi acompanhada também por sua esposa Darcy e os filhos Alzira, Lutero e Maneco. Por volta das 5h30 terminaram as discussões com a decisão de que Getúlio se afastaria do cargo por três meses em uma tentativa de solucionar a crise. Getúlio se recolheu aos seus aposentos e, por volta das 8h35 o tiro ecoou pelo palácio.

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